| Quinta-feira, Outubro 16, 2008 |
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As Memórias de uma Remington

A noite fresca avança sem pressa.
A luz fraca ilumina a sala de leitura. Sombras estáticas compõem o cenário marcado pelos móveis escuros, de madeira maciça e estofado de couro lustroso. Não venta e apenas algumas folhas da árvore perto da grande janela se movem quando a brisa passa.
O som da velha Remington ecoa pelo ambiente, lutando contra o silêncio e a calma tão comuns àquele lugar. Toc. Toc. Toc. Toc. Uma palavra. Toc. Toc. Toc. Mais uma. E as folhas de sulfite ganham nova forma, tatuadas ao bel- prazer dos caracteres de chumbo. A batida é forte, a fita de duas cores com a camada preta já gasta sobe, o papel cumpre sua função. Toc. Toc. To...
O pensamento é interrompido. Você dorme no divã ao lado. Penso em seus sonhos, como foi seu dia, se gostou do jantar que preparei. A boca entreaberta permite que palavras não ditas ganhem o ar. Seus lábios se movem, mas sem som. Algo importante acontece em seus devaneios.
Toc. Toc. Toc. Tic. Toc. Toc. A datilografia continua. A caneca de chocolate quente com licor irlandês e biscoitos espalham seu aroma adocicado e reconfortante no canto onde está a escrivaninha. Cada uma de suas gavetinhas contém uma história, uma função, um momento em que elas deixaram de ser peças inanimadas para inspirar algumas daquelas letras. Toc. Toc. Uma interrupção. Como descrever a maçaneta daquela porta tão importante na trama? Os dedos tamborilam e os olhos deslizam pelo cenário e fixam-se no pequeno puxador da gaveta no topo direito superior. O puxador parece aumentar, ganha proporções de gente grande, ali não existe mais uma gaveta. Agora é uma porta e ela leva à solução da história. Seus detalhes deixam a simples realidade de um pedaço de mobília para ganhar a eternidade. Toc. Toc.
O papel cumpre sua função. As últimas batidas de algo que começou há anos. Milhares de páginas tatuadas pela eternidade. Borrões em algumas delas, outro grande número de folhas amassadas no cesto de lixo. Não há espaço para erro ou desleixo. Toc. Tic. Toc. Toc. Toc. Os dedos estão cansados. Você continua dormindo.
Uma das bonequinhas se move na grande poltrona almofadada. Ninguém percebe. Ela se move novamente e, em instantes, um cachorro de pelúcia se junta a ela. Ambos olham para você. Seus olhos de acrílico eternamente fixos contemplam seu sonho, pensativos, profundos, imutáveis. Eles devem ter trocado confidências sobre o que viam, coisa de bichos de pelúcia, os melhores companheiros. Sempre dispostos, sempre presentes. Para rir e se molhar, voar pelo ar ou perder um braço – ou uma asa, no caso das fadas – sempre que necessário. Mas sem nunca reclamar. O som da máquina de escrever fica mais leve. Tec. Tec. Tic. Tec...
Um gole de chocolate quente anima o espírito. Uma recompensa merecida. Falta um parágrafo. O gosto do licor provoca lembranças boêmias, das noites sem dormir – sempre escrevendo – e dos poemas imaginados durante as perambulações na vila. Lembranças. Muito tempo atrás. Antes de você. Antes do peixe-palhaço que, agora, compartilhava a poltrona com o pug maltrapilho, a bonequinha e uma caixa misteriosa. Perplexidade. Por alguma razão, o relógio entra no campo de visão. É madrugada. O olhar se volta para você.
Você ainda dorme.
Os dedos deslizam pelas teclas da Remington com leveza e deleite. A pilha de páginas ao lado ganha a importância de um troféu. Um grande prêmio, como se todas aquelas folhas fossem uma preparação para aquelas últimas linhas. Tec. Tec. Tic. Tec... enfim, a conclusão. “Ele tomou a decisão que mudaria o mundo”. Toc. Ponto Final. Girar o controle de pressão da folha para retirá-la da máquina foi instintivo. Era a última. A página suspensa em frente aos olhos, como a um filho recém-nascido. Um respiro profundo valoriza o momento. A cadeira de couro marrom rodopia na sua direção para apresentar o rebento, mesmo que de forma silenciosa. O movimento chamou a atenção para a poltrona com seus ocupantes misteriosos. vazia. Como se nada tivesse acontecido. Um sonho acordado talvez? O giro se completou.
Você ainda dorme, mas não está mais sozinha. O cachorro, o peixe, a fada, um par de sapatos, uma boneca gigante e a tal caixa misteriosa ficam ao seu redor. Um cenário improvável. Licor demais? Sono atrasado? Devâneio provocado pela felicidade do momento? E foi quando ela apareceu.
A pequenina surge em meio aos brinquedos passeadores. Ela a idolatra, contempla e falava baixo com seus amigos inanimados sem ligar para o horário ou para a escuridão. Olha para mim. Seu sorriso angelical cruza a sala. Eu sei o que vai acontecer. Você não.
“MAMÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAEEEEEEEEEEEE!”
A noite é uma criança.
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Nasceu em devaneio às 20:53
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| Terça-feira, Junho 10, 2008 |
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Buscas
Onde encontrar paz quando você está distante? Quando sorrir, se você não estará aqui para ver? Se acordo feliz, logo me lembro da real felicidade. Logo estaremos juntos, nesta vida ou na próxima. Nestes dias tempestuosos, busco apenas minhas memórias. Busco a lembrança de seu sorriso, mesmo bravios. Mesmo te amando, sinto que te perco. Sinto tanto que machuca, por incontáveis vezes basta apenas olhar para o lado e não te encontrar. Por não poder te ver, nem te sentir. Nem mesmo a distância pode apagar meu carinho. Pode ser bobeira, pura tristeza passageira. Puro amor machucado, mas sincero. Mas nada é mais forte que minhas certezas. Que vencerão, não importa onde, quando, como... 08/06/2008 Universal Studios Marcadores: Los Angeles, Luiza, Poema
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Nasceu em devaneio às 00:37
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| Terça-feira, Junho 03, 2008 |
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SOS Hollywood
Estou pensando em retonar a postar aqui, mas, por enquanto, meus esforços estão focados no meu primeiro livro e no novo blog de trabalho: SOS Hollywood (http://www.soshollywood.com).
Para quem não sabe, mudei para Los Angeles e estou trabalhando como correspondente internacional.
Abraços e visitem o novo blog!
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Nasceu em devaneio às 18:06
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| Quarta-feira, Novembro 07, 2007 |
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As sombras podem insistir em tentar cair sobre o mundo, mas momentos de luz mantém nossa esperança. E momentos assim só podem ser criados por pessoas especiais e boas. É isso que vivemos aqui hoje. Há muito tempo, o mundo era um só, mas se separou e criou seus diversos povos. Nossos antepassados. Todos aqueles que trilharam o caminho que hoje seguimos. Honramos todos eles com nossa vida e, mais que tudo, com nossa felicidade e fé. Fé num mundo melhor. Num mundo que não precise de cura. Muitos podem nos chamar de tolos por celebrar as velhas tradições, mas essa tolice traz bondade e muita felicidade até mesmo para a própria terra em que pisamos nesse instante. Assim como ela, nós fazemos parte desse mundo. Porém, diferente dela, nós podemos fazer a diferença. Podemos fazer escolhas que importam. Hoje, Yuri e Claudio mostram o motivo de serem especiais. Esse círculo sagrado, do qual participo com muita honra e emoção, é mais um pequeno passo em direção a um futuro promissor. E, sem medo de ser piegas, um futuro de amor e compaixão. Idéias podem mover nações, mas só o amor e a paixão pelas pessoas e por essas tais idéias é capaz de promover a mudança no mundo. A cura sempre buscada pelos druidas. Muitos de nós aqui nos conhecemos por causa de paixões em comum e hoje, presenciamos e honramos, o resultado da paixão e do amor entre a Yuri e o Claudio. O caminho de vocês já começou faz tempo, mas, agora os deuses olham por vocês. Eles não pedem dinheiro, não pedem orações, não pedem fanatismo. Pedem... na verdade clamam, para que suas vidas sejam honrosas, que sua sabedoria seja transmitida a seus filhos e que nunca deixem de respeitar um ao outro e a todos que estejam à sua volta. Lembrem-se, cada passo muda a vida de tudo e todos em nosso mundo. Vivam com companheirismo e honestidade, pois isso fará com que todos os seus passos gerem o bem para todos nós. Os deuses olham por nós, se fazem presentes com a brisa, um facho de luz num dia de chuva, na inspiração, mas é nossa a obrigação de viver com dignidade. Acima de tudo, vivam e façam de suas vidas e de sua união, exemplos para quem quiser ver. Amar e respeitar não é uma obrigação, é uma escolha, que agora vocês tomam definitivamente e lhe somos muito gratos por estarmos presentes num momento tão único, especial e sagrado. Que os olhos de todos os pássaros guiem sua visão, que a força de todos os ursos garantam a sinceridade de seus abraços, que a sabedoria de todos os seus ancestrais acompanhem suas decisões e que a serenidade de todos os druidas do passado e do presente mantenham sempre a vida de vocês no rumo que escolherem. Na paz eu os conheci. E na paz quero sempre encontra-los, meus amigos. Sinto-me honrado ao dizer essas palavras e espero que vocês se sintam felizes por, uma vez mais, trazer esperança e luz a um mundo cada vez mais carente de pessoas boas e especiais como vocês. Que os deuses sempre iluminem suas vidas. O futuro é de vocês.
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Yuri e Claudio, parabéns e boa sorte!Marcadores: Bárdico, Casamento, Druídico
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Nasceu em devaneio às 23:15
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| Sexta-feira, Junho 29, 2007 |
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A Primeira Decisão
Por mais que os anos tenham mostrado a Beregond que ser bardo era sua missão, nem sempre foi assim tão fácil levar suas palavras aos ouvidos desconfiados de outras pessoas. Na verdade, era difícil até mesmo falar com sua própria voz e transmitir tudo aquilo que sua inspiração lhe trazia. Depois de um dia difícil, no qual vários aprendizes haviam se mostrado contrários ao modo antigo e aos conceitos das velhas histórias, ele decidiu contar uma nova passagem de sua vida. O dia em que encontrou a inspiração. Foi bem fácil lembrar, novamente, da casa de seu pai. Desta vez, porém, não havia nenhuma lição que seus pais pudessem lhe transmitir. Aquela era sua hora, única e exclusiva dele. Mas, como tudo na vida, Beregond só perceberia a singularidade daquele momento mais tarde. Seu pai havia acabado de voltar de uma caçada, que terminou com uma breve reunião dos chefes de família de Tara. Havia um rebuliço envolvendo rumores de guerra ao Norte e ao Leste, mas aquela terra era afortunada e poucos de seus filhos perdiam a vida em batalhas, já que poucas aconteciam naquelas paragens. Trouxera consigo boa carne e algumas frutas que colheu, como de costume, no caminho de volta. O fogo já estava aceso e, quando o jovem Beregond desceu da árvore que explorava no bosque, faltava pouco para que o cervo lhes fornecesse alimento para aquela noite. Beregond limitou-se a olhar para o grande espeto que girava sobre as labaredas. Ouviu um pio e, pela primeira vez, encontrou seu amigo Pardal. Ele repousava sobre a janela e apenas observava. Mas, como muita coisa naquela noite, o Pardal ainda era um pequeno detalhe. Seus pais discutiam alegremente sobre os planos para a próxima estação, porém, um desacordo acabou com a alegria e o clima tenso incomodou Beregond. Sem saber o real motivo, ele sabia como resolver aquele impasse, que, a seu ver, era algo bem simples. Porém, sempre havia ficado de fora de discussões dos adultos – não importava se envolvessem seus pais ou os líderes de Tara nas reuniões na cidade. Uma tristeza muito grande tomou conta do bardo. Ele continuou sentado e pensativo enquanto acompanhava o cervo sobre o fogo. Já havia pedido permissão ao espírito do animal para que sua família se alimentasse uma vez, mas, sentiu que uma nova benção era necessária, já que suas preces sempre levavam como justificativa o clima de harmonia com o qual sua família faria a refeição. A discussão aconteceu por conta do último inverno, que castigou a casa de Beregond e tornou a vida muito difícil por causa do frio e da neve que entrava por algumas frestas na madeira. O pai de Beregond queria construir uma nova casa, menor, mas num local menos castigado pela nevasca para passarem os invernos. Sua mãe, porém, relutava por precisar ficar longe de seus próprios pais e irmãos, que ali moravam. Beregond lembrava-se muito bem daquele inverno. A comida não faltava, mas era difícil dormir, os dedos doíam e não havia pele que os protegesse do rigor do frio. O jovem sabia que algo precisaria ser feito. Seu pai adorava construir coisas, melhorar o que havia feito e sempre se adaptava aos novos desafios. Sua mãe, por outro lado, tinha conceitos muito arraigados, tinha medo de viver longe da família e tinha medo do novo, do que não pudesse controlar. De certa forma, ambos se completavam, mas essa completude começava a causar problemas. No dia seguinte, no mesmo horário, o jantar estava posto. Embora o cheiro do ensopado estivesse delicioso, não havia aquele lampejo de alegria nas conversas. Apenas um silêncio incômodo envolvia a todos. Beregond havia passado o dia no Bosque onde, pela primeira vez, o Pardal se apresentou. Eles conversaram sobre as criaturas do lugar e o jovem perguntou a seu novo amigo sobre o que fazer. O pássaro alçou vôo, girou ao redor da copa das árvores e, minutos depois, pousou novamente ao lado de Beregond. Sua resposta veio em seguida. – Os pássaros migram para o Sul, com o frio. É nossa natureza pura e simples. Foi assim com nossos ancestrais e será assim com nossos filhos. Beregond ouviu com cuidado, fez mais algumas perguntas e ambos começaram a rir com os alegres relatos do passarinho contador de histórias. O silêncio persistia à mesa. Embaixo de sua cadeira, Beregond carregava um pacote. Propositalmente, encostou no embrulho como pé para chamar a atenção. Sua mãe mordeu a isca. Ele, receoso e preocupado com o que estava para fazer, engoliu seco, olhou para baixo e começou. – Ouvi vocês brigarem ontem. E meu coração encheu-se de tristeza. Passei o dia pensando para ter mais clareza. E dizer o que digo agora com toda certeza – rimas eram difíceis, mas o Druida sempre dizia que funcionavam para chamar a atenção. E funcionou, seu pai começou a prestar atenção logo depois da primeira frase e agora ambos olhavam fixos para o rapaz. – Não devemos agir com tanta frieza e, tampouco, temos o direito de tirar de nossa vida toda a beleza. O inverno é obra da mãe natureza e é devemos admirar sua pureza, e não amaldiçoá-lo por nossa avareza. Foi a vez do pai falar. – O que quer dizer com isso, meu filho? E o que tem embaixo da cadeira? – O Druida sempre ensinou que precisamos viver em harmonia e que ela começa aqui. Dentro de casa. Como vou conseguir continuar o treinamento se não existe paz em meu próprio lar? Pai e mãe permaneciam em silêncio. – O que tenho aqui é a solução. Ela é simples e pode não funcionar tão bem, mas é um começo. Acho que precisamos de um novo começo, mais unido. E, dizendo isso, retirou o pacote e colocou-o sobre a mesa. – O inverno é frio e todos sofremos com ele nessa casa, que sempre será nosso lar. Mas, assim como tudo na natureza, precisamos nos adaptar. Assim como os pássaros que vão para o Sul quando o inverno chega, nós também podemos ir para onde papai sugeriu. Tenho certeza que ele construirá uma casa boa e gostosa apenas para o inverno. Aí teremos duas casas! Não é bom? Os adultos limitavam-se a trocar olhares. – Mas mamãe tem medo de ficar longe do vovô e da vovó durante todo o inverno, por isso fiz isso – e abriu o pacote. Os olhos de sua mãe ficaram esbugalhados. Dois retratos e um par de botas de neve. – Para que isso, meu filho? – perguntou a matriarca. – Com as fotos do vovô e da vovó na parede da casa nova você não vai sentir tanta saudade deles. E com as botas eu posso levar cartas suas para a vovó uma vez por semana ou ir pedir ajuda, se precisarmos. Além disso – olhou para o batente da janela – o Pardal também pode nos ajudar. Todos olharam e lá estava o pequeno pássaro. Ele deu um pio e voou para longe. Embora fizesse sentido na história do garoto, os adultos não acreditaram na parte do Pardal ajudar. – Filho, é perigoso sair sozinho durante o inverno. Mas a idéia das fotos é muito boa – respondeu o pai. Sua mãe tinha lágrimas nos olhos, pois segurava as imagens e admirava a dedicação do filho. – Você fez tudo isso por nós? – e olhou para o marido enquanto perguntava. – Fiz isso por todos nós, e pelo mundo. Não pode haver paz lá fora se, primeiro, não existir paz aqui dentro. E, pai, o Pardal pode ajudar sim, ele... Toc, Toc, Toc. Não era comum receber visitas àquela hora, por isso, todos olharam. O pai de Beregond foi até a porta e, quando abriu, foi surpreendido pela presença de Samildarach, o Druida de Tara. – Boa noite, meus amigos. Boa noite, Aprendiz – dirigiu os olhos a Beregond – Os deuses me dizem que preciso falar com alguém desta casa. Existe algum problema em que possa ajudá-los? – disse o Druida. Sorrindo, e segurando a mão de sua mulher, o pai de Beregond respondeu. – O problema existia, Samildarach, mas foi nosso filho que solucionou. Ele estava prestes a começar a contar a história quando o Druida o interrompeu. – Não precisa contar, meu caro, já fui informado de tudo que o Aprendiz fez. – Mas como? – indagou indignado. – Meu amiguinho aqui levou a notícia e me chamou – e apontou para o Pardal que, agora, repousava em seu ombro. Uma vez mais, os pais de Beregond ficaram boquiabertos. O garoto, porém, limitava-se a olhar tudo o que acontecia. – Beregond, venha até aqui – ordenou o Druida, que o treinava há cinco anos. – Sim, senhor. – As notícias do Bosque alcançaram meus ouvidos e seus atos falam por si só. Os deuses lhe favorecem e sua inspiração se torna cada vez mais impressionante. A partir de amanhã, ninguém mais poderá chamá-lo de Aprendiz, jovem Bardo. Os olhos de Beregond encheram-se de lágrimas ao ser chamado de Bardo pela primeira vez. Ele deveria conseguir o título em mais alguns anos, mas algo extraordinário aconteceu ao encontrar o Pardal e tudo aconteceu mais rápido. – O... oo... brigado, senhor. – Que essa seja a última gaguejada, garoto. Bardos não podem gaguejar – brincou o Druida. Um leve sorrido tomou o rosto de todos. Uma vez mais, o Pardal piou e partiu. Seus pais, Samildarach e ele mesmo sentaram-se para jantar e o ensopado, realmente, estava incrivelmente delicioso. E foi assim que a voz de Beregond foi ouvida pela primeira vez, seu julgamento trouxe a paz e orgulho para seus pais. Naquele dia, ele aprendeu a superar seus medos, enfrentou um problema que seria muito maior no futuro e conquistou sua liberdade. Com simplicidade, força de vontade e amor por sua família. Marcadores: Beregond, Bárdico, Inverno, Tara
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Nasceu em devaneio às 10:54
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RSS em Funcionamento*
Amigos e amigas,
Agora é possível receber as publicações de Poemas e Devaneios em seu leitor de RSS ou no programa de E-mail. Basta clicar no botão RSS (situado no menu da esquerda) e depois Inscrever Agora. Sempre que houver uma nova atualização, seu computador vai receber como um e-mail. De qualquer modo, não deixem de visitar, afinal de contas, as 40 mil visitas estão quase chegando! :)
Abraço a todos! /|\
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Nasceu em devaneio às 09:49
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| Quinta-feira, Junho 21, 2007 |
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O Bardo*
O coração do Bardo respondia a um chamado. Nas distantes terras do Ulster sua habilidade era requisitada. Sua razão era desconhecida, mas ao Bardo só restava iniciar sua jornada. Caminhou então, em direção ao norte, seguindo o desejo de seu coração desesperado.
Guerra e tristeza foi o que encontrou, Pois o coração dos homens clamava por luta e vingança. E o sangue continuava a jorrar frente a tamanha matança. Ao chegar, depois de muito pesar, o Bardo não acreditou.
Seu coração o alertou sobre o fim de seu caminho. Nem jovem, nem velho. Nem homem, nem mulher escapava da guerra. Para ele era claro que era chegado o fim de uma era, Mas só o que fez foi pensar em todos com carinho.
Sentou-se numa pedra e começou a tocar e cantar, Ao fundo ouvia-se apenas as espadas e lanças a ecoar. Sua música aumentou e com ela as batidas de seu coração. Atingidos por tão sincera melodia, espada e lança baixaram perante a canção.
Depois de muito tempo, o ardor das armas perdeu seu poder, E as palavras do Bardo superavam o mais hábil dos guerreiros. Todos caíram como que por um feitiço que parecia nunca esmorecer. Sua canção aumentava cada vez mais, Mas apenas para encontrar mais e mais lugares em que ela tivesse significado.
E, bravamente, o Bardo entoava suas histórias e instaurava a paz. Do interior do que seria a última chacina veio a Luz. Dentro de um belo vestido azul estava a imagem capaz de esmorecer o ímpeto do rapaz, Mas nem mesmo essa visão o fez desistir de sua missão. De ao outros mostrar a compaixão mesmo que para isso perdesse seu coração.
E assim foi até que a última das batalhas tivesse acabado. E seu valente coração o abandonado. Lá deitou o Bardo, nos braços daquela que o convocara, Para que de suas palavras surgisse um novo começo.
== * Foi esse poema que começou com tudo, que mostrou meu caminho bárdico e foi o responsável pela criação desse blog. Como uma nova fase se inicia, nada melhor que invocar a pedra fundamental de meu trabalho. Abraços a todos!Marcadores: Bárdico, Irlanda, Poema
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Nasceu em devaneio às 11:07
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| Terça-feira, Junho 19, 2007 |
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A Balada de Cathain*
Das brumas da memória a deusa é convocada. Assim ergue-se Cathain, a justa. Lutando igualmente por todos os homens. E também por amantes abandonados. Numa alta torre, que ninguém era capaz de abrir, Seu coração foi trancafiado. Até surgir um príncipe do Leste do Ulster. Seu nome era Conchobar.
Nos dias treinava a arte das armas Com a deusa, espada, maça e arco. E, à noite, ascendia o ardente fogo da paixão, Que apenas os amantes conhecem. Então, o guerreiro tornou-se rei, Depois de muitas batalhas sangrentas e apaixonadas. O trono pertencia a Conchobar E Cathain, para a memória retornou.
Inimigos sombrios levantaram-se contra o rei, Desafiando-o por seu trono. O destino do Ulster ficaria na balança, Sem seu campeão. Um druida partiu para fazer um sacrifício. Uma oferenda a Cathain. Uma bela donzela com cabelo dourado Morreria não uma, mas duas vezes. Duas vezes.
Mas Cathain não mais retornaria, Para lutar a guerra do rei. Enquanto o druida não fizesse a honraria, Na distante Conamara. A virgem Iona, pura e doce, Deitou-se na mesa livremente, E na sedenta pedra de Corclach A inocente foi sacrificada.
A deusa guerreira surgiu em fúria Do berço do Mar do Oeste. Milhares ela matou com seus punhos de aço, Naquele dia sangrento. Salvou o reino e cumpriu sua tarefa, E desapareceu sob ondas espumantes. Até que o sacrifício dos filhos de Ulster Clamassem, novamente, por seu retorno.
== *Tradução da canção The Ballad of Cathain, de Grant Lee Phillips. Recebi essa música há anos e sempre tenho escutado, mas só hoje resolvi arriscar uma tradução/adaptação para o português. Quem conhece minha história vai entender o porque isso, especialmente por se passar no Ulster.
Original abaixo.
The Ballad of Cathain
Bid goddess rise from mists of memory Rise the fair Cathain In battle the equal of every man And every lover disdained Her heart was locked in a roundtower's keep And none that gate could unbar Till rose a prince in Ulster's east His name was Conchobar
By day she taught him feats of arms With sword and mace and bow By night they kindled passion's fire That only lovers know So king and warrior thus were joined In battles blood and love The throne belonged to Conchobar To Cathain the Witch's Glove
Dark rivals rose against the king To challenge for his throne All Ulster in the balance hung Without its champion A druid he sent to sacrifice An offering to Cathain A maiden fair with flaxen hair Not once but two times slain Two times slain
Ooh ooh ooh
But Cathain she would ne'r return To fight the kings own war Till druid did a virgin bring To Conamara far The fair Iona pure and sweet On the self-same table lain And by the Corclach's hungry stone The innocent was slain
Hey hey hey Hey hey hey
In rage the warrior goddess from The Western Sea arose Her bloody gauntlet dealt that day A thousand fierce deathblows The kingdom saved her quest complete She sank beneath the waves Till Ulster's sons with sacrifice Bid her return once more.Marcadores: Bárdico, Irlanda, Música, Poema
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Nasceu em devaneio às 18:29
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| Domingo, Junho 17, 2007 |
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Novos Comentários
Amigos e Amigas,
O Bardo retornou e agora tem novo serviço de comentários. Recomeço do zero, mas agora é um sistema constante e que vai sempre registrar os comentários.
Abraços a todos! Bençãos do Awen! \!/
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Nasceu em devaneio às 22:11
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| Segunda-feira, Junho 11, 2007 |
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A Chegada de Samildanach
*Algunas pessoas vão entender, outras não, mas tudo bem. Achei, sem querer, e comecei a ler, só lembrei que era meu depois que terminei. Data de 2002. Boa jornada!*
Mais um ciclo estava por terminar. O ânimo era imenso entre os habitantes de Tara, já que os preparativos para o Samhain haviam começado e a grande noite estava prestes a chegar. Muitos deles aguardavam ansiosos, já que essa seria sua primeira celebração efetiva - ah, crianças, tão meigas e cheias de vida, e já felizes em celebrar os rituais da nossa Terra . Algo deveras agradável.
Com isso, o buburinho era ininterrupto. Pessoas agitadas, crianças em algazarra, sacerdotes tomando suas precauções e, enfim, todos fazendo o que precisava ser feito. Num dos intervalos dos turnos de trabalho na grande tenda, três amigos sentavam-se à beira de uma grande mesa - fartamente abastecida com um leitão e canecas de cerveja - enquanto conversavam em sua hora de descanso.
Manannan, como de costume, contava suas antigas histórias sobre os deuses, batalhas contra invasores e até mesmo contra enormes animais que o atacaram, certa vez, numa grande floresta ao sul de Tara. A seu lado, Caer, sua grande amiga e Guleesh, um rapaz quem ele havia conhecido há pouco tempo em suas andanças pela Ilha Esmeralda. Todos riam, como faziam todos os dias, enquanto permaneciam dentro dos muros da abençoada colina.
E a amizade entre eles prosperava. Manannam e Caer eram grandes sábios sempre dispostos a dividir seu conhecimento e a guiar pessoas como Guleesh, que, em pouco tempo, tornou-se muito caro a eles. Suas façanhas eram conhecidas em vários lugares, mas a verdadeira profundidade de sua amizade, ainda era segredo mesmo para os grandes intelectos da ilha.
Um deles, porém, conhecia a força desse simples e alegre trio, já que a chegada de Guleesh foi um claro sinal da formação de uma intensa irmandade. E, enquanto eles se divertiam, uma figura encapuzada aproximava-se do portão principal da fortificação. Com um leve aceno, ele foi admitido na cidade e dirigiu-se em direção à grande tenda.
Ainda na mesa, Manannan e Caer ouviam atentos à voz insegura de Guleesh ao pronunciar uma poesia redigida poucos dias antes. Eles eram um bom público, aliás, qualquer dupla que fosse formada ficava muito atenta ao que o terceiro elemento dissesse. Era o momento mágico que só eles tinham consciência. E eram felizes por isso.
Quando Guleesh terminou sua leitura, porém, não foram os brados de Manannan que ele ouviu, mas sim uma risada baixa, mas penetrante que chegou a seus ouvidos acompanhada pelo som de duas palavras saídas de uma voz rouca: “Sem palavras”.
Ao ouvir isso, Manannan e Caer saltaram - quase derrubando a mesa, diga-se de passagem - e olharam para o estranho encapuzado. Guleesh ficou meio perdido e, quando pode virar-se, viu os dois amigos a seu lado - todos encarando o recém-chegado.
Assim que analisou o homem mais cuidadosamente, um leve sorriso surgiu na face de Manannan. Caer nutria suas suspeitas, mas não quis se precipitar. Então, foi o mais velho quem disse: “Quem és e porque disfarça tua voz, assim como tua face?”. Dizendo isso, Manannan cruzou os braços e lançou um bonachão sorriso. Ele sabia de quem se tratava.
Caer repetiu as mesmas palavras e entendeu a feição do amigo. Como se esperando a manifestação do mais moço, o estranho olhou para Guleesh, que pode ver seus olhos mesmo por baixo dos farrapos. “Tuas palavras representam aprovação ou desgosto, estranho? ”, indagou o jovem.
Caer não resistiu e caiu na gargalhada ao notar a expressão preocupada de Guleesh. Manannan deu um forte tapa na cabeça do garoto e foi acompanhado por Caer e também pelo estranho em outra grande gargalhada. Guleesh não entendia nada, mas isso duraria pouco.
“E você ainda precisou me indagar, seu velho cabeça-dura?”, perguntou o estranho a Manannan. Todos riram novamente. Menos Guleesh, que estava perdido.
“Guleesh, meu amigo, este é Samildanach. Se há algum mistério que essa terra guarde e do qual eu não fiz parte, se há alguma lembrança que essa terra possui e que não te contamos, e se há alguma boa cervejaria que eu não conheça pergunte a ele. Você encontrará a resposta, mesmo que não diretamente, mas encontrará. Principalmente se falamos de cerveja!”, explicou Manannan. Samildanach meneou a cabeça na direção ao jovem. Sua face era menos grave e o esboço de um leve sorriso já surgia em seus lábios.
Em instantes, todos gargalhavam sobre o ocorrido. Sentaram-se à mesa e começaram a conversar, afinal de contas, havia muito a ser dito. Dois grandes amigos estavam sedentos por novidades do velho mentor, e um jovem inspirado palpitava só de imaginar tudo que aprenderia com o recém-chegado, que, sem dúvida, em breve, seria mais um grande amigo.
Mais um amigo da Colina de Tara, o lugar onde a inspiração toma forma, a alegria ganha rima, a tristeza se aprofunda e ganha beleza, e a beleza é enaltecida e sendo transformada em uma bela homenagem à Terra.
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Nasceu em devaneio às 15:20
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| Domingo, Junho 10, 2007 |
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Você e seus 50 anos
Sempre quis ser pai. Nunca soube muito bem o motivo. Só sei que sempre tive essa idéia. Esse desejo. Descobri a resposta para isso há alguns meses. Antes mesmo da Ariel nascer. Parei para pensar no porquê de ser pai. Qual a razão disso tudo? E uma imagem surgiu na minha mente. Eu estava sentado em seus ombros, pai. No chuveiro, todo esticado tentando encostar na ducha. Não me lembro de palavras. Apenas dos sorrisos. Sorri com a lembrança. Depois, outro momento apareceu em meus pensamentos. Era uma hora de decisão. Quando tive que pedir demissão para apostar na minha vida. Mesmo sabendo que meu futuro não estava ao seu lado na gráfica, você, meu pai, disse que eu podia arriscar. “Eu te ajudo como puder”, foi o que você disse. Foi um ano duro aquele, mas nós dois batalhamos para dar tudo certo. Pois é, foi difícil, mas decidimos juntos e funcionou direitinho. E, então, lembrei de algo mais recente quando, num momento de dificuldade, foi você quem veio a mim perguntar sobre o que me angustiava. Chegou com aquele jeitão “meio sem-jeito”, mas perguntou e, mais uma vez, se ofereceu para me ajudar como só você sabe fazer. Não vou mentir, algumas lágrimas já corriam em meu rosto. Na verdade, eu nunca precisei pensar nessa vontade de ser pai por uma simples razão: eu já sabia a resposta. Você, meu pai, foi fantástico por mim e me guiou até o momento em que escrevo essa carta. Minha vida é pontuada pela lembrança de momentos contigo. Sejam eles tristes ou felizes. Você e a mãe, meus pais, sempre estiveram lá por mim e por meus irmãos, assim como sei que sempre estarão pela minha filha. Chega a ser poético pensar e escrever isso no aniversário de 50 anos, pai, meses depois de eu mesmo me tornar pai, justamente por causa das ótimas lembranças que você sempre me deu. E sinto um orgulho danado por isso. Por você. Pelo que você fez. Pelo que você e a mãe lutaram. Conheço pessoas que não se orgulham de seus pais. Que sequer gostam de falar sobre eles ou que vivem com medo e em guerra. Eu não. Eu falo para quem quiser ouvir que te amo e que tenho orgulho do homem honesto e bondoso que você é. Então, baiano, aí vão algumas palavras para você.
Papai
Lá do interior da Bahia veio esse maroto. Que, tirando o gosto pela farinha, pouco tem de baiano. Enfrentou a barra da cidade grande ainda garoto. E logo começou a “vida de paulistano”.
Casou como se fosse Caetanear, E trocou a boca de sino pelas fraldas lá em 78. Passou aperto e encarou até greve. Mas, nada impedia o homem de trabalhar.
Pai forte esse, sempre presente. Pendurado na porta do ônibus todo dia. Sonhando com um futuro melhor. Trabalhando sem parar construindo a melhoria. Foi homem de fibra, ensinando a pescar. Nunca vacilou com a família, sempre em primeiro lugar. Mostrou como ser homem certo e a perseverar. E nunca deixa de viver com seu jeito simples e exemplar.
Se olho para trás, vejo seu sorriso. Se encaro seu rosto, brinco com os cabelos brancos. Se vislumbro seu futuro, estarei sempre lá. Pois, sem ele, vida não há.
Meu pai, a mais sólida de todas as rochas. Exemplo de honestidade. Modelo de luta e perseverança. O melhor pai que alguém pode ter. Sem pompa ou circunstância. Sem terno ou gravata. Sempre simples e fala curta. Apenas um homem. Um homem bom, alegre e dedicado. Meu pai. Meu herói. Minha vida.
Te amo com todas as forças. Parabéns e até o aniversário de 100 anos!
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Nasceu em devaneio às 10:34
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| Terça-feira, Fevereiro 27, 2007 |
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A Verdadeira Luta
O dia mal terminou e já perdi a conta de quantas vidas tirei. O negrume da noite começa a ocupar todos os espaços ao meu redor e a adrenalina dá os primeiros sinais de enfraquecimento em meu corpo. Nunca imaginei que esse dia chegaria, especialmente depois de tanta matança, mas aqui estou. E, finalmente, algo de estranho bate á minha porta. Não é medo. Antes fosse. Mesmo que pudesse fugir, lugar nenhum afastaria meus pensamentos. E o cansaço é muito grande. Sento e olho para o horizonte. Aos poucos, os resquícios de luz desaparecem, algumas estrelas ganham força e a lua reina soberana. Uma noite sem nuvens. Sem vento. Estranho. Descansar é a única opção. A dica para que mente assumir o controle com suas ligações sinápticas velozes, impossíveis de serem traduzidas ou transmitidas, tão rápidas que fica difícil diferenciar pergunta de resposta, referência de imaginação, passado do futuro, real do sonho. Quem lê Lovecraft sabe do que estou falando. Aliás, é a referência mais próxima que pode explicar toda essa loucura. Informação demais. Demais. Quando percebo, estou olhando fixamente para algum povo distante e os pensamentos aumentam o volume. Meu corpo só fica quieto, relaxando, recuperando as forças. Os olhos ardem um pouco. A única parte em movimento é o do braço que leva o copo d’água aos lábios. Ele também enche o copo vazio. Os dez livros do galão devem ser suficientes. Foi o único pensamento material no meio de tudo aquilo. Morte. Onde tudo começou. Foi inevitável não pensar em Cervantes e seu Dom Quixote vagando pela vastidão da Espanha. Sol na cabeça. Armadura pesada. Algum dinheiro e um escudeiro gordo. Dava para sentir o calor e o cansaço no lombo do cavalo. O que ele pensava quando não praguejava algo para Sancho Pança ou quando o tédio tomava conta dos viajantes? Duvido que tenha sido a idade que o tenha feito enfrentar os moinhos gigantescos. O Sol talvez. Mas os caminhos da mente o levaram àquele embate histórico antes mesmo dele acontecer. Ele deve ter imaginado dezenas de perigos que ele enfrentaria, incontáveis donzelas que precisariam de resgate e tantas situações que requisitassem seus dons cavalheirescos. E a reação para cada um desses cenários era previamente ensaiada, revisada, imaginada, vislumbrada à exaustão. Até mesmo sonhos, quem sabe. Na primeira chance. Boom! Gigantes! Carga, Sancho! Infelizmente, nunca saberemos que outros desafios poderiam ter surgido à frente do intrépido e galante guerreiro espanhol. Eternamente guardados em seus sonhos. Mente inquieta. Sonhos. Devaneios. Mensagens dos deuses. Provações. Ulisses e sua jornada. Muito além do homem contra os deuses, existia o homem contra ele mesmo. O medo da morte em meio à tempestade. Desconhecido. Surpreendente. Algo assustador como um gigantesco Caliban pronto para abocanhar os temerários. Em meio a isso, havia o homem que deveria guiar e encontrar soluções. Ele as buscava na solidão dos pensamentos. Confusos. Impróprios. Incertos. Algo precisava fazer sentido. Uma nuvem com formato familiar, o som das ondas, o ruído do vento. Um verdadeiro campo de batalha interior. Mental. Era preciso encontrar armas. E lutar. Eles lutaram. Eu lutei. E luto. Agora sem nenhum inimigo à espreita. Assim espero. Alguns minutos se passam e relembro de pessoas. Lugares. Reações. Feições. E dos julgamentos. Hipocrisia. Ostentação. Falsidade. Espelhos? Medos? Um pouco de tudo? A mente usa sua principal arma e sou inundado por mentiras. De todos os tipos. Contei algumas. Ouvi outras. Ainda ouço o eco das piores. Imagino o que vem por ai. Algumas se tornam realidade. Tem acontecido ao longo dos anos. Deixam de ser mentiras possíveis, se transformam em realidades terríveis. Muita dor. Um rosto conhecido. Deveria trazer afeto. Conforto. Abre a porta para o Mal. Ódio. Ressentimento. Decepção. Os sonhos voltam como uma montagem de flashback de um filme dos anos 80. Com direito a trilha sonora brega e atuações canastronas. Nem meu sonho teve orçamento suficiente para contratar o Harrison Ford para interpretar o papel principal. Esse sempre sou eu. Continuo a contemplar a noite. Agora um pouco fria. O foco agora está no que eu fiz. Nem lembrar dos heróis antigos ajuda. Surgem apenas nomes. Batalhas grandiosas. Tudo parece não ter ligação. Conexão. Desconexão. Internet. Maravilhas modernas. Horrores de hoje e de amanhã. Volto ao campo de batalha de pouco tempo atrás. Os sons retornam com força total. Surround imaginário. Home Theater mental com dublagem em inglês, português e élfico. Busco o conselho do velho cinzento, mas o imagino sentado num canto, balbuciando sozinho. Meio ranzinza. Preocupado. Sinto os lábios secos. A boca fica um pouco tensa. Mais um belo gole. Água. Nada de cerveja ou hidromel. Nada de hobbits dançantes. Nada de magia ou solução sobrenatural para o problema. Aquelas mortes foram culpa minha, não adianta pedir ajuda. Não desse tipo. Penso em sangue. O olhar desvia para minhas mãos. Limpas. Bem cuidadas. Ágeis. As roupas também estão intactas. O sangue mancha a sensibilidade. Sensibilidade insensível. Matei sem pensar duas vezes. Parei para pensar em como fazer. Analisei cada passo. Tudo uma questão de escolha. Algumas vezes apenas reagi instintivamente. Ação. Reação. Morte no final. Quem está certo é o médico palhaço. Melhorar a vida é a meta. Salvar a Humanidade. Mas é preciso salvar a si mesmo antes. Tarefa difícil com tantas mentiras. Bem-vindo à caça às bruxas. Preconceitos. Nem laços de família conseguem te salvar do círculo de maldades e egoísmo. A mente procura razões para a guerra. Motivos surgem. Nenhum é aceito. Nada parece plausível. Começo a lembrar das mortes. Silenciosas. Barulhentas. De todos os tipos. Meu arco descansa ao meu lado. Um lembrete. Foco pode ser a solução. Procuro pela solução. Não pelo problema. Mas ele continua a surgir, cada vez mais incômodo. E a sensação estranha aumenta. O relógio apita. Uma hora passou. A noite continua sem vento. A escuridão reina suprema. Pela janela vejo a uma luz. Não quero olhar. Preciso encontrar a saída antes da nova batalha. Ou melhor, não quero mais lutar aquela guerra. Exército de um homem só. Engenheiros. Beatles. Nada mais faz sentido. Começo a imaginar que a resposta está em outro lugar. Talvez encontrar algum aliado? Aquele personagem fundamental de uma partida de RPG que você ainda não encontrou, então não pode avançar? Pode ser. Continuo a enfrentar tudo de peito aberto. Coragem não falta. Assim como o sangue frio não me impede de matar sem remorso. A luz da janela pisca e chama minha atenção. O galão de água está praticamente seco. A sensação ruim volta com força absurda. A decepção se torna completa. Ficar sem ação é o que me resta. Todo o esforço se esvai. Só uma razão resta para não desistir. E ter esperança. Enquanto isso, não resisto. O corpo se levanta e vai em direção da luz. A tela do computador brilha irresistível. Os soldados estão prontos. Os adversários o aguardam. Continuar? Yes. Pelo menos, por enquanto.
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Nasceu em devaneio às 01:13
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| Sábado, Julho 15, 2006 |
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Essas Histórias Nobres e seus Heróis Adormecidos
“É um reino de consciência, ou nada.” - versão cinematográfica de Balian, Defensor de Jerusalém.
A chegada do novo Super-Homem aos cinemas foi capaz de relembrar muitas pessoas de seu herói predileto, do alienígena mais humano que a ficção científica já viu e, inevitavelmente, serviu para recuperar um ideal há muito deixado de lado: a verdadeira nobreza humana. É claro que, especialmente para Clark Kent, seja mais fácil lutar por um ideal quando não precisa se preocupar com balas, explosões e fazer isso com uma identidade secreta (nunca duvidem do poder de um par de óculos!), mas o formato de um herói tão representativo quanto o último sobrevivente de Krypton tinha uma razão de ser em sua criação e, agora, mais do que nunca, volta a ter relevância. Pelo menos, para aqueles que enxergam além dos efeitos especiais.
Muitos de nós crescemos ouvindo histórias sobre príncipes de reinos distantes que resgatavam princesas há muito perdidas de feras e desafios mitológicos. As primeiras brincadeiras invariavelmente eram os primeiros passos do “capa-espada”. Um dos primeiros modos de impressionar “pretendentes” era mostrar bravura e inteligência perante algum desafio, assim como os bravos do imaginário da antiguidade. Até que, um dia, alguém decidiu que era hora de parar de sonhar e “começar a viver” – a vida atual, imposta, privada de sonhos e sem escapatória. A partir deste momento, tudo aquilo que havia sido ensinado passou a ser negado e veementemente tachado como “brincadeira de criança”. Por mais que alguns ainda façam de tudo, mesmo que inconscientemente, para proteger a família, a namorada, a esposa, os filhos, para a maioria dos homens, acaba aí a fantasia.
Mergulhar nas HQs é um modo de retornar a esses modelos, mas, como seres “intelectualizados” e até um pouco exibidos, encaramos tudo aquilo como forma de arte, analisamos em convenções, escrevemos sobre o assunto e, vez por outra, surge alguém disposto a produzir. Tudo em nome da arte, é claro. De qualquer forma, o herói da infância volta e lá encontramos sujeitos como o imbatível Super-Homem, o genial Batman, o incansável Demolidor, o divertido Asterix, e, sem demérito, o “limitado” Tin Tin. Eles continuam a salvar a princesa e derrotar o dragão e, de certa forma, mantém a lembrança do espírito de nobreza viva.
Mesmo assim, o termo nobre acabou ficando muito marcado pelos cavaleiros medievais e filmes de fantasia, que, na maioria das vezes, eram tratados como bobagens juvenis. Só que algumas destas “bobagens” conseguiam, vez por outra, atravessar a barreira e entregar a mensagem ao grande público. Coração de Dragão foi um dos mais interessantes ao retratar a honra tanto no homem quanto no lagarto voador, porém, ambos são traídos pela ganância do “novo homem”. Outro que seguiu o caminho foi Coração de Cavaleiro que, em tom de comédia, defendia a verdadeira nobreza independente de classe social ou dinheiro. “Seus homens te amam, e isso é o suficiente para mim”, disse o príncipe Eduardo ao jovem William, em seu momento de elevação.
Embora tenha origens mais antigas, As Crônicas de Narnia – O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa e os demais livros de C.S. Lewis são grandes estandartes dos ensinamentos cavalheirescos, mas, assim como o desempenho nas bilheterias e a recepção de parte da crítica deixaram claro que era “coisa de criança”, o que não impede de levarmos em conta toda a construção do personagem Pedro Pevinsie, com sua incessante vontade de proteger seus irmãos e fazer sempre o que é certo. Ingênuo, mas puro.
Pode ser que justamente esta fácil relação entre bondade e ingenuidade tenha afastado os modelos atuais destes conceitos, afinal, todo bom moço tende a, no princípio, ser facilmente ludibriado pelo vilão e só consegue virar o jogo, normalmente, com alguma ajuda especial. Ultimamente, podemos sentir que a maioria das pessoas busca a esperteza e o famoso jeitinho de levar vantagem, seja para benefício pessoal ou financeiro. O sucesso de jogos como GTA San Andreas e do poderio financeiro e social do movimento rap norte-americano só comprova o culto ao valentão, ao rufião, termo que era muito utilizado nas traduções dos antigos contos de fadas. Muito diferente da preferência de muitos fãs a vilões como Darth Vader, Hannibal ou Khan, a devoção a anti-heróis reais acaba por afastar mais ainda a sociedade de um caminho mais produtivo. Por quê cantar sobre a paz se a violência é tão mais sedutora e lucrativa?
A esperança, porém, não acabou, já que alguns diretores e produtores ainda tentam mostrar caminhos e mundos melhores para o povo. Por mais romanceado que tenha sido o resultado de Cruzada, de Ridley Scott, a tônica do filme acaba sendo a idéia de que ações valem mais que conceitos ou palavras. Acima de religião ou interesse financeiro, de acordo com o filme, Balian – o herói de Orlando Bloom – defende o ideal do “nobre perfeito”, um homem disposto a tudo para não trair suas convicções e proteger aqueles à sua volta.
Ele vai contra a Igreja, contra o pensamento bélico e violento e arrisca tudo que foi conquistado pelos cruzados em prol de uma mentalidade pura, longe de ingênua, e produtiva – pelo menos na versão do filme, já que na história real, houve um grande pagamento a Saladino pela liberdade dos moradores de Jerusalém. Como a frase de início diz, Balian luta por um mundo consciente, pois somente assim, ele acredita, haverá paz e bondade entre as pessoas. É clareza de espírito ou a morte. Nobreza ou mesquinharia. Por mais que o personagem seja o paladino ideal, sutilmente escrito para parecer impecável – mesmo quando mata um sacerdote, o público entende sua razão e não o recrimina –, ele tem uma função claramente definida no filme: redimir a si mesmo e tentar estender sua redenção aos demais nobres de Jerusalém, tarefa na qual falha justamente pelo abismo de conceitos entre seu pensamento e o ideal de boa parte dos demais cruzados. Era o ideal contra a espada.
Embora muito focado na realidade norte-americana, o Super-Homem foi o personagem que mais simbolizou o bom-moço, o esforço incondicional e, acima de tudo, a doação extrema pelo povo que o acolheu. Sinceramente, é mais válido manter a visão original do herói em vez de incorporar as novidades de Smallville, que traz simplesmente um adolescente com alguns poderes especiais. E ponto. O kriptoniano é muito mais que isso e sua versão madura apresentada nos quadrinhos e no cinema mostra, efetivamente, o que ele é e sua verdadeira função em nossa cultura.
Praticamente um nobre cavaleiro, mas sem montaria ou armadura, o Homem-de-Aço é o mais próximo que podemos ter do antigo modelo do nobre protetor e, com uma vantagem, sem a possibilidade de corrupção. Por ser um sujeito ideal, moldado ao longo dos anos e com uma função bem definida, ele não pensa em dinheiro, fama e seu único desejo é o de ser correspondido em seu amor. Aliás, esse é um dos pontos mais marcantes do novo filme, já que Kent precisa reconquistar Lois, a mãe de seu filho.
Agora, mais do que nunca, ele tem uma razão para defender a Terra, como tantos outros fizeram antes dele. E é justamente aí que toda a sua importância faz sentido, pois, milhares de pessoas espalhadas pelo mundo podem voltar a ver as pequenas razões que tem para olhar para a vida de um modo diferente e melhor. Ser super-homem ou mulher maravilha, como recorrentemente mostrado por propagandas de TV, pode ser função de cada pai e mãe. Salvar o mundo, não necessariamente, precisa ser uma aventura a lá Jack Bauer, mas sim lembrar de como aprendemos na infância, das histórias, de como era ser valente, da doce sensação de conseguir salvar a princesa do terrível dragão de mentirinha. E de como era bom aquele tempo sem preocupações, problemas morais e que tudo se resolvia com um belo sorriso.
A consciência é uma ferramenta poderosa para o ser humano. E a nobreza é um dom que todos temos. Só precisamos saber unir as duas coisas para que o mundo real ganha um pouco de fantasia. E beleza.
- Fábio M. Barreto / Publicado na Sci-Fi News 101, Julho de 2006.
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| Segunda-feira, Junho 12, 2006 |
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Heróis: formas iguais, tempos diferentes.
“O objetivo moral do heroísmo é o de salvar um povo, uma pessoa, ou defender uma idéia. O herói se sacrifica por algo, aí está a moralidade da coisa” - Joseph Campbell
Ao ver mais uma versão do herói norte-americano no cinema, é extremamente relevante pensar em como e por que estes super-homens são criados em momentos importantes da evolução de nossa sociedade. Eles representam nossos sonhos, aspirações e quase sempre salvam o mundo. Foi o estudioso Joseph Campbell que, com seu, Poder do Mito, vinculou de maneira marcante a chamada Jornada do Herói a nossos personagens prediletos e é sob a luz de seus conceitos, assim como outros estudiosos, que podemos falar da evolução dos heróis, e suas motivações, nos últimos 30 anos.
Quando Luke Skywalker foi surgiu em 1977, ele era um jovem idealista, sonhador, tímido e receoso em abandonar seus Tios Owen e Beru. A chegada de R2-D2 e C-3PO e mensagem de socorro da princesa Leia não foram o suficiente para afastá-lo de suas obrigações na fazenda e motivá-lo a seguir os passos de Biggs e se tornar um piloto. Tão pouco o convite de Obi-Wan para que seguisse os caminhos de seu pai é capaz de fazer com que ele mude de idéia. Isso era tudo que o norte-americano queria e precisava na década de 70, um sujeito que procurava um modelo com grande senso de devoção à família e muitos sonhos. Literalmente, um cara que pudesse acreditar novamente.
Essa figura era necessária especialmente por conta da disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética e o forte abalo na fé no governo graças a escândalos, como, por exemplo, o Caso Watergate. Os mocinhos precisavam de um novo modelo, um novo herói, que não fosse mais o soldado da Segunda Guerra Mundial ou um caubói destemido. Este novo sujeito deveria ser forte o suficiente para levar o povo norte-americano para a última fronteira da época: o espaço! George Lucas acreditava “que seria possível construir uma nova, e complexa, mitologia moderna baseada na vastidão do espaço”.
E era exatamente isso que Luke representava, um personagem que poderia suprir as necessidades e deixar a crescente sensação de egoísmo de lado. De certa forma, Lucas deu o primeiro grande passo para combater a crescente mentalidade corporativa baseada em especialistas e consultores focados em resultados. A carga cultural entregue por Guerra nas Estrelas dizia claramente a todos, pela voz de Obi-Wan Kenobi: confiem em seus instintos. Era disso que eles precisavam. E era justamente o oposto disso que Darth Vader representava.
Enquanto Luke era o representante de Bem, com suas roupas claras e ideais imaculados, do outro lado do espelho estava a figura opressiva de Darth Vader, com seus trajes negros e respiração mecânica. Vader e o Império incorporavam a postura tecnocrata, totalitária e destrutiva associada às grandes corporações e à nem tão distante memória do regime nazista de Adolph Hitler. Para Campbell, “Vader é um burocrata, vive não nos seus próprios termos, mas nos termos de um sistema imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos, como ameaça às nossas vidas. O sistema vai conseguir achatá-lo e negar sua própria humanidade?”.
No começo, Luke sonha em integrar esse sistema ao se tornar um piloto espacial, mas é contido pela responsabilidade familiar. Após a morte dos tios, ele decide deixar o planeta e atender ao chamado de Obi-Wan Kenobi para, então, cumprir uma importante etapa do herói mitológico, pois “o menino, primeiro, tem de se separar da própria mãe, encontrar energia em si mesmo, e depois seguir em frente. É disso que trata o mito do ‘Jovem, vá em busca de seu pai’. Às vezes é um pai místico, mas, às vezes, é um pai físico”, de acordo com Campbell.
A grande verdade é que Luke só aceita seu “destino” por ter um certo desejo de vingança pelos tios mortos. Estas características eram muito comuns nos filmes de faroeste das décadas anteriores ? um jovem fazendeiro da fronteira sobrevive à carnificina provocada por índios ou bandidos e parte em busca de amadurecimento para obter vingança e pela justiça contra o sistema que permitiu a tragédia ? e foram assimiladas pelo jovem Skywalker e por vários outros personagens da ficção científica, tais como o príncipe Colwyn (Krull, de 1983) e Alex Rogan (O Último Guerreiro das Estrelas, de 1984).
Por ter o dom do herói, o personagem logo recebe a espada de seu pai e dá os primeiros passos de sua jornada em prol da causa universal, representada pelo pedido de ajuda de Leia, e da justiça que ele busca para si mesmo, em nome de sua família. As motivações de Luke, portanto, se adequam às do herói clássico, que é fadado a abrir mão da própria existência como conhece para o bem do todo.
30 anos depois... no mundo da tecnologia
Desde o salto tecnológico e da estrutura mitológica apresentada pela trilogia de Guerra nas Estrelas, o cinema de ficção científica não havia produzido outro grande fenômeno que repercutisse tanto em resultado de bilheteria quanto em influência social até o ano de 1999, quando estreou Matrix, dos irmãos Andy e Larry Wachowski. Com ele surgiu a figura de Neo, que, como o próprio nome já significa, encarna o “novo” herói do gênero ou, ao menos, uma nova versão. A criação de Neo foi muito influenciada pela tecnologia e também pelos arquétipos clássicos da mitologia, em particular, do panteão grego. Ele surge adormecido em seu apartamento quando é contatado por Morpheus, o deus dos sonhos. Alheio à verdadeira natureza da Humanidade, o então Thomas Anderson fica confuso e curioso, mas logo é interrompido e começa a notar os sinais do início de sua jornada ao ver a tatuagem de um coelho branco na acompanhante de seu cliente. Dando sentido à mensagem de Morpheus.
A forma direta com que conceitos religiosos, mitológicos e a forte presença de discussões sobre relações de dominação – especialmente em Matrix Reloaded – se refletem na atual situação cultural e tecnológica em que vivem jovens do mundo todo. Neo representa o topo desse submundo porque é um hacker extremamente habilidoso. Ele é um reflexo de parte da sociedade atual: mora sozinho num apartamento desordenado onde cria seus programas, tem vida própria na Internet, recebe um fluxo gigantesco de informações diariamente, cria suas próprias regras sociais e ídolos, pirateia informação e busca respostas, ou seja, seu habitat virtual e noturno, que é muito diferente da vida diurna como Thomas Anderson, programador de uma empresa de software.
Neo não tem vínculos familiares, vive duas vidas (reprimido e parte da engrenagem durante o dia e idolatrado durante a noite), como dois lados de um espelho que é virado ao entardecer e que volta à posição original ao amanhecer, e possui a percepção de que algo não está certo para si mesmo ou para o mundo. Morpheus o contata por crer que ele seja o escolhido ? one, anagrama para o nome Neo ? da antiga profecia que antecipa o retorno do homem capaz de comandar as máquinas, acabar com a guerra entre Humanidade e inteligência artificial e devolver a liberdade à raça humana. Neo, porém, não sabe do fardo que carregará e aceita os conselhos de Morpheus para encontrá-lo, especialmente para encontrar a resposta a uma pergunta: O que é a Matrix?
O início da jornada de Neo é motivado pelo desejo incontido do personagem por conhecimento - sobre o mundo a sua volta e si mesmo - e possibilitado por seu dom e percepção extraordinários, mesmo que não muito desenvolvidos para seu real uso. Finalmente, ele abraça a causa universal e aceita seu papel de herói. Neo já buscava o conhecimento por sua conta e o surgimento de Morpheus mostrou um caminho mais curto e promissor para a solução de suas dúvidas.
Thomas Anderson veste-se com terno e gravata e tem um chefe exigente na companhia, enquanto Neo é despojado e dita suas próprias regras (antes de despertar da Matrix) e, depois de seu renascimento, assume o negro das roupas de couro, sobretudo e dos óculos escuros, também usados por seus colegas renascidos. Assim, nota-se que o herói moderno não mais responde pelo arquétipo visual do branco e claro simbolizando o Bem, enquanto o Mal não mais se apresenta em negro e com visuais horripilantes. Na Matrix, o Mal ganha forma na figura dos Agentes, entidades capazes de tomar o lugar de qualquer representação humana que ainda esteja conectada ao sistema, ou seja, qualquer um é o Mal em potencial.
Senhores de seus mundos, os jovens tecnológicos definem moda própria, um dialeto independente e regras de conduta para demonstrar o descontentamento e se consideram membros de um grupo mais preparado para lidar com o novo século, tal qual explica Morpheus: “a Matrix é um sistema, Neo. Esse sistema é nosso inimigo. Se você não é um de nós [pessoas prontas para acordar e lutar contra o status quo], é um deles. Dentro da Matrix, eles são todos e não são ninguém”. Depois de finalizar sua jornada e descobrir sua “nova vida”, como o Oráculo havia previsto, Neo faz uma ligação direta ao espectador. Quem quiser que atenda ao telefone.
Novo Mundo, Novas Necessidades
Embora Luke Skywalker e Neo tenham percorrido, inegavelmente, a jornada clássica do herói, foram criados em momentos diferentes. Guerra nas Estrelas (anos 70) apóia-se diretamente nos mitos clássicos, na filosofia oriental, tem grande influência de outro gênero, o western ou faroeste, e surgiu num momento em que a Humanidade olhava para o espaço e para o futuro com sonhos e esperança. Matrix (transição entre os séculos XX e XXI) atingiu, em sua maior parte, uma sociedade pouco esperançosa, predominantemente influenciada pelos computadores e bombardeada diariamente por informação e previsões nada otimistas para o futuro, mesmo com a presença das mesmas filosofias que ajudaram a criar a obra de Lucas.
Portanto seus heróis assumem a função de porta-vozes do conteúdo de suas épocas. É com o herói que o público estabelece seu vínculo com a trama e aceita, ou não, o que ele tem a oferecer, ou seja, é ele que, em meio a sua jornada de nascimento, crescimento, morte e renascimento, faz sentido para o espectador.
Luke surge como uma espécie de príncipe destronado em meio aos camponeses bondosos e temerários por seu futuro incerto. Neo, por sua vez, é um mestre de seu mundo simulado, hábil e já numa busca particular pelo conhecimento e iluminação. Seu visual é sombrio, ele atua na penumbra do submundo e pode fazer as escolhas que deseja.
Obi-Wan Kenobi e Morpheus representam o arquétipo do sábio e guia. Obi-Wan convoca Luke a ajudar a princesa em perigo, o que o afastaria de sua família e responsabilidade. Morpheus oferece conhecimento e a verdade a Neo. Quando parte de Tatooine, Luke tem um objetivo heróico por natureza: auxiliar a rebelião contra o Império. Entretanto, ele não espera que tenha que ser engolido pelo monstro (a captura na Estrela da Morte), assistir à morte de seu mestre e resgatar a princesa do dragão. Mesmo parcialmente dissuadido a abandonar o desejo de vingança, é esse sentimento, aliado à novidade sobre a natureza nobre de seu pai, que o leva a partir definitivamente em auxílio ao grupo de rebeldes que luta contra o Império Galáctico.
Neo segue o coelho branco, atravessa o espelho e descobre que toda a existência humana está subordinada à Matrix, numa mentira induzida. Sua motivação é pessoal e até mesmo depois das revelações de Morpheus, ele reluta em aceitar sua condição de salvador, situação que só muda depois de seu segundo renascimento e, como disse a Oráculo, ele seria o Escolhido “talvez numa outra vida”.
A própria noção de Bem e Mal se mistura nos dois filmes. Em Guerra nas Estrelas, há a divisão clara entre o Lado Negro e o Lado da Luz, porém, é explícito que ambos coexistem no universo e nas pessoas. Em Matrix, o herói não veste branco e tem origem subversiva, enquanto o inimigo pode ser qualquer um: “se você não é um de nós, é um deles”.
Com o surgimento de Luke, o novo arquétipo do herói estava pronto – o homem capaz por sua percepção apurada, vínculo com a família e o comprometimento ideológico com a justiça em prol da sociedade –, ao passo que Neo, é um sujeito independente da família e capaz de direcionar sua evolução e realizações de acordo com sua capacidade para o bem próprio, num primeiro momento, e com conseqüências benéficas para a comunidade durante seu processo. Luke pode ser a pílula azul e Neo a vermelha. Qual das duas você vai tomar? Ou, pode, simplesmente atender à ligação e descobrir por si mesmo.
Publicado na Sci-Fi News 100, edição especial, junho 2006. O material foi baseado na minha tese de especialização com o título de O Novo Herói da Ficção Científica Norte-Americana.
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Han Solo Atira Primeiro!
Lá vem mais uma Trilogia de Guerra nas Estrelas, mas, pelo menos, George Lucas resolveu lançar a versão original dos filmes em DVD.
Quando se trata de novos produtos, a palavra de George Lucas não pode ser muito levada a sério. Ele foi categórico e direto em muitos momentos ao garantir que a Edição Especial da Trilogia Clássica era a versão definitiva dos primeiros três e pronto. E lá fomos nós comprar um novo box de VHS e, finalmente, a versão em DVD. Críticas à parte pela ausência de extras praticamente obrigatórios como a cena com Biggs em Tatooine, a caixa foi um sucesso de vendas e deu novo gás para a franquia que decolou com A Vingança dos Sith.
E, então, quando todo mundo só tem olhos para a tão falada série de Guerra nas Estrelas, a LucasFilm, por meio de sua distribuidora a Fox Home Entertainment, anuncia o lançamento da versão original em DVD para o mês de setembro. Agora, fãs de todas as gerações vão poder escolher quais filmes querem ver: a edição especial de 1997 ou a remasterizada lançada pouco antes do retorno da Saga aos cinemas. A partir de setembro, Han Solo atira primeiro em Greedo, Jabba não é um “d”efeito de CGI e o Sarlacc volta a ser um misterioso buraco no chão com tentáculos e dentes.
Para colecionadores a notícia representa mais gasto, mas precisamos deixar o Lado Negro de fora e pensar que teremos, finalmente, a opção de ver os filmes que nos conquistaram pela primeira vez. Mas, quem conhece a estratégia da LucasFilm, sabe que este está longe de ser o último re-re-re-relançamento da saga. Muito em breve devemos ter o primeiro box com a Nova Trilogia completa, depois outro pack com todos os seis filmes juntos – com a edição especial –, aí outro com os mesmos filmes, mas com a versão original, isso se não tivermos a edição especial dos novos filmes.
Enfim, só no Brasil, até agora, foram lançadas 5 versões diferentes dos mesmos filme e ainda tem muita estrada pela frente. Agora fica a expectativa para a presença de algum novo extra do material original para acrescentarmos às já extensas coleções de versões no País. Assim que recebermos informação sobre a lista de extras, voltaremos a falar sobre o assunto. Que a Força, e os créditos republicanos, estejam conosco!
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Nasceu em devaneio às 01:07
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A Batalha Política no Espaço
Distanciando-se de vez de sua versão original, Battlestar Galactica aposta na trama polícia pontuada por boas seqüências de ação para reforçar seu enredo.
Para quem tinha dúvida, ou críticas, sobre as novidades inseridas no roteiro da série Battlestar Galactica, exibida pela TNT, às terças-feiras, às 23h, a segunda temporada deixou tudo muito claro. Até demais. Ao aproximar os cilônios da forma humana e olhar para detalhes sociais ligados aos sobreviventes das 12 Colônias de Kobol, o seriado parte para a arena política e social, em vez de focar numa grande seqüência de combates espaciais, o que era esperado por muitos entusiastas.
A presença cada vez mais constante de Tom Zarek (Richard Hatch) no cenário político, as constantes ameaças feitas pela Número 6 ao vice-presidente Gaius Baltar e as crescentes situações de tensão entre a população civil e a tripulação da Galactica tem sido a tônica desta segunda temporada. Muito mais que fugir da perseguição dos cilônios, controlar as pessoas e manter a união e a esperança parece mais difícil, especialmente depois de várias notícias como, por exemplo, a tentativa de assassinato ao comandante Adama, acusações contra oficiais e a aceitação de Laura Roslin como uma figura messiânica que será capaz de levar os sobreviventes à 13ª Colônia: a Terra. Mas, ao contrário de outros líderes, ela coloca-se em risco e participa das missões mais arriscadas, como uma incursão em Kobol para descobrir o verdadeiro caminho para o nosso mundo.
Sem inovar, entretanto, a produção aproveita fórmulas de sucessos de outros seriados de longa duração e aplica alguns de seus elementos à trama. No episódio Final Cut, por exemplo, a atriz Lucy Lawless (Xena) é a personagem principal num típico roteiro de “invasão da imprensa”, para contar as verdades do braço militar da frota. Quem acompanhava Babylon 5 vai se lembrar de quando a estação foi mostrada como um lugar decadente e mortal por conta de interesses políticos. O resultado em Galactica não é o mesmo, mas a semelhança é inevitável. O que vale mesmo é a revelação da cena final, e a chegada de um novo cilônio infiltrado: a própria Lucy, que tem o apoio da presidente Laura Roslin. Aos poucos, todos os modelos cilônios vão sendo revelados.
Outro capítulo que vale menção é Scar. Quem acompanhou o breve, mas interessante, seriado Comando Espacial (Space Above and Beyond), que era exibido pela Record ao lado de Arquivo X pode se lembrar de um episódio na qual o principal inimigo era uma espécie de Barão Vermelho assassino. Aqui, Starbuck, que já teve um episódio dedicado à relação com um caça inimigo – refilmagem de um dos capítulos da série original – se vê diante de um inimigo que vem dizimando seu esquadrão. Um ponto bem positivo para os amantes da ação.
Aproveitando a onda de medo e preocupação na população norte-americana, menções ao terrorismo e a tendências racistas têm surgido aos montes. Até mesmo o Chefe Tyrol foi encarcerado sob suspeita de ser um cilônio, enquanto Starbuck descobre que as máquinas estão implantando bebês cilônios em mulheres humanas nos planetas ocupados. Aliás, a tenente Kara Starbuck tem sido o foco de boa parte dos episódios. Ela encontra um foco de resistência humana e, finalmente, coloca, literalmente, Lee Adama contra a parede.
Parece que os produtores encontraram a dose certa de drama e ação para esta nova série, que, cada vez mais, ganha sua própria mitologia e sustentabilidade, já que conta apenas com elementos, nomes e lugares da primeira série. O resultado é de primeira linha e, não fossem as legendas, poderia ser considerado praticamente perfeito para os dias de hoje.
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Nasceu em devaneio às 01:05
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Um Mundo Sério Demais
Ao tentar transformar grandes lendas em filmes repletos de ação e batalhas, os estúdios de Hollywood deixam de lado antigos mitos para mostrar heróis independentes de magia e da espiritualidade antiga.
Em todo o mundo, crianças ouvem suas primeiras histórias sobre grandes heróis, façanhas inacreditáveis e lugares maravilhosos por meio da grande mitologia e espiritualidade existente nas culturas européias e asiáticas nos últimos milênios, porém, recentemente temos passado por um momento em que os grandes estúdios decidiram abandonar o lado mítico destas histórias para, por exemplo, transformar o mais poderoso dos semi-deuses em um simples guerreiro.
É o que vemos, por exemplo, em Tróia. Sob o comando de Wolfgang Petersen (Air Force One) e roteiro de David Benioff (A Última Noite), uma quantidade enorme de recursos, elenco estelar e um grande esforço de pesquisa foram colocados à disposição para recriar a, até hoje incerta, Guerra de Tróia. Exércitos grandiosos, uma história de amor como motivação, interesses políticos como agentes do conflito, um herói imbatível, etc, etc. Tudo muito bonito e certinho para o público, porém, o que a equipe de Petersen deliberadamente tirou do caminho foi toda a mitologia grega, que regia, por muitas vezes, as vontades de reis, motivava soldados e protegia heróis como Aquiles.
Numa breve passagem do filme, Aquiles fala com sua mãe, que profetiza sua morte caso ele vá à guerra. Entretanto, nada se fala sobre ela ser a ninfa marinha Tétis e sobre o fato de que ela, na tentativa de o tornar invencível, mergulhou-o no rio da Estige segurando-o pelo calcanhar. Como esta única parte não foi banhada pelas águas protetoras criou-se ali seu ponto fraco. O calcanhar de Aquiles. Outro guerreiro com um ponto fraco similar é o nórdico Ziegfrid, que tinha uma pequena falha em formato de folha em sua proteção mítica ao ser banhado pelos deuses.
Vários fatores míticos são atribuídos a Aquiles: sua armadura foi feita por Hefesto, o ferreiro dos deuses, filho de Zeus e Hera; seu destino havia sido decidido anos antes de seu nascimento pelo próprio Zeus e por Poseidon; e foi descrito como um deus por Homero, na Ilíada. Em várias versões da história, também vemos a intervenção direta de alguns deuses nos combates da Guerra de Tróia.
Se os deuses do Olímpo puderam ser ignorados em prol da ação e de batalhas grandiosas, o que dizer então da versão crua e puramente militar do lendário Arthur Pendragon. O filme Rei Arthur, dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), que muitos esperavam ser uma adaptação da trilogia Rei do Inverno, de Bernard Cornwell, acabou mostrando um Arthur romano, basicamente um líder militar atuando contra os “bárbaros” bretões e apoiado por leais e letais cavaleiros vindos de uma terra distante. Mesmo com a presença do competente autor e estudioso John Matthews como consultor histórico, o diretor preferiu inserir elementos mais “ligados” a sua concepção para o personagem do que se apoiar na história mítica.
Em uma conversa logo após o filme, Matthews disse que a ordem da produção era clara: “nada de magia, é um filme de ação”. Ou seja, logo de cara, o filme perdeu a chance de ser o mais próximo possível do até hoje pesquisado sobre o personagem justamente por ter alguém como Matthews envolvido, porém, relegado ao segundo plano. Com isso, Excalibur transformou-se na espada do pai de Arthur, Merlin tornou-se líder dos “bárbaros” woads (nome dado aos bretões), a existência de Avalon e da Dama do Lago sequer é cogitada, e Arthur apresenta-se apenas como um bom líder militar interpretado por Clive Owen. Um homem comum, muito longe do mito que o mantém na mente das pessoas e é referenciado até hoje. Pobres das crianças que assistem aos desenhos e ouvem à versão da história de um jovem destinado a ser rei retirando a espada mágica da pedra ou a recebendo do espírito da água.
Por mais que a premissa do filme seja “apresentar uma versão desmistificada sobre o personagem”, séculos de histórias e crenças envolvendo o Rei Arthur e seus cavaleiros não poderiam ser simplesmente ignorados assim. Não que alguma versão seja mais acurada que a outra, mas o ponto latente nesta discussão é o fato de Hollywood estar rotulando de forma pesada e clara a magia, a espiritualidade não-cristã, e as crenças antigas como elementos para filmes puramente ficcionais como O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia, Harry Potter, etc.
A sociedade moderna pode não ter mais espaço para a crença no antigo poder dos druidas, nos feitiços de grandes bruxos, na magia da natureza, porém, desvincular os grandes mitos e heróis da ligação com os deuses e a magia que muitas vezes os auxiliavam acaba por enfraquecer o poder do mito em si. E não vivemos uma era propícia ao surgimento de novos arquétipos sociais, culturais e militares. Cada vez mais, torna-se necessária a existência de modelos a serem seguidos e enfraquecer os elementos clássicos pode não ser o melhor caminho.
Engana-se, entretanto, quem entende este argumento como um estandarte a favor do antigo paganismo ou da existência da magia, uma vez que o próprio cristianismo sofre do mesmo mal. Em Cruzada, cujo título original é Kingdom of Heaven – o Reino dos Céus – a trama que aparentava ser focada no aspecto espiritual da jornada até Jerusalém não passou de um filme de ação, com batalhas eletrizantes, um herói cativante, porém, frustrado com a política envolvendo a crença em Cristo e a própria descrença dos religiosos envolvidos e da ausência real de ideais na manutenção da posse da cidade. Riddley Scott andou apostando em obras críticas como em Falcão Negro em Perigo (provavelmente a razão por ter perdido o Oscar por direção em Gladiador) e não poupou a Igreja Católica em Cruzada.
Especialmente no cerco de Saladino a Jerusalém, a fé dos religiosos é abalada pela iminente derrota e a perspectiva de massacre, sobrando para Balian (Orlando Bloom), que viajou à cidade em busca de redenção – a verdadeira razão de sua cruzada pessoal –, oferecer a esperança outrora ofertada ali mesmo por Jesus séculos atrás. O que deveria ser uma jornada baseada no sagrado e na fé acabou se transformando numa trama política e num jogo de poder.
É uma pena notar que esta tendência existe na indústria e que sob o argumento de mostrar “a visão real” sobre vários personagens fundamentais na construção do pensamento moderno e dos arquétipos que até hoje guiam os homens e seus sonhos, deixemos de lado a simples crença num mundo em que a fé, literalmente, pode mover montanhas e que uma simples espada antiga pode reunir os homens sob um objetivo comum. Ação pode render boas bilheterias, batalhas podem inspirar diretores a superarem Peter Jackson, mas é de ideais e modelos admiráveis que nossos sonhos são criados e é sobre eles que novas gerações serão ensinadas e baseadas.
Hollywood quer nos vender um mundo sério demais e deixar tudo que pode dar tempero a nossa vida com cara de faz de conta. Hoje, pode ser, mas há muito tempo atrás, em povos muito distantes, a coisa era bem diferente e, quer diretores e roteiristas queriam ou não, eles são nossos ancestrais e seus pensamentos de decisões, de certa forma, definiram o mundo em que vivemos hoje. Que a magia resista à tendência financeira e que a Fênix consiga se reerguer das cinzas dos grandes estúdios e suas fórmulas de sucesso.
Publicado na Sci-Fi News 97, março de 2006.Marcadores: Cruzada, Deuses Antigos, Falcão Negro em Perigo, Hollywood, Jerusalém, Tróia
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Nasceu em devaneio às 00:58
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| Sexta-feira, Setembro 30, 2005 |
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Anoitecer na Ravina
Certo dia, Beregond encontrou seu filho. Sentado numa ravina, apreciando o pôr do sol, o bardo viu um garoto se aproximar. Calmo, mas com um sorriso angelical no rosto, o menino de cabelos claros e olhos cativantes foi chegando cada vez mais perto. Às vezes, desviava seu olhar para uma borboleta que passava por ali, ou perseguia um grilo em disparada pela grana. E continuava chegando mais perto.
Beregond nunca havia visto o garoto, que poderia ser qualquer um, mas, de alguma forma, ele sabia que ali vinha seu filho. Uma sensação estanha tomou conta do bardo, que chegou a duvidar de seu sentimento, mas, quanto mais se questionava, mais a certeza crescia. Ele queria ir ao encontro do garoto, mas lhe agradava vê-lo brincando com a natureza.
Como se assistisse a um espetáculo, Beregond limitou-se a olhar. E por muito tempo olhou. Por vezes, o garoto olhava para ele, sorria e continuava a brincar. Por fim, eles se encontraram. Beregond estava pensando numa nova poesia e nem percebeu que a seu lado estava sentado o garoto. O filho.
Como se chama?, perguntou o bardo, enquanto sentia cócegas por uma formiga que andava por sua mão. O garoto, nada respondeu, e imitou o gesto, procurando por uma formiga na grama.
De onde vens, pequenino?, tentou novamente. Desta vez, Beregond deitou-se e entrelaçou os braços atrás da cabeça. Com um sorriso, o menino, novamente, o imitou. E gargalhou. Deitados eles ficaram por uma eternidade. A presença do garoto era reconfortante, e bastante alegre, mesmo sem falar nada.
E juntos eles se assustaram com um bando de pássaros que saiu das árvores em polvorosa, suspiraram quando o Sol finalmente se pôs, e contaram as estrelas em volta da Lua procurando a estrada para a terra eterna. Beregond não perguntou mais. Algo lhe dizia que não era necessário. E simplesmente desistiu. Escolheu aproveitar o momento.
O garoto dava risadas. Rolava pela grama. Agora foi Beregond quem o imitou. Brincaram muito, trocaram muitos olhares. Uma coruja chegou, pousou num galho próximo e os observou por um longo tempo. Eles olharam de volta e seriam capazes de entrar e viajar pelo conhecimento do pássaro, mas preferiram ficar ali mesmo. E assim foi.
Beregond adormeceu e não viu o garoto partir. Ganhou um beijo, um carinho, e dormiu mais profundamente.
Na manhã seguinte, era seu amigo pardal quem estava a seu lado. Beregond perguntou sobre o filho e o companheiro lhe contou que era realmente seu filho, mas ele só viveu por um momento que se transformou na eternidade da mente do bardo. Sentou-se novamente no gramado e contemplou os primeiros raios do Sol que vinham das montanhas do Leste. Uma lágrima escorreu e, conta o pardal, milhares de navios poderiam navegar por suas conturbadas ondas de tristeza.
Então, Beregond repetiu a pergunta: Qual é o nome dele?
O pardal fez um piu, olhou para baixo e tocou com o bico no solo. Olhou para o amigo e partiu.
Beregond olhou para o mesmo lugar e lá encontrou uma palavra escrita por gravetos: Futuro.
E se lembrou de tudo que poderia ter sido, ou que do ainda estar por vir.
Lá no alto, o pardal só observava.
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Sail Away in the tears of time...Marcadores: Beregond, Bárdico, Filho, Pardal
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Nasceu em devaneio às 19:03
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| Quarta-feira, Setembro 21, 2005 |
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Vazio
Desde pequeno, Beregond, assim como seus jovens amigos, foram ensinados a temer muitas coisas. Deviam temer o escuro, o fogo, o desconhecido e os desconhecidos. Deviam ter medo da morte. Eram tantos medos devidos que a própria vida não era vivida, mas temida, afinal de contas, somente vivendo era que todos poderiam exercer todo esse medo ancestral.
Certa vez, conversando com seu amigo pardal, Beregond ouviu uma antiga história sobre o escuro. Havia uma porta negra, dizia o pardal, que foi aberta pelo Homem. O que todos viram era apenas num contorno negro, sem cor, sem movimento. Um vazio incômodo de onde nada poderia vir. As pessoas olharam, questionaram, não entenderam, e tiveram medo. E assim foi para a maioria da Humanidade. Sempre olhando, sempre com medo, sempre distante.
Enquanto o pardal contava sua lenda, o bardo lembrou-se da infância. E de um velho baú que seu pai guardava num dos cantos da casa. Curioso, ele foi bisbilhotar no baú uma vez e, quando abriu, levou um susto, pois só o que conseguia ver um negrume opressivo. Toom. Fechou abruptamente.
Por anos, aquela ausência de matéria, aquele vazio incômodo o perseguiu. Em sonhos, em lembranças, na simples presença do baú. Sua presença, porém, foi diminuindo com o tempo até se transformar numa simples lembrança de infância.
Pouco antes de sua aventura pelas florestas do mundo, porém, Beregond retornou à casa de seu pai e lá estava o baú. A primeira reação foi de um medo ancestral, mas os tempos eram outros. Ele decidiu, mais uma vez, olhar para dentro da caixa, mas temia reavivar o medo do nada.
Respirou fundo antes de abrir. E lá estava ele. O Vazio. Desta vez, porém, o medo não o venceu e Beregond resolveu arrastar o baú para baixo da janela, onde a luz do Sol entrava cordialmente. Num momento mágico, e único, a luz invadiu as trevas. As cores dançavam, se entrelaçavam. E, logo, o preto deu lugar a um dourado deslumbrante.
Maravilhado, Beregond olhou para dentro da caixa e logo reconheceu marcas no fundo de madeira. Uma imagem. Um homem segurava um garotinho. Ambos sorriam muito. E o bardo logo sorriu também.
Abaixo da figura entalhada estavam o nome de seu pai, o dele próprio e a frase: Enfim estás pronto, meu filho. Vá e conquiste o mundo. A história é tão chata que ri de ódio, amigo? Perguntou o pardal. Deixe-me contar o fim, agora que tenho sua atenção.
E continuou.
O que todas aquelas pessoas não imaginavam era que atrás daquela porta, por tanto tempo evitada e temida, havia a entrada para um dos mais belos vales de toda a existência. Muitos a chamavam de Éden, outros de Paraíso, mas os mais sábios e valentes, que enfrentaram o desconhecido, conheciam aquele lugar como seu lar. Deu um pio. E voou de volta para a floresta.
Já era noite. O bardo olhou para o céu e, pela primeira vez, não viu um véu negro pontilhado por estrelas. Mas sim um mar de estrelas rodeadas por milhões de possibilidades.
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Sail Away
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Nasceu em devaneio às 19:05
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| Terça-feira, Setembro 20, 2005 |
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Renascer
O Bardo acordou. Hoje à noite, o texto de retorno será publicado. A avalanche vai começar. Espero que gostem.
Sail Away, Bardo
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Nasceu em devaneio às 17:57
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| Quarta-feira, Agosto 24, 2005 |
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Uma Razão
Fiquei meses sem te escrever. Passei semanas sem te homenagear com minhas palavras. Gastei horas pensando na razão de tudo isso. Levei minutos para compreender. Então, olhei para as estrelas de felicidade. Imaginei teu rosto naquele mar de pontos brilhantes.
Amo minhas palavras e me delicio com cada uma delas. E vou além, quando falo de você. Imagino-te lendo. Sorrindo. Agradecendo. De repente, quando eu tinha tudo para escrever mais e mais, parei. Parei. E sozinho na noite. Chorei. Do meu lado, você dormia tranqüila.
Parei de escrever para ti. E foi por ti. Minhas palavras bastam. São ditas, não escritas. Agora, você está aqui. Ao meu lado.
Te ver me motiva. Te sentir me sacia. Te abraçar me completa. Te olhar, me dá vida.
Quem sabe, em breve, eu não volte. A escrever mais para você. A dedicar mais poemas a você. A mostrar a todos, o quanto te amo.
Por hora, apenas te admiro. Olho nos teus olhos. Seguro seus braços. Beijo tua boca.
E acompanho tua vida. Do teu lado. Hoje. E sempre.
Te amo.
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Nasceu em devaneio às 21:48
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| Domingo, Abril 24, 2005 |
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O Contar dos Anos
Vivemos à sombra do contar dos anos. Anos anuviados marcam o princípio. Crescemos embalados por meses acelerados. Seguidos por tempos de pensar, pesar. Ofício.
Cada ano, porém, é apenas um ano. Medido cartesianamente por segundos, horas, dias, meses. Enfim, um ano é um ano. Finito. Invenção abstrata e intransponível do homem para medir sua vida. E morte.
Desde cedo, aprendemos sobre o tempo e os anos. O início e o fim. E vamos vivendo. Ano após ano. Na contagem ininterrupta das horas. Do tempo. Em direção à morte. Ou a outra vida.
Pelo contar dos anos, estamos presos e condenados. É uma conta que nunca pára. Nunca muda. Nunca. Será?
Na medida oficial de nossa vida são os números absolutos que comandam a evolução. Experiência. Saber, ou não. Entretanto, medida tão inexorável quanto esta afeta desta maneira apenas àqueles que vêem a vida passar. E contam. Até a morte. Simples assim.
Deveria haver muito orgulho em dizer, contra todos os parâmetros, que se tem 300 anos e não 20. Sanatório? Quem sabe.
Se pensarmos todos no que se vive dentro de um reles ano. Que condensa todas as horas. E também compacta, guarda e espreme milhares de risadas, alegrias, tristezas, conquistas, derrotas e tantos outros momentos. Ah, momento. Tão breve, tão belo. Trivial. Para os tolos.
Poucos acreditariam, ou entenderiam, na beleza de se viver 100 vidas num único e reles ano. Milhares de existências num período, por definição finito, portanto, cerrado. Inexpugnável.
Em 5 anos, vivi infinitas existências. Nascimento, vida e morte. Ininterruptamente. Ao te olhar, um novo ser surgia, te idolatrava pelo tempo que tinha que ser. Atingia sua plenitude. Razão. Propósito.
E fenecia. Tornava-se conhecimento. História. Para um novo renascimento. Um ciclo movido pelo amor inexplicável. Turbilhão de sentimentos nutridos por ti. Pelo teu simples sorriso. Simplicidade cativante.
Uma vez por ano. O contar dos anos nos confronta. Regras. Sempre regras. No fim das contas, adicionamos um singelo 1 à conta. Número tão básico da existência, que aliado a tantos outros de seus iguais forma o conjunto. O tempo passa.
Toda a alegria vivida. Todo o conhecimento adquirido. Tudo que se pensou, fez, ou deixou de fazer ganha forma numérica. E de 1 em 1 o contar dos anos nos amarra. Apaga. Esquece. Talvez.
Como um arquivo de computador. Baseado em 0 e 1. Lá está nossa vida. Esquecida para quem não liga. Bem guardada para quem enxerga. Escolha.
É dentro desta Caixa de Pandora que se encerra tua razão. Mito? Verdade. Explore-a. Viva milhares de vidas num segundo. Transforme centenas de anos numa vida. Dobre o tempo à sua vontade. Livre arbítrio.
Paixão. Amor. E a vontade de viver. Pura existência.
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Feliz Aniversário, Doce Gilwen!
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Nasceu em devaneio às 13:37
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| Terça-feira, Novembro 23, 2004 |
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O Pilar e a Gema
Imagine que existe um grande pilar que sustenta o firmamento de forma silenciosa e constante. Vislumbre todos os seus detalhes calmamente esculpidos por seus criadores e vigias durante gerações e gerações da existência. Todos lá, alheios às indas e vindas daqueles que abaixo deles viviam. Que cena deslumbrante é essa, ainda mais por ser “apenas” um pilar.
Toda essa grandiosidade foi dedicada e concedida ao pilar para que ele – na verdade, sua simples existência – pudesse realizar uma tarefa tão importante quanto manter o firmamento e a ordem por Eras e Eras da existência.
Por muito tempo, o pilar se manteve forte, inabalado e constante. Inconstante, porém, foi o surgimento de seu desejo por conhecimento, pelas razões de sua existência. Foi então que ele notou a presença de outras formas, outros seres, um só mundo. Também percebeu que algumas destas entidades tentavam chamar sua atenção e se aproximar de sua majestade.
Era um novo tempo e esses seres não mais queriam adorná-lo ou reforçá-lo, mas sim, buscar seu conselho, seu apoio, e, inadvertidamente, um pouco de sua força. O pilar, do alto de sua bondade e benevolência, abriu seus domínios a todos que quisessem compartilhar sua presença e seu conhecimento. Infelizmente, a abertura também permitiu que uma fina camada de água começasse a penetrar em sua base. Demorou até que a consciência do pilar compreendesse aquela estranha sensação. Quando o fez, achou bom, pois desconhecia tal elemento e lhe agradou o contato.
Com o passar do tempo, os seres e entidades ficavam cada vez mais próximos ao pilar, subiam em suas gravações, aproveitavam, aprendiam, retiravam e, apenas, alguns devolviam, retribuíam. O que o pilar também desconhecia era o efeito de todo esse contato. Sua bondade era extrema e tudo que ele fazia ou permitia que lhe fosse feito era imbuído de luz e carinho. O tempo passou, aqueles que lhe acompanhavam pegavam o que queriam e partiam para nunca mais voltar. E a água começou a subir.
Por muito tempo, o pilar aprendeu coisas com as tais criaturas e ampliou seu já vasto conhecimento.
Certo dia, ele sentiu – pela primeira vez – falta de alguma coisa. Em sua base havia uma gema de beleza única e idade ancestral. Embora o pilar não soubesse, ela havia sido posta lá por seu criador, seu pai. Todos que perto chegavam por ela eram cativados por seu brilho cintilante e sensação acalentadora. Quando o pilar teve esse estranho sentimento, buscou em suas bases a percepção daquela parte de sua existência, não mais a sentiu como parte de si. Havia desaparecido. Em seu lugar, apenas a água que há muito começara a corroer suas fundações.
Ele estendeu seus sentidos e percebeu que sua gema, uma parte da razão de sua existência, estava sendo levada, lentamente, para longe por alguns daqueles seres que, certa vez, ele havia admitido em seus domínios. O pilar nada podia fazer, a não ser lamentar e então ouvir o lamento daqueles que a ele permaneciam fiéis. Ele passou tanto tempo inebriado pela bondade que distribuía e por suas novas descobertas que não deu atenção à ruína que surgia em sua fundação, na retirada de uma parte de si, e na partida daqueles que o prejudicaram.
E o mais importante, ele não notou que, agora, aqueles que o idolatravam agora o seguravam, escoravam e lutavam contra as ondas que se chocavam violentamente com o pilar. Um desses seres, o maior de todos os fiéis, tomou para si a maior das tarefas e, sem pestanejar, envolveu seus grandes braços e direcionou toda a sua força para impedir que o pilar se movesse mais um milímetro sequer em direção ao chão.
E assim ele ficou, solitário, dedicando sua existência à preservação do pilar, do firmamento que ele sustentava, e todos que sob ele viviam. E o pilar não mais se moveu. Foi assim por um tempo, mas alguns dos seres ainda continuavam a lamentar a perda da gema e a ruína de seu principal apoio. Seu motivo de existir.
Foi então que um grupo dos mais queridos – especialmente os cansados de lastimas e de tristeza – deixaram a base do pilar do firmamento. Instintivamente, alguns moveram-se para o lado do grande fiel, que passaram a ajudá-lo em sua incansável tarefa. Outros, dotados de habilidade extrema e iluminados pela luz e sabedoria do pilar, deixaram seus domínios a fim de recuperar sua preciosa gema. Só ela, descobriram eles, seria capaz de restaurar a base do pilar, acabar com o pesar e realinhar a vida.
Que nos seja permitido encontrar esses pilares de nossas vidas e, ao contrário daqueles que partiram e deixaram o pesar, possamos manter nossas convicções e tenhamos a sabedoria para devolver o amor e a sabedoria que nos foram concedidas com tanta bondade e apreço. No fim das contas, como em toda história feliz, o pilar permanece e felizes são aqueles que o apoiaram em sua necessidade. Ah, a gema... bem, ela está em nossos corações, não importa o quanto tentem tirá-la de nós, ela sempre estará lá e teremos força para reencontrá-la e reforçá-la. Sempre.
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Nasceu em devaneio às 10:44
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| Quarta-feira, Novembro 10, 2004 |
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Lágrimas fora do tempo
Sou aquele cheio de lágrimas
De pesar
Por aqueles que ainda não partiram
Mas ainda assim vivo em lágrimas
Por tudo aquilo que vivi, vivo
E ainda viverei
Por todos aqueles que amei, amo,
E ainda amarei
Encontro nas lágrimas as razões para amar
E ter a certeza de que este é meu lugar.
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Nasceu em devaneio às 01:09
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Sonho e Realidade
Sonhos todos temos.
Sonhamos com o futuro.
Deliciamo-nos com idéias.
Mostramos um pouco quem realmente somos.
Sonhos tenho aos montes.
Destes montes existirá a realidade.
De um dia lembrar do passado.
E rever aquele garoto sonhador.
Um destes sonhos, porém,
Vivi e revivi em devaneios solitários.
Falta pouco para sua hora.
Em tempo chegará sem demora.
E, então, erguerei minha criança.
Com orgulho e amor.
E, finalmente, direi:
- Pai, este é seu neto. Prometo ser tão bom quanto foste comigo.
E ambos lembraremos deste dia até o crepúsculo.
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Nasceu em devaneio às 01:08
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| Sexta-feira, Outubro 29, 2004 |
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Rio Inóspito
Na solidão da noite, ficamos à mercê de nossos medos, de nossos segredos, de nossa verdade. Nossos rostos, finalmente, não precisam representar para aquela sempre atenta platéia de pessoas com quem convivemos durante o dia todo. Se te lembras de memórias felizes, esta felicidade será pura e do seu jeito. Se a lembrança é de tristeza, lamentarás com a maior emoção. Mesmo que nunca descubramos qual é nossa verdadeira face frente às mais distintas reações e emoções – afinal, basta haver um espelho para que, automaticamente, comecemos a atuar – sabemos que naquele momento único, e solitário, somos nós. Indivíduos. Pessoas. Sozinhos.
Em meio àquela miríade de idéias desconexas, imagens recentes, medos ancestrais, planos imediatos, idéias geniais e tantas outras coisas que pensamos e imaginamos quando nos entregamos ao relaxamento de nossas camas, somos capazes de pensarmos em nós mesmos e nos entregarmos a nossos verdadeiros anseios.
E, nessa hora mágica, os medos também surgem e reagimos – sem o menor controle – da maneira que queremos. Mais intimamente. Sem preconceitos. Sem preocupações. Pode ser uma gargalhada para espantar os temores, pode ser a retração corporal para se esconder das sombras da noite, podem ser as lágrimas. Lágrimas sinceras, lágrimas verdadeiras, lágrimas desesperadas e entristecidas.
Elas são capazes de formar um rio que, em meio a soluços e bravatas solitárias contra o vazio, leva parte da dor, alivia o medo e refresca a alma. Rio gelado de puro pesar. Que faz pensar. Ponderar. Sonhar. E continuar a chorar.
Navegar neste inóspito rio traz muitas lembranças, memórias e marcas pesadas de nossas vidas. Assim como um filme desfocado que se desenrola na escuridão, revivemos sentidos, emoções, cenas e conversas de tempos passados como crianças experimentando fortes emoções. E assim, permitimos a nós mesmos revisitar erros e medos. Fica a escolha de enfrentá-los ou simplesmente viver tudo novamente.
O importante é navegar. Morrer para renascer. Renascer para relembrar a beleza da vida. Viver para amar e continuar amando.
E o ciclo se repete.
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Nasceu em devaneio às 18:36
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| Quinta-feira, Outubro 14, 2004 |
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Porquê lutamos
Capítulo 1: Invasão
“Ele era amigo do Peregrino
e seu lugar era com as estrelas...
pela eternidade”
Antigo ditado dos colonos.
Olhar para as infinitas estrelas no espaço sideral foi motivo de mistério para a Humanidade por incontáveis anos. Muitos encontravam explicações improváveis, teorias duvidosas ao passo que outros simplesmente as admiravam e as respeitavam. A conquista do espaço foi árdua e demorada, mas, no final, o homem chegou às estrelas. As perguntas e mistérios imaginados pela ignorância humana, porém, continuaram.
O espaço foi um grande marco em todas as esferas da sociedade humana e, por muito tempo, a exploração e a colonização foram símbolos de paz e união entre as raças e nações da Terra. Como sempre, o Homem foi inapto para gerenciar suas fraquezas e desejos mais inerentes e o que era bom, inevitavelmente, tornou-se um pesadelo pontuado pela morte e destruição causada pela maior guerra que a civilização criou.
No início, colônias lutaram entre si por território e recursos minerais tão escassos nos planetas colonizados. E todos acreditaram que o fim do conflito determinaria o retorno da paz à raça humana. Sonhos, como sempre, duram pouco e logo tudo passou a ser um pesadelo. Infelizmente, as mortes eram reais e os motivos, cada vez mais, pareciam saídos de uma antiga história de ninar da Terra pré-espacial... inexplicáveis e improváveis.
* * *
O espaço é silencioso e calmo. Sempre foi assim, pelo menos até a chegada da raça humana e suas naves de batalha. Mesmo em sua imensidão, uma grande dissonância poderia ser sentida enquanto centenas de naves de combate – e um grande número de cargueiros e transportes – alinhavam-se em aguardavam o início da batalha. Nenhum dos homens e mulheres que tripulavam as espaçonaves dava atenção para a beleza brilhante e canelada de seu planeta, que continuava lá pairando imponente no firmamento estelar, como um grande holofote que a todos iluminava com seu brilho incomum e apaixonante. Era por ele que todos lutavam, mas, na hora de seu maior sacrifício, os pilotos pensavam em suas próprias vidas. Mas continuavam esperando.
Em instantes, os radares da linha de defesa começaram a piscar e dispararam os alarmes. A força inimiga havia chegado. Uma imponente frota de guerra fez-se presente e os defensores nada podiam além de aguardar. Rendição não era uma opção, eles haviam começado com tudo aquilo e todos estavam dispostos a ir até a última conseqüência por suas convicções e crenças.
Até mesmo o mais inexperiente dos pilotos sabia que os números eram desproporcionais e que a frota de ataque do governo venceria aquela batalha e que sua resistência seria em vão. Nenhum deles se moveu.
* * *
Em questão de minutos, o almirante Pomel deu a ordem e tanto os esquadrões de caça quanto as fragatas tomaram posição. Da ponte de comando da nau capitânea do grupo de combate Concórdia – batizada como Solaris –, ele admirava o espaço. Mais uma gloriosa vitória para a Confederação e uma inevitável derrota para a civilização, pensou Vincent Pomel, conhecido por nunca perder uma batalha e único almirante confederado a recusar a ordem de aniquilar um planeta indefeso. Sempre sonhei em navegar pelo espaço e agora vivo um pesadelo ao manchá-lo de sangue. Desperdício inútil.
– Almirante, senhor.
Ele ouviu o chamado, mas continuou imóvel em frente ao painel de estrelas de seu posto observatório.
– Almirante Pomel, senhor!, repetiu o jovem imediato.
– Pois não, senhor Raiji, disse deixando seus devaneios e voltando à ponte de comando.
– Todos os esquadrões e naves de apoio estão a postos. Ordem para atacar?
Pomel permaneceu em silêncio. Cerrou os olhos e falou a seus comandados.
– Abram canais de comunicação, quero falar com o comando de defesa.
– Senhor, eles não respondem a nenhuma de nossas saudações, disse o imediato.
– Abra os canais, imediato, e faça com que todos os integrantes da linha escutem, assim como nossos combatentes. O tom sério e ríspido de Pomel não deixou dúvidas.
Depois de todas as tentativas que eles haviam feito nas últimas campanhas – sem nenhuma resposta – a tripulação esperava que o almirante tivesse desistido de vencer sem lutar. Estavam errados e o imediato arrependeu-se de contrariar a ordem de seu superior.
– Aqui fala o almirante Pomel, do grupo de batalha Concórdia. Exijo a rendição imediata de suas forças. Não somos crianças aqui e é tolice desperdiçar suas vidas. Nossa força é grande demais para vocês. Admiro sua valentia e quero honrá-los ainda mais com a opção de permitir que vivam. Por favor, respondam.
Todos permaneceram em silêncio.
E o inesperado aconteceu.
– Pelo amor de Deus, não sejam tolos! Entreguem-se e acabem com isso logo, seus malucos! A maneira como Pomel gritou e rogou aos defensores que depusessem suas armas provocou espanto em cada um de seus comandados.
Na linha de defesa, apenas a ordem de “permaneçam em seus postos” foi dado pelo comando improvisado situado no planeta. Mesmo assim, duas naves de transporte começaram a recuar. Instantes mais tarde o almirante Pomel pode ver duas pequenas explosões de sua ponte de comando.
– Sensores, o que foi aquilo?
– Eles destruíram duas de suas naves, senhor. Elas estavam recuando.
Foi o suficiente.
– Todos os postos. Ataquem.
E assim a batalha começou.
E esta será a pior de todas elas, pensou Pomel cerrando os olhos.
* * *
Ser piloto de caça estelar nunca foi algo seguro. A maioria deles morria em seu primeiro combate e os mais sortudos participavam de três ou quatro batalhas. Alguns deles, porém, pareciam ser imbatíveis. O tenente Rob Crane era uma exceção. Ele já era uma lenda antes mesmo de a guerra começar. Mesmo sem falar sobre o assunto com ninguém, todos sabiam que ele nunca havia sido vencido, nem mesmo em simuladores.
Ele era o líder do melhor esquadrão do grupo Concórdia e era informado pessoalmente pelo almirante Pomel. Nenhum comandante tinha coragem de encará-lo. Respeitado e temido por seus companheiros, Rob era uma espécie de deus a ser seguido no campo de batalha. Rob pilotava um caça preto e dourado, sempre a nave mais avançada na formação de combate. Alguns pilotos costumam dizer que com Rob é assim: um tiro, um inimigo a menos.
Para seus inimigos ele tinha um nome: Arcanjo.
Atrás de todos os esquadrões, um grupo especial de naves de resgate estava a postos. Normalmente, estas naves eram utilizadas para salvar a vida de pilotos que, com muita sorte, conseguiam ejetar antes de terem suas naves destruídas. Porém, a fúria da batalhas era tamanha que poucos tinham esta oportunidade e sobreviver era praticamente um milagre. O grupo Concórdia, porém, tinha um grande número destas naves justamente pela presença do tenente Crane. Ele era tão preciso – e tinha uma motivação misteriosa – que era capaz de sempre desabilitar os motores de seus oponentes sem, na maioria das vezes, matar os adversários.
Boa parte dos pilotos acreditava que isso era coisa de sua proximidade com o almirante, mas ninguém sabia ao certo o que o levava a lutar com tanta habilidade e, mesmo em situações extremas, não eliminar seus adversários.
Antes desta batalha ninguém havia visto Rob. Ele havia ido ao alojamento do almirante logo pela manhã, enquanto a frota ainda estava viajando na velocidade da luz, mas ninguém, além deles dois, sabia o que havia acontecido. Rob desapareceu desde então.
O caça estelar de Rob Crane havia sido o último a chegar à formação. Os controladores de vôo estranharam, já que ele era sempre o primeiro a partir para o espaço e o último a retornar. Rapidamente informaram ao almirante, que nada disse e continuou a observar o espaço pela janela de seu posto observatório.
Joe Pilgrim, outro veterano do grupo de Rob e um dos poucos que conversava com ele, tentou contatá-lo pelo rádio, mas não obteve resposta. Se ele falhou, mas ninguém tentou. E com isso, os pilotos ficaram um pouco preocupados e com sensações estranhas.
– Será que eles tem alguma arma secreta que deixou até Rob com medo?, perguntou Ryan O’Neil, capitão da fragata Lightining, a sua tripulação.
– Não sei, capitão. Acredito que o almirante teria nos informado durante as instruções antes de chegarmos. Realmente não sei.
– Todos os postos em prontidão, não quero nenhuma surpresa! Anunciou O’Neil a sua tripulação e também ao esquadrão responsável por sua escolta.
Esta conversa repetiu-se entre vários pilotos e naves de apoio que formavam a força de ataque do Concórdia.
Enquanto os pilotos recebiam instruções e discutiam o que havia acontecido a Rob Crane, as freqüências foram interrompidas para a solicitação de rendição feita pelo almirante Pomel. Todos permaneceram em silêncio, como de costume e, logo em seguida, aceleraram suas naves ao ouvirem a ordem de atacar.
Rob não esperou a ordem. Ele viu as duas naves sendo abatidas por debandarem e acelerou seu caça para força máxima, reforçou seus escudos e não esperou seu esquadrão. Ao notarem sua reação, os demais integrantes do esquadrão Foxtrot seguiram em velocidade máxima, assim como as cinco naves de resgate que tinham orientação de recolher os alvos de Rob assim que ele os desabilitasse.
O que ninguém sabia era que, no interior do caça de Rob, não havia o resto da esquadrilha, não havia a frota, não havia uma guerra. Enquanto acelerava, ele segurou, mais uma vez, uma foto que havia tirado há alguns meses com seu irmão – Clay Crane, membro das forças especiais terrestres e um dos melhores soldados da confederação. Os dois apareciam sorridentes e abraçados sob um Sol agradável, na antiga casa da família, na Terra. Havia sido a última folga dos dois e, desde então, só se falavam por cartas ou mensagens pela rede militar.
Rob olhou para a imagem de seu irmão, não se esforçou para conter uma lágrima, baixou seu visor e partiu. Sem piedade. Eles vão morrer.
* * *
Assim que deu a ordem de ataque, o almirante Pomel deixou a ponte de comando. Sua presença era desnecessária, em pouco tempo a batalha estaria terminada, os defensores seriam valorosos como sempre, mas acabariam derrotados. Ele percorreu os corredores vazios e iluminados pelas luzes de alerta vermelho de sua nau capitânea até os alojamentos dos oficiais.
Parou por instantes frente à porta identificada como: Ten. Crane, Rob. Esquadrão Foxtrot. Reg. 1138. O+.
– Código de acesso: Peregrino. Abrir compartimento. Prioridade de emergência, ordenou Pomel ao sistema de segurança.
– Afirmativo. Identificação válida. Acesso permitido, almirante, disse a voz metálica do computador.
Depois de respirar profundamente, Pomel entrou no quarto de Rob. Como imaginou, viu sob sua mesa um envelope oficial rasgado e, ao lado, uma carta com o emblema da Confederação da Terra. O conteúdo ele conhecia, assim como o texto padrão que todos os familiares de soldados recebiam quando seus entes queridos morriam no cumprimento do dever. Bobagem, eles merecem muito mais do que cartas. É muito triste pensar que hoje o melhor e mais nobre vai se tornar o mais letal e temido. Infelizmente.
Na carta lia-se, entre outras coisas: Sentimos muito pela morte do coronel Clay Crane, que morreu heroicamente ao salvar a vida de duas garotinhas durante um ataque surpresa à base confederada de Marte. O restante não interessava, aliás, a própria carta nem precisaria ter sido aberta.
– O Arcanjo está morto. E tenho medo pelo que nascerá nesta batalha.
Pomel falou ao vento, olhou pela pequena janela no compartimento de Rob e lamentou não ter convencido seu amigo a não lutar, ou, ao menos, aliviar sua dor. Nada foi possível. Há coisas que, simplesmente, não podem ser impedidas e o ódio de Rob tornou-se grande demais até mesmo para ele.
– Que Deus tenha piedade daqueles pobres coitados.
Rob acelerou arrojadamente direto para a linha de defesa e não respondia a nenhum chamado de seu esquadrão. Praticamente todos os pilotos tentavam falar com ele para pedir ordens, já que ele era o líder do grupo. Nenhum deles continuou a chamar quando Rob enfrentou o primeiro inimigo.
Um tiro certeiro. Uma explosão instantânea. Sem sobreviventes.
E esse foi o destino de toda e qualquer nave de combate, ou não, que entrasse no campo de ação do caça negro e dourado de Rob. Ele dançava freneticamente entre os inimigos, disparando raios laser e mísseis em tudo que se movia e não era do Concórdia. O comandante do grupo de naves de resgate não sabia o que fazer e enquanto tentava, inutilmente, seguir o ritmo veloz de Rob, recebeu uma mensagem pelo rádio.
– Comandante, aqui fala controle Concórdia. Aborte sua missão. Adote postura padrão e priorize nossos pilotos. Câmbio.
A ordem era clara. Aquele não era o Arcanjo, mas uma força tão poderosa quanto a ira de um anjo cairia sobre os revoltosos. Eles haviam se levantado por independência e várias outras razões menores e fúteis, mas não ganharam nada mais que desaparecer em meio a explosões e destroços no espaço frio. Solitário. Esquecido.
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Esta história continua, mas não aqui. Ela renderá algumas páginas, muito em breve. :)
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Nasceu em devaneio às 21:15
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| Segunda-feira, Setembro 13, 2004 |
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No passado...
olho para o passado e o que vejo são sombras
em movimento, paradas, esperando, esquecendo
busco vida e esperança, mas encontro penumbra
a alegria deixou aquele lugar, escondido sob a luz do luar
nas trevas atormentando os sonhadores
e tirando a esperança dos exploradores
de um lugar cujo próprio tempo esqueceu
e que num simples piscar de olhos desapareceu.
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Nasceu em devaneio às 23:55
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| Segunda-feira, Setembro 06, 2004 |
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Eram só crianças...
Os punhos cerram-se e os lábios ficam apertados
Vários músculos do corpo se movimentam, retesam-se
A mente tenta conter o físico a não explodir
Mas algumas lágrimas teimam em se formar
Essa pode ser uma descrição simplória, limitada
Mas foi o mínimo que a emoção causou.
Emoção de ver todas aquelas crianças mortas, fotografadas
Expostas para o mundo em mais um ato de terror
Não é o momento de julgar, analisar ou expor os motivos
É um momento de tristeza e revolta por si só
Vidas tão jovens, desperdiçadas, estraçalhadas
Como nas guerras, nos ataques de fúria, nos ataques covardes
Seus olhos entreabertos, rostos assustados
Feições apavoradas, com medo da morte
Que chegou com tiros nas costas, e explosões suicidas
As reações físicas voltam a se manifestar
Enquanto escrevo, e luto para não chorar
Seria uma coisa difícil até mesmo para se imaginar
Mas uma realidade que temos de enfrentar
E superar.
Mas como superar tamanho ódio e desrespeito pela vida?
Como ir dormir com a imagem daquelas crianças deitadas no chão?
Até mesmo a poesia perde sua beleza frente a tal atrocidade
Trocaria mil rimas, centenas de versos, milhões de poemas
Por uma daquelas vidas, uma única e simples vida
Infelizmente, isso não é um programa de TV
Não temos a máquina do tempo, a mocinha que volta um dia
Nem o pacifismo, nem o bom senso
Vivemos num mundo caótico, violento e cada vez mais triste
E nada trará aquelas vidas de volta
A TV insiste em desvalorizar a vida
Alguns shows incutem a vã idéia de que podemos voltar
Mas, na realidade, só nos resta chorar e lamentar
Eram só crianças, só crianças...
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Nasceu em devaneio às 11:50
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| Quarta-feira, Agosto 25, 2004 |
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Casas
Casas sólidas
Casas insólitas
Confortáveis
Surreais
Para pessoas gigantes
E pessoas normais
Casas, sempre casas
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Nasceu em devaneio às 20:13
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| Quinta-feira, Agosto 12, 2004 |
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Saudades
Acordo e olho pela janela
Lá está o Sol a me receber
O ânimo, porém, esmaece
Assim que me lembro dela
Teu sorriso me motiva, dia a dia
Nosso amor me emociona, sempre
Teu potencial me inspira, a continuar
Nossas guerras me congelam, um pouco por dia
Vivo na esperança de um futuro aconchegante
Quente, reconfortante, cheio de felicidade
Luto contra um presente tenebroso e um tanto triste
Mal nos vemos, e meu coração sente muito
Nossos caminhos são aqueles que escolhemos
Pelo nosso desejo, não imposição
No horizonte vejo batalhas duras pela frente
Além disso, nada sei de antemão
Minha luta é antiga, como a água contra a pedra
Muito já superei por aquilo que desejei
Um desejo, porém, se faz urgente:
Assistir ao teu renascimento, para nossa alvorada
Ver-te distante castiga meu coração
Que deseja apenas nossa união
Não ver teu sorriso me congela
Como um coração solitário ao relento
Esperando por uma gota singela
De nossas lágrimas reunidas
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Nasceu em devaneio às 09:00
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| Terça-feira, Agosto 03, 2004 |
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Chica
Teus pés firmes há muito aqui pisaram
Num olhar profundo, a lembrança da terra distante
Semblante jovial que brilhou cintilante
Com o Sol de verão que ao longe avistaram
Chegou e prosperou no alto do monte
Teus descendentes vieram e ganharam o mundo
Sob teu olhar cansado, mas sempre atento, cruzaram o mar
Para tua terra reencontrar
Os anos passaram, tua história cresceu
Assim como os brancos fios de tua sabedoria
Teus filhos partiram, mas tua vontade permaneceu
Sempre firme e atenta à distante e antiga cantoria
De respeito e homenagem fez-se tua vida
Com amor e carinho retribuem teus bons atos
Sorridentes e alegres lhe abraçam seus queridos
Afinal, velhice não pega, ela contagia e inspira... a vida.
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*este poema é meu presente de aniversário atrasado para o Henrique. Foi inspirado num momento trivial, mas, para mim, mágico promovido pela avó dele. Parabéns, Henrique! E obrigado por tudo!
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Nasceu em devaneio às 10:41
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| Segunda-feira, Julho 19, 2004 |
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Um Pequeno Coração
Ele nasceu pequenino.
Sem dono, mas louco para amar.
Em baixo de um carvalho falante ele encontrou um menino
E os dois ouviram histórias alegres, tristes que os levavam dos campos ao mar.
Quando tudo acabou, o menino partiu.
E do pequeno coração, uma lágrima caiu.
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Nasceu em devaneio às 23:24
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Uma Fada
Na beira da estrada havia uma Fada
Diminuta e muito astuta
O garotinho aproximou-se sorrateiro
Com a esperança de prender a Fada num tinteiro
Na hora do bote, a Fada, porém, o surpreendeu
E de sua orelha um pedaço comeu
Tolo garoto, de nada maroto
Da orelha perdeu, pois do segredo se esqueceu
Fadas não resitem a um espelho
Pois gostam de arrumar o cabelo
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Nasceu em devaneio às 23:21
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| Quinta-feira, Julho 15, 2004 |
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Minha Canção
Sempre sonhei em ser grande
Em ver as estrelas de outro ângulo
De mudá-las, se preciso fosse
De ditar as regras, e quebrá-las
O mundo mostrou-se homogêneo
Cheio de igualdades desiguais
Feitas de papel e promessas
Cegos e surdos seguindo uma trilha de mentiras
Aqueles sonhos grandes pararam
Frente à força da mágoa
E da realidade
Sem a menor piedade
A dor é curada
O ódio esmaece
A paixão diminui
Mas os sonhos continuam
E reavivá-los é necessário
Inevitável, uma condição de vida
Daquela vida que deve ser vivida
Inspirada pelos sonhos
E moldada pelo sonhador
Em todo seu esplendor
Viver no futuro parece tolice
Olhar somente para o passado também
Mas é no balanço que se vive o presente
Em sua plenitude. E felicidade.
Foi olhando para o futuro
Que encontrei no passado
Os meios e a inspiração
Para alimentar meu coração
E cantar minha própria canção
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Nasceu em devaneio às 01:08
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| Segunda-feira, Julho 05, 2004 |
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Outono de Outrora
Folha pequena que cai
Desliza no ar com o vento
Suave em seu movimento
Com o sopro da vida que se vai
Flutua, flutua com ternura
Num outono fora de hora
O homem caminha sem demora
À frente de seu tempo
Em pleno contentamento
Caminha e passeia entre os montes
Berço da história de ninar
Que aflora em seu caminhar
Sem medo, nem rancor
Com muito pesar e amor
Sonha, poeta, em teu sono desperto
Nos rostos alheios procura a resposta
Da pergunta sempre posta
Encontra apenas o olhar evasivo
Daqueles que vêem um mundo morto
Vivam sonhando, que um dia acordaram
Pelos montes de folhas andou o viajante
Com muita emoção em seu semblante
Cruzou com pedestres alheios ao mundo
Seguiu seu caminho de olho em tudo
Anda, anda, bardo menino.
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Nasceu em devaneio às 16:19
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| Domingo, Julho 04, 2004 |
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O Sonho e o Castelo
De toda a confusão na qual encontra-se minha mente posso tirar algumas imagens nebulosas, lugares que tenho certeza não conhecer, e pessoas, muitas pessoas, algumas conhecidas, outras amedrontadoras. O que deveria ter sido uma viagem de trabalho, tornou-se sonho, ganhou acordes de pesadelo e terminou numa incrível seqüência de repetições infinitas na ânsia por escapar do que me perseguia. Mas minha cabeça dói e as lembranças chegam aos poucos envoltas nas brumas do tempo-espaço. Não tenho certeza de que as vivi, mas as sensações de medo e pavor retornam cada vez mais fortes para tirar minhas dúvidas. Porém, ainda não tenho certeza. De nada.
A primeira memória é de uma voz conhecida. Era Larissa. Falávamos de trabalho, de idéias, do que faríamos na viagem. Embora me lembre de seu rosto, de seu jeito delicado e do assunto, tenho a impressão de nunca ter ouvido sua mensagem claramente. Qualquer tentativa de recuperar esta informação me leva imediatamente ao lugar que menos quero estar, mesmo que tenha sido só um sonho.
Uma torre alta. Num castelo sem fim. Com muitas sombras, de lugares e pessoas, e um ar constantemente carregado e nublado pelo esquecimento. Por várias vezes, fui guiado pelos largos corredores – que me remeteram ao tamanho dos afluentes do Grande Rio – até um ponto no qual não poderia mais avançar. Era um portão, de onde era possível apenas enxergar uma pequena casa com uma janela acesa, no alto da colina que ficava acima do castelo. E nada mais.
O caminho de volta era tortuoso, sempre solitário. Embora Luiza estivesse apenas há alguns passos de distância, era como se estivéssemos separados por Eras da história. Nada dizia, pois, no fundo, sabia que ela não me escutaria e meus gritos desesperados por ajuda de nada adiantariam. O pânico e a aflição cresciam constantemente até o ponto que, de súbito, deixava o castelo e me via em frente a um edifício de altura incalculável, no centro de uma cidade decrépita no interior do Brasil – também envolta em uma espessa névoa e povoada por sombras em constante movimento. Era meu local de repouso. É claro, se fosse capaz de encontrar o quarto correto.
Esperei em frente ao prédio por alguns segundos, ou vários séculos, e vi muitos ônibus – aparentemente lotados – pararem e abrirem suas portas. Nunca vi ninguém desembarcar depois de mim. Apenas sentia uma brisa, como se alguém houvesse acabado de passar, mas nunca havia ninguém.
Algo deixou o clima de fora tenso e estranho. Achei melhor entrar e descobrir que os elevadores haviam desaparecido há muito. A placa dizia que todos as usavam para subir. “A escada é curta se você sabe o caminho”, alguém me disse. Quando virei para, finalmente, conversar depois de tanto tempo, nada havia além do balcão.
Nada mais me restava, a não ser seguir pela escada mais próxima. A da direita. Havia uma na esquerda e outra grande no centro. Todas lá, plantadas como alicerces da existência deste mundo enevoado e incerto.
Comecei minha subida e a frase não parava em minha mente, não havia descanso, e os degraus eram infinitos. Num dos primeiros andares encontrei um grupo de bruxas em meio a uma discussão sobre o fogo sagrado, que queimava no centro do grupo. ShadowFire era a líder e seus cabelos cor de fogo balançavam ao sabor da brisa que elas também pareciam sentir. Ela nunca falou comigo, mas sabia que esse era seu nome. Apenas olhar para ela me dava seu nome e sua origem. Ela vinha do Sul. Mas havia vivido entre o meu povo, em algum momento do qual não me lembrava.
Uma vez mais, ninguém me viu. Fiquei ali, aproveitando a companhia passiva por algum tempo, que não sou capaz de determinar precisamente e também não vem ao caso, mas foi movido a deixar o grupo quando algumas das bruxas perderam sua beleza e começarem a desaparecer em meio à névoa. Senti que mesmo ShadowFire começava a seguir suas amigas. Virei-me e segui em frente. Mesmo sem olhar, soube que o fogo sagrado era nada mais que uma simples lembrança num passado remoto.
Mais acima, parecia seguir alguém. Uma mulher. ShadowFire, pensei. Mas era uma ilusão. Descobri que, na verdade, era Luiza quem me seguia. Sem notar minha presença, é claro. Instantes mais tarde, estava sozinho novamente.
Encontrei um velho encapuzado, cuja face temia descobrir e tremia só de imaginar. Mesmo com seu capuz abaixado, ele me encarava e fez um leve movimento com a cabeça para que eu olhasse para trás. Quando o fiz, quase fui ao chão por causa de uma forte lufada de vento. Levou muito tempo para ficar totalmente ereto novamente. Voltei meu olhar para o velho, e ele não estava mais lá. Ele havia me desapontado no passado. Fez algo nas minhas costas. E fiquei triste. Era só o que sabia dele.
Subi muitos e muitos degraus. E mais ninguém apareceu. Por outras duas vezes, vi Luiza pelas costas. Ela caminhava, sempre no mesmo lugar, sozinha e sempre em frente. E, logo depois, desaparecia nas sombras.
Depois de muito andar, para meu desespero, estava, novamente, de fronte à alta torre do castelo sem fim. Ouvia a voz de Larissa, encontrava meu guia obtuso e seguia para os grandes corredores...
Ciclos depois, a névoa tomou conta de mim. O telefone tocou. E as imagens se desfizeram. O telefone tocou novamente. Acordei.
Voltei a dormir e voltei um pouco mais. Talvez à origem, pois, antes de tudo isso, uma nova memória surgiu. Havia uma voz élfica no princípio de tudo. Num belo parque, imaginei a dona de tão doce voz, fiquei anestesiado, apaixonado, maravilhado. Minha felicidade era extrema. O paraíso em vida. E, então, o parque desapareceu. E vi a torre.
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é totalmente maluco, eu sei.
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Nasceu em devaneio às 15:32
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| Sexta-feira, Julho 02, 2004 |
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Um Homem de Família
Hoje foi um dia triste. A única que coisa que posso fazer publicamente é uma pequena homenagem:
"This was the noblest Roman of them all. All the conspirators save only he that they did in envy of great Caesar. He only, in gentle honest though, and common will for all, made one of them. His life was gentle, and the elements so mixed up in him that the nature might stand up and say to all the world, This Was A Man!"
- Marco Antônio, em Julius Ceaser
“I never wanted this for you. I work my whole life - I don't apologize - to take care of my family, and I refused to be a fool, dancing on the string held by all those bigshots. I don't apologize - that's my life - but I thought that, that when it was your time, that you would be the one to hold the string. Senator Corleone; Governor Corleone. Well, it wasn't enough time, Michael. It wasn't enough time”.
- Don Vito Corleone, em O Poderoso Chefão.
Assim parte Brando, Corleone, Marco, e tantos outros.
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Nasceu em devaneio às 17:40
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| Sexta-feira, Junho 25, 2004 |
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Folhas Amarelas
Noutro dia estava eu a vasculhar arquivos antigos, textos esquecidos e alguns cujo momento havia deixado minha memória. Deparei-me com um poema do qual não me lembrava, mas, inevitavelmente, era de minha autoria. Agora, de onde vem essa onda de inspiração que gera obras tão belas e até inexplicáveis?
Posso atribuir a fonte à Awen druídica, a origem da inspiração ancestral, o berço da minha crença e cálice do conhecimento de Eras e Eras. Também posso dar o crédito a alguma ligação especial com a natureza, com as pessoas, com os animais, com o local onde vivemos. Sem dúvida, cada razão que vocês possam atribuir à inspiração – independente de credo ou local – faz-se presente num momento de inspiração. Com isso, chego ao ponto vital deste texto: não escrevo há um tempo.
Ou melhor, não escrevo com a mesma freqüência e, acho, qualidade com que os bem acostumei. Pergunto-me: o que aconteceu? Não tenho dúvida de que as razões acima descritas e tantas outras possíveis não se alteraram. A Awen continua acessível, as ligações não mudaram em tão pouco tempo e etc. Depois de pensar alguns dias nesse assunto, mesmo sem intenção de escrever a vocês, notei que – deixando de lado o chavão – a mudança operou-se em mim. E não gostei nada disso. Por sorte, descobri rapidamente o que havia acontecido e, garanto, todo mundo já passou por isso.
Sabe aquela sensação de estar flutuando para chegar num lugar meio incerto, numa hora meio indefinida? Pois é, comecei a dar tanta importância a alguns pontos materiais (relevar todos eles é bobagem e simplesmente impossível, por mais que gurus da auto-ajuda digam o contrário) e encontrei o desânimo no lugar da empolgação quando podia sentar e escrever sobre um daqueles detalhes delicados que observo durante minhas caminhadas.
Era como se a ligação estivesse obstruída, algo assim. Infelizmente, acho que descrever é um difícil já que até isso é incerto. Hoje, ao chegar a estas conclusões e, por fim, decidir sentar para escrever este texto quase desabafo. Lembrei de tantas peculiaridades que poderiam ter gerado poesias, elogios, declarações de amor puro e paixão intensa por pessoas, lugares, momentos ou mesmo simples idéias. Foi nesse momento que senti uma sutil mudança e pronto: tá na hora de acordar.
Outro dia fiquei perdido, devaneando entre folhas e folhas que deixaram a rua com um tom outonal, mesmo que estejamos no nosso inverno. Acho que foi a primeira vez na minha vida que parei para perceber o dia em que as folhas começavam a cair. Algo totalmente mágico, e que também passou desapercebido nesse meu momento desconectado. Sem dúvida, isso ainda vai gerar uma bela poesia para demonstrar o como folhas mortas foram capazes de despertar algo adormecido – não, fora de foco é melhor. A morte traz a vida, ou melhor, ela suscita a nova vida, o renascimento, a novidade.
Tenho certeza de que aquelas folhas mortas tinham uma razão, um motivo para estarem ali, disfarçadas de montes de lixo e um incômodo aos demais transeuntes que as evitavam como se fossem algo asqueroso e nojento. Não dei a mínima, e caminhei justamente entre o longo percurso criado pelas folhas, meio amareladas, bege estalante, verde apagado.
Num outono fora de hora, numa rua fora do mundo, numa mente fora dali. Tudo aconteceu e o mundo presenciou um pouco mais de mágica. Pelo menos o meu mundo.
Bem, meus olhos cansados e meu labirinto surtado dão os sinais para, mais uma vez, parar e deixá-los para, muito em breve, retornar.
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Nasceu em devaneio às 19:01
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| Quinta-feira, Junho 17, 2004 |
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My Heart...
... lingers and my soul cries
dark is the tide
shadows grows in my mind
fear tears me apart
sorrow is my path
a stone age rises
storming the present
changing the future
leaving the past behind blue sad eyes
it's difficult to breath
among this hatred fumes
clouding my vision
making me search for the answer
the pathway to glory
to solitude
to victory
and to mourn
oh, my heart
fears for his love
and begs for his freedom
from me, from the world
from himself and his passion
over, and over again
'till it lives forever on his own
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Nasceu em devaneio às 11:31
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| Quarta-feira, Junho 16, 2004 |
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Beijo na Chuva
“Qualquer um que tem um amor parecido com este
Sabe o que estou dizendo.
Qualquer um que quer um que um sonho se torne realidade
Sabe como estou me sentindo
Só consigo pensar em você e eu
Fazendo coisas que eu sempre quis fazer
Tudo que consigo imaginar é o Céu e a Terra
Eu sei que é você
Qualquer um que já beijou na chuva
Sabe o completo significado
Qualquer um que já esperou com a luz acesa
Não precisa de explicação
Mas tudo parece mais ou menos sem significado
Triste e feio
Andando sozinho pelo trânsito do final da tarde
Sinto tanto sua falta
Tudo parece mais ou incerto e perdido
E se torna nebuloso
Vivendo num mar de lágrimas
Eu flutuei
Qualquer um que já se sentiu como eu me sinto
Qualquer um que não estava preparado para a queda
Qualquer um que amou como eu amei
Sabe que, na verdade, isso não acontece
Apenas nos leva como a maré
Quando acaba, acaba
O que posso fazer
Se agora, tudo acabou?”
***
Priscila Madrigal Barreto
17/08/2000
Gente, hoje abro espaço, orgulhosamente, para um poema escrito pela minha irmã. Fiquei muito feliz ao descobrir alguns trabalhos obscuros dela. Sempre com muito sentimento e sinceridade, ela assim chorou uma vez e, infelizmente, eu não estava por perto para apoiá-la. Parabéns, Pri. Te amo.
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Nasceu em devaneio às 21:44
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| Quarta-feira, Junho 02, 2004 |
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Jardim*
"Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz com uma pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe, também, que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem (a mulher) da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!"
*obra de Mário Quintana
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Nasceu em devaneio às 16:12
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| Segunda-feira, Maio 31, 2004 |
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Dois
Vento no rosto encanta a paisagem
Lembrança feliz daquelas paragens
Menino garoto sorrindo maroto
Amantes que correm felizes e loucos
A chuva é fraca e toca a alma
Leva a folha pequenina
Molha o rosto da menina
Bem de leve e repentina
Toma teu tempo rapaz
Vive tua vida menina
Leva de boa na rua
Corre feliz pelo campo
Leve brisa te conquista
Dobra a esquina e te ilumina
Fraco brilho pequeninho
Ganha força em desatino
Sonhadores, olham ao longe
Por seu futuro procurando
Vão alegres e sorridentes
Em gargalhadas estridentes
Toma teu tempo rapaz
Vive tua vida menina
Leva de boa na rua
Corre feliz pelo campo
*fiz para virar música, mas sou péssimo de ritmo.
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Nasceu em devaneio às 14:36
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| Domingo, Maio 23, 2004 |
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Tudo Começou... Num Bosque
Sentado à beira de uma grande e antiga árvore, um jovem tentava encontrar a solução para questões que há muito havia levantado e falhara ao respondê-las. Também pudera, soluções não estão à venda na feira anual, não se escondem embaixo de pedras e, definitivamente, não são de propriedade daquelas doces criaturas encantadas do bosque. Não, senhor. As soluções, assim como as resoluções, formam-se a cada momento, a cada segundo, com um simples gesto que, sem dúvida, pode mudar tudo.
A busca por respostas tomava muito tempo do jovem aprendiz, ou seria ele que desperdiçava seu tempo em busca de tal conhecimento? Bem da verdade, as duas coisas andavam de mãos dadas e graças à infalibilidade do destino – e de todas as histórias já contadas até hoje – partiu ele e com ele foram suas perguntas, indagações, dúvidas e medos. Tudo muito bem guardado e agrupado numa sacola escondida e secreta, daquelas que só se abrem para seus donos e cujo conteúdo, mesmo que se tente, dificilmente pode ser explicado a qualquer outra pessoa. Levou também sua coragem, curiosidade, inteligência e força de vontade, marcas importantes e fundamentais para jornada tão perigosa.
Esquecia-se, às vezes, de usar tais qualidades e passava por tolo, por razões que ninguém nunca soube explicar ao certo e que talvez nem estivessem dentro de sua bolsa secreta, mas assim ele era. E foi por muito tempo. Algumas coisas, porém, aconteceram, modificaram, criaram, reavivaram.. e está é a história deste jovem, suas facetas, verdades e mentiras, vitórias e derrotas. Enfim, sua vida como foi, como poderia ter sido e, dependendo do referencial, ainda está por vir. Seu nome? Oh, Beregond, é claro.
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Nasceu em devaneio às 15:06
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Novidade
Foi um dos pequenos pardais do bosque encantado que disse a Beregond sobre um lugar fabuloso que havia há uma certa distância dali. O jovem bardo escutou com interesse e curiosidade as fábulas contadas pelo pardal e, às vezes, por outros de seus amigos animais. Tudo era muito grandioso, novo e belo. É claro, parecia muito mais belo do que a terra natal do nosso intrépido herói. Pois é, caro leitor, por mais que se viva num lugar inigualável, o desconhecido sempre parece ser mais apetitoso, proveitoso e jeitoso.
E conforme ouvia tais histórias, ele criava um certo desejo de então conhecer tal reino mágico. Porém, tal viagem precisaria de tempo e muitas moedas de ouro, itens raros especialmente a um jovem sonhador e guerreiro como Beregond.
Beregond era conhecido por sua dedicação, inteligência e prodigiosidade. Era jovem, mas experiente e isso às vezes o colocava em situações desagradáveis já que alguns não acreditavam em suas narrativas, aventuras, vitórias e nem mesmo nas derrotas. Fosse pela palavra ou pelo pergaminho, seus contos tornavam a menor das trivialidades numa aventura grandiosa. E assim contava sua história, para quem por ela se interessasse. Por fora, o riso ou a reverência não o afetavam, mas algumas gargalhadas eram mais mortais que a ponta fria da espada capaz de despedaçar a alma e roubar-lhe a alegria.
Num de seus momentos mais escuros, Beregond deixou tudo que lhe era caro e, sem saber muito bem a razão, partiu numa jornada meio errante, meio delirante. Parte de seu amor ficou para trás num longo abraço, outra parte permaneceu num lindo sorriso, enquanto seu orgulho ficou escondido, debaixo da cama, fazendo companhia para o monstro que lá morava, mas sem dizer palavra sequer. Orgulho envergonhado, sem força para se levantar.
E assim partiu. Beregond não mais era conhecido como o Alto. Havia se tornado mais um aventureiro na terra das promessas. Vencedor que é, não desistiu e mostrou tanto aos desafortunados quanto aos senhores daquela terra que não era um mero aproveitador, mas digno de respeito e reconhecimento.
Notícias de suas conquistas alcançaram seu querido bosque. O pardal contador de histórias as ouviu, deu um piu e partiu. E, por ali, ninguém nunca mais o viu. E o furor que deveria causar, conseguiu apenas o pesar. Da menor das fadas à mais antiga das árvores, não havia um só ser encantado que não sentisse a falta do amigo sonhador, que a todos brindada com suas histórias e imaginação.
Tudo isso, porém, demorou a acontecer, já que Beregond, o então ninguém, havia esquecido seu orgulho, e só faltou juntar entulho. Sem poder usar suas belas palavras ou doces rimas, suas mãos calejadas e olhos cansados tornaram-se suas marcas por muito tempo. De seu amor lembrava-se todos os dias, como se uma pequena lembrança fosse a única coisa capaz de alimentar sua vontade e motivá-lo a continuar naquela tarefa insana. E desumana.
O caminho, porém, estava traçado e era seu destino trilhá-lo. Lutou, então, de Sol a Sol, num mar de solidão e apenas com a lembrança da paixão. Fez fortuna, diziam, mas a cada fim de dia, não apenas seu corpo e seus olhos – sempre no alto da grande torre no porto –, mas também sua alma se voltava para o Sul. Como que se esperasse pela chegada de um simples aroma ou resquício do ar que houvesse tocado sua terra e seus amigos.
Ele havia prometido que voltaria em breve. Afinal de contas, encontrar aquelas respostas não deveria ser tão difícil, assim como conquistar novos amigos e riquezas. Promessa quebrada, assim como seu coração. Ficara por lá, solitário e, de certo modo, temerário pelas incertezas que o aguardavam.
Diziam que para lá rumou o pardal contador de histórias e que ambos permaneceram juntos anos a fio, numa amizade única e verdadeira. O homem que não mais contava histórias, e o pássaro que não se cansava de entoá-las ao amigo, como que se tivesse algum propósito escondido em cada uma de suas lendas e fábulas.
Desde então, ao olhar para o Sul sobre as cintilantes ondas do mar, ou sob o delicioso brilho da Lua, Beregond imaginava como estavam seus queridos amigos, sua família e tudo aquilo que, sem saber, havia deixado guardado com seu orgulho esquecido. A pequena bolsa, a princípio, foi tomando dimensões e, em alguns anos, tornou-se um grande baú. Lá dentro, uma vida. Descontinuada, de certo modo esquecida, mas marcada por muitas coisas boas que não mais se repetiriam justamente por pertencerem a alguém que não mais se reconhecia ao olhar no espelho e que, ao entrar naquele maravilhoso bosque encantado, talvez não fosse capaz de reconhecer sua beleza, seus amigos e seu amor – que havia partido tantas vezes dentro de envelopes, garrafas lançadas ao mar, desejos transmitidos pelo vento ou com uma simples rima. Tão simples como a vida e triste como a partida.
Muito tempo depois (ou teriam sido apenas alguns dias?), o imenso baú rompeu-se e, da esquecida cabana, partiu em disparada o orgulho. Meio desnorteado pelo imensurável tempo enclausurado foi ele, em busca de seu dono. No fundo do baú, restava apenas uma pequena fagulha de um grande amor, sentimento responsável pela abertura da clausura e cuja vida agora dependia da união de uma alma com seu espírito. E da lembrança de tudo que fora e viria a ser. E assim desembestou o orgulho, pulsante, cheio de vida. E esperança.
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Nasceu em devaneio às 15:05
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Ensinamentos
Muito versátil era Beregond. Conhecido por suas belas palavras e paixão no ato de contar qualquer história, certa vez, a líder de uma vila distante pediu ao jovem que ao seu povo ensinasse em troca de comida e abrigo. Foi com surpresa que a proposta alcançou os ouvidos de nosso herói, já que era inesperada a hora. Momentos difíceis eram aqueles e a tempestade estava cada vez mais próxima para tudo e todos.
Ensinar, porém, nunca havia sido o sonho de Beregond e pouco sabia tão nobre tarefa. Então, não perdeu tempo. Montado em seu fiel Dreamer, um belo corcel avelã, ele partiu em busca do conselho de sábios. Foi acolhido por Semm, um profundo conhecedor do ofício, que o instruiu, tomou-o como discípulo e colocou suas habilidades à prova.
Por ter adquirido tal habilidade, Beregond logo se esqueceu de suas doces palavras e de todas as aventuras que desejava viver. Com tal sentimento partiu também Dreamer, que levou sua amizade e parece ter privado seu jovem companheiro de seus mais grandiosos sonhos e desejos.
A abrigo e a comida oferecida pelo povo do vilarejo eram bons, mas parte do espírito de Beregond parecia ter ficado para trás e, rapidamente, sua natureza indomável foi apagando-se, perdendo a força e se esvaindo, mesmo que ele tentasse usar suas antigas artimanhas para agradar seus discípulos e, sem dúvida, a si mesmo. Tudo parecia em vão e ele assistiu a um vagaroso surgimento de uma nova vida. E era a sua própria vida, que tomava novos rumos.
Rapidamente, ficou conhecido como Beregond, o Sábio. Dividia seu conhecimento com aqueles que o procuravam, tanto em sua vila quanto nos vilarejos próximos e, com isso, passava muito tempo viajando por estradas solitárias e pouco agradáveis. Enquanto viajava, lembrava-se de seus passeios pelo bosque, das noites na grama e dos passeios e mãos dadas com seu amor. De vez em quando ele fazia alguma destas coisas, mas seu espírito não as recebia com tanta vontade e felicidade.
A escolha foi difícil, mas esqueceu-se de vez de sua vida anterior, e mergulhou de corpo e espírito no ofício do ensinamento. Solitário e árduo foi o caminho, mas, como todos os outros, Beregond o trilhou como tinha que ser feito. Viu muitas conquistas e sorriu, mas sem o mesmo brilho que uma simples poesia causaria antigamente. Sentiu muitas derrotas, e chorou por cada uma delas como se uma vida inteira tivesse sido perdida. E simplesmente viveu e lutou por anos e anos, abriu mão de seus sonhos e era durante as noites frias, em sua pequena cabana na floresta, que lembrava de sua juventude e do tempo em que suas palavras emocionavam, tocavam e despertavam. A todos e a ele mesmo.
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Nasceu em devaneio às 15:04
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Do alto da Colina
... Beregond podia ver toda a sua vila. Era uma vista linda e inigualável, graças a suas particularidades, traços, pessoas, cheiros, sentidos, tudo. Foi naquele lugar que ele cresceu e, mesmo com suas constantes visitas ao bosque encantado, era a terra que chamava de sua. Por muito tempo ele vagou pelas florestas, campos e montanhas da região – sempre em busca de suas respostas e soluções – e lá ficou como se aguardasse a hora certa de tomar uma nova estrada.
Ficou maravilhado com lugares e pessoas belíssimas que conheceu, orgulhou-se das escolhas que tomou e ficou feliz por sua coragem nunca ter lhe faltado nos momentos de maior perigo. Ah sim, a coragem, sentimento tão comum aos heróis e tão necessário mesmo ao mais simples dos lavradores. Muitas vezes ela não gosta de ser encontrada, noutras, perde-se nas brumas por conta própria e de lá só retorna quando bem entende. Beregond, porém, tinha de sobra e com ela enfrentou suas provações.
Certa vez, um sábio lhe disse que a cada novo passo, a cada olhar para uma nova direção, cria-se uma nova vida e, mesmo se você decidisse voltar e seguir um caminho anterior, esta vida não mais seria como poderia ter sido da primeira vez. Assim como as pás do antigo moinho da colina velha, os destinos não param de se mover e mesmo a mais simples das escolhas pode levar o mais bravo dos guerreiros a lugares que ele nunca havia imaginado, ou até mesmo a conhecer a si próprio de maneiras até então improváveis.
Lembrando-se disso, Beregond chegou à conclusão de que o período de contemplação havia acabado e, depois de olhar para muitos lados e muitos momentos, era chegada a hora de dar o primeiro passo. Como tantas outras vezes, outras aventuras e batalhas, o primeiro passo tem aquele poder de ser o maior e mais definitivo de todos, além de o mais difícil. Parar uma pedra que começa a rolar é fácil, porém, colocar-se à frente e parar um grande trem em alta velocidade é tarefa praticamente impossível.
Uma vez mais, então, olhou para a vila, voltou-se para o caminho que havia escolhido, levantou-se e partiu.
Beregond seguiu ao encontro de suas palavras há muito esquecidas, de seu dom adormecido e, com isso, reavivou a chama da paixão pela vida. Ele nunca soube ao certo o quanto cada um de seus amigos e sábios conselheiros colaboraram na escolha, mas, sempre carregou consigo a certeza de que aquele grande passo só foi dado por causa de tudo que lhe haviam dito e ensinado, por tudo que ele havia aprendido, e, acima de tudo, por tudo que ele havia vivido, devaneado, delineado, sequer imaginado. Até mesmo o menor dos delírios sonhadores foi causador de tal mudança, ou amadurecimento, como alguns haviam dito.
Os sonhos voltaram a brilhar, a voz renasceu e, como num passe de mágica, a magia ancestral despertou dentro de Beregond. O bosque encantado não mais merecia esse nome, já que brilhava com tal intensidade e era tão belo que encanto era o mínimo que podia exercer sobre aqueles que por lá se aventurassem. O que Beregond não sabia era que ele mesmo brilhava até mais que o velho bosque, e que, ao contrário das árvores e animais lá encontrados, suas andanças eram capazes de espalhar toda aquela luz e conhecimento por lugares inimagináveis, a pessoas imersas na sombra e levar alegria a tantas florestas e bosques esquecidos pela curta memória do homem.
Assim cresceu e amadureceu Beregond, o Bardo, dono de belas palavras, ostentando um coração alegre em seu peito, um arco nas costas, sempre com uma história à mão, com o futuro e a vida como únicas responsabilidades.
* * *
Vividas ou imaginadas, frustradas ou esquecidas, desejadas ou simplesmente frutos do acaso, que vidas lindas foram elas.
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Nasceu em devaneio às 15:03
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| Terça-feira, Abril 13, 2004 |
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Estrela Cadente
Levante, garoto
Olha em frente
Contemple o véu estrelado
Sinta a brisa e avance
Pequenina cai a estrela
Rasgando o firmamento
Carregando tua coragem
Mesmo tão distante e singela
Corre até ela, maroto
Retoma o que é teu
E sorri
Alegre como um bem-te-vi
Não desiste, garoto
Teu jogo é outro
Olha teu pote de ouro
Guarda teu maior tesouro
E solta tua alegria num estouro
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Nasceu em devaneio às 19:08
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Num lugar qualquer
O sapo deu seu mergulho
As gaivotas continuaram seu vôo
Nuvens negras apontavam no Leste
O bebê faminto chorou
Ninguém ouviu o cão ladrar
Na praça vazia, os roedores a vaguear
Dos campos em silêncio partiram todos
Ao som do trovão solitário
O rei morreu
E tudo se perdeu
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Nasceu em devaneio às 19:05
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| Quinta-feira, Abril 01, 2004 |
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34
Uma pequena foto p&b restou
De sua passagem por aqui
Não te conheci
Só aqueles a quem amou
Sempre imagino as gargalhadas
E também as palhaçadas
Que teríamos vivido juntos
Pelas cercanias deste mundo
Perguntei o que fizeste
Descobri um pouco de quem foste
Chorei e saí correndo
Senti orgulho te imaginei sorrindo
Num dia de poucas verdades
Teus amigos souberam de tua partida
No mesmo dia em época diferente
Tua família te lembra com saudades
34 anos se passaram
duas vezes 34 podem passar
E continuaremos a lembrar
*Dedicado a um homem que não conheci, mas a quem devo muito: meu avô.
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Nasceu em devaneio às 17:48
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| Quarta-feira, Março 24, 2004 |
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10.000 Visitas
Um momento para ser celebrado! Em poucos meses de atividade, Poemas e Devaneios atinge a marca das 10.000 visitas. Gostaria de agradecer a todos cuja presença, carinho e comentários foram fundamentais durante este período. O que começou como um espaço para armazenar meus textos hoje, felizmente, é um lugar aberto a todos vocês que, ao menos uma vez por semana, clickam num link ou digitam as coordenadas para fazer uma visita. Só lamento o fato de que a visita de número 10.000 tenha ocorrido por causa de um problema político e não pelo conteúdo sempre postado por aqui.
Mais uma vez obrigado e espero, sinceramente, que o conteúdo aqui publicado possa, de alguma maneira, melhorar o dia de cada um vocês. Mesmo que seja um simples sorriso. Já vale todo o esforço.
Um Grande Abraço e, como diria o Jô, Beijo do Bardo! :-)
Fábio M. Barreto
ps.: dois contos de fadas aqui postados estão, neste momento, concorrendo no Concurso Scarium de Literatura. Façam figas, acendam velas, mandem e-mail pra lá puxando a sardinha, sei lá! :-p Enfim, achei legal compartilhar.
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Nasceu em devaneio às 09:04
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| Segunda-feira, Março 22, 2004 |
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Como eu queria...
Como eu queria poder parar o tempo
E ver as faces imóveis daqueles que amo
Guardar suas feições e sentimentos
Dar alegria aos que passam por tormentos
Pegar emprestado o amor dos apaixonados
E dar um pouco aos abandonados
Como eu queria poder voltar no tempo
E lembrar aqueles tempos felizes
Quando amizades nasciam sem querer
Romances brotavam ao amanhecer
Pessoas sorriam simpáticas no primeiro encontro
Paixões encontravam-se como o mar revolto
Como eu queria poder ver o futuro
E saber se tudo isso vai valer a pena
Gravar os erros
Eternizar os acertos
Lembrar dos rostos e poder dizer:
Fizemos isso juntos
Mesmo num futuro insólito
No qual sonhos ganham vida
E a vida passa como um sonho
Como eu queria, acordar menino
E brincar de roda com as estrelas
Voltar para casa adulto
E imaginar peripécias olhando pelas janelas
Ir dormir apaixonado, ao lado do meu amor
E esquecer que existe a dor
Como eu queria enxergar dentro de cada um
E ser capaz de escolher apenas um sentimento
Fazê-lo ganhar forma, força e explodir
Para que todos pudessem ver e crer
Naquilo que realmente tem poder
Como eu queria apenas lembrar
De como tudo começou, naquele passado distante
Mas tão próximo como alcançar uma pequenina estrela com o dedo
Tão querido, quanto o mais amado sentimento
Apenas lembrar, como foi bom
E ainda é, enquanto alguém viver para lembrar
Contar e propagar a boa nova de um período pleno
Ameno e Sereno
Eterno como deveria ser
Como eu queria não precisar querer
Que o tempo retornasse
Que as pessoas se entendessem
Que a vida valesse a pena
Como eu queria viver num mundo em que não precisasse querer, no qual tudo que precisássemos aconteceria como num passe de mágica e, nas horas mais difíceis, as pessoas fossem apenas capazes de, simplesmente, se lembrar. Daqueles momentos bons, felizes, em que compartilhamos sorrisos, aparamos lágrimas, lutamos e sofremos lado a lado.
*Num momento conturbado como esse, pensar positivamente e lembrar de tudo que aconteceu pode ser um bom caminho. Não vou me meter, mas essa é minha contribuição para quem estiver preparado para ouvir.
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Nasceu em devaneio às 20:38
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| Sábado, Março 20, 2004 |
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Tempo de Guerra
A batalha estava próxima
Mas ela ainda não sabia
Os rumores da guerra tomaram a vila
Calmo ele permanecia
A primavera chegara
E com ela a guerra
Senhores e servos
Pobres e ricos
Não foram rosas brancas
Aos pés daqueles que morreriam
Não eram bolos de viagem
Nas mãos daqueles que não regressariam
Seu espírito clamou
E ela atendeu
Para seu amado, nada de frivolidade
Ela não queria piedade
Para vê-lo retornar
Oferenda melhor não havia
E, no fundo, ele sabia
Que precisaria lutar
No dia da partida havia comoção
Mulheres choravam com emoção
Guerreiros partiam já saudosos
Seus filhos olhavam curiosos
Esperança e temor eram sua bagagem
Debaixo das armaduras antigas
E do couro surrado
Levavam amuletos e forragem
Um deles parecia não temer
Sua partida parecia encantada
Os passos de seu cavalo faziam o chão tremer
Em sua bainha, estava a espada de sua amada
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Nasceu em devaneio às 22:06
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| Sábado, Março 13, 2004 |
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Biscoitos e um Anjinho
Não tenho mais fome
Embora não coma há três dias
Não tenho mais sede
Embora não beba também há três dias
Meu corpo tenta reclamar
Mas minha alma não sente
Meu sentidos fraquejam
Mas meu sorriso mostra-se contente
Não preciso comer
Fui muito bem alimentado
Sem nenhum pedaço de pão
E continuo a viver
Foi um pequeno anjo que a levou
Doce forma de menina, minha fome roubou
Bolachas e biscoitos deixou
E com seu sorriso encantou
Não tenho mais fome
Toneladas de doces em forma de nuvens me alimentam
Litros de chá servidos na minúscula xícara me servem
Meu corpo não tem mais fome
Aquela pequena mão em forma de concha
Servia a alegria em forma de sonho
Recolhia o sorriso em forma de beijo
E partia serelepe para o novo cliente
O anjo sorriu e me conquistou
Sem cerimônia, roubou minha fome
Levou até mesmo meu nome
Doces de mentira me deixou
Para longe partiu
E, em seu caminho, sorriu
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Nasceu em devaneio às 19:31
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| Quinta-feira, Março 11, 2004 |
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Tudo tem um começo
*Para ser lido depois de "Botão, Botão, quem encontrou o Botão?"
Edward gostava muito de passear por aquele pequeno e aconchegante bosque perto de sua cidade e, nos dias em que não tinha aula, até arriscava uns breves cochilos. O arvoredo não era muito grande mesmo e a maioria das pessoas passava desapercebido pela estrada Leste. Não o jovem Edward, ele sempre teve um certo fascínio por aquele lugar desde pequeno, já que seus primos diziam quem não havia nada ali, ou então, o que era pior, que não havia nada de bom ali causando arrepios. De qualquer forma, em sua infância ele acreditava que aquele local não era muito normal e passava horas e horas imaginando o que, na verdade, havia por trás dos grandes carvalhos que formavam uma grandiosa parede natural e parecia dividir o mundo em duas partes.
Muito paciente, porém, Edward alimentou sua imaginação por vários anos até que, finalmente, estava grande o suficiente para ir brincar sozinho e não ter que ficar sempre ao lado de sua mãe, já que seu pai gastava mais tempo trabalhando do que qualquer outra coisa. Era uma manhã comum, com um pouco de névoa, folhas umedecidas pelo orvalho e aquele ar preguiçoso típico dos domingos. Só que não era domingo e a vida, em alguns pontos da cidade, já ia a todo vapor, afinal de contas, quase todo mundo precisa trabalhar. Como eu disse, quase todo mundo.
Edward acordou lá pelas 9 horas, fez um rápido desjejum, roubou uma torrada e saiu em disparada porta a fora. Quase tropeçando no cadarço desamarrado e com uma alça do suspensório ainda caído, ele sabia muito bem onde queria chegar: o bosque. A caminhada quase corrida, que mais parecia uma prova de obstáculos sendo disputada por um garoto que fugia do tinhoso em pessoa, levou cerca de 5 minutos e ele cruzou toda a pequena cidade de Horn. Em tempo, o nome da cidade é esse por causa de uma grande montanha com o bico quebrado que, no outono, faz uma sombra tem acolhedora. Tudo bem que ela cobre a cidade inteira, mas ninguém liga.
Então, finalmente, depois de tanta espera lá estava Edward. Literalmente se borrando de medo de cruzar o limiar entre sua imaginação e a realidade. Dois grandes e antigos carvalhos pareciam os guardas aterrorizantes do local, que emanava um certo brilho graças ao Sol matutino e causava um efeito curioso ao se misturar com o resto do nevoeiro daquela manhã. Mas ele não deu muita atenção ao visual, já que os “guardas” o amedrontavam.
Depois de um passo tímido aqui, uma olhadela acolá, parece que a coragem necessária havia nascido naquele pequeno homem, franzino, mas resoluto ao extremo – pelo menos era como ele fazia força para pensar na hora. Edward fechou os olhos, cerrou os punhos e deu três passos vagarosos em frente. Seus olhos abriram-se minimamente e, pela pequena fresta, ele ainda via os dois carvalhos. Fechou-os novamente. E dessa vez tremeu feito um bambu durante uma tempestade.
Mais três passos e quando ameaçou abrir os olhos novamente, um brilho intenso o atingiu e não havia mais vestígio das figuras apavorantes dos guardiões antigos. O que aconteceu ali? Ele nunca soube, mas a lembrança daquele momento perdurou para sempre. Depois do susto e do maravilhamento com a beleza do lugar, Edward, finalmente, viu o bosque. Belas árvores espalhavam-se por todo o lado e, no centro, uma clareira convidativa com uma coloração levemente verde graças à seu gramado macio e na altura certa, como se um cuidadoso jardineiro houvesse passado por ali há pouco.
O garoto tentou contar as árvores, mas desistiu, eram muitas. Ele sempre teve a impressão de que a muralha de carvalhos escondesse um pequeno labirinto escuro de árvores, raízes expostas e repleto de criaturas estranhas. Ele havia cruzado o espelho, e o outro lado não tinha nada a ver com tudo aquilo que lhe haviam contado ou mesmo que sua imaginação havia ponderado. Ele esperava encontrar aventuras e perigos, mas a resposta foi algo melhor, já que a sensação de calma e paz que a simples visão do bosque lhe causara superou qualquer expectativa.
Aquele foi o primeiro de muitos encontros e, como todo jovem sonhador, Edward caiu de amores pelo bosque encantado. Alguns amigos o viram saindo pela Passagem dos Carvalhos e perguntaram o que havia lá dentro e ele, sabiamente, reforçou o mito das historias ameaçadoras, do lugar horrível e do pavor que ele sentiu. Seus olhos não escondiam sua experiência, mas garotos raramente prestam atenção em detalhes tão sutis.
Os anos passaram e o jovem Edward, aos poucos, tornou-se um homem. E ele tinha um segredo: o que havia dentro do bosque. Ele contou tantas histórias horripilantes sobre sua aventura – e acabou ficando bom no ofício de Bardo – que era capaz de convencer homem feito ou rapazote com a mesma força. Com isso, ninguém nunca foi louco o suficiente para se arriscar pela Passagem dos Carvalhos. Ele soube de alguns bravos que tentaram, mas, no último segundo, fugiram feito raposas espantadas de volta a Horn.
Era um segredo solitário, mas ele não ligava. Ele achava ótimo poder visitar a clareira, que parecia intocada mesmo com o passar dos anos, sentar-se na base de seu querido teixo e simplesmente deixar o tempo passar enquanto pensava em novas histórias, viajava em seus devaneios e ficava imaginando o que, realmente, acontecia naquele lugar mágico. Muitos animais viviam ali e pareciam desfrutar de grande harmonia, mesmo que não ficassem muito perto dele. Edward sempre via esquilos subindo e descendo pelas árvores, ouvia o canto de aves de rapina e outros pássaros nas copas das árvores e, pelo menos em duas ocasiões, jurava ter visto algo que se parecia muito com, bem, com fadas que ele vira em livros infantis. Mas como ele estava praticamente pegando no sono, não deu muito crédito.
Com o passar do tempo Edward descobriu que mais alguém freqüentava o bosque, mas que nunca passava por ali. Numa de suas tardes de reflexão, ele resolveu caminhar pelas árvores quando viu um vulto distante vindo do outro lado da floresta, da fronteira com a cidade vizinha de St. Giles. Curioso, Edward encostou-se numa árvore e aguardou o vulto tomar forma conforme se aproximava. Não mais que 10 metros fora do caminho do visitante, ele não foi notado enquanto o velho Mork continuava seu caminho. Ele era um ermitão meio conhecido por aquelas bandas. Ele sempre vestia um casaco escuro, com grandes botões na frente, e vários buracos, muito mais do que o número de botões, aliás. O velho Mork passou vagaroso, cruzou o último trecho da floresta, atravessou a clareira olhando para o alto e desapareceu atrás de uma grossa faia na extremidade Oeste do bosque.
Depois desse dia, e de mais umas duas aparições do ermitão errante, o bosque encantado permaneceu silencioso, como sempre, e mantinha seu ar de santuário particular, como se esperasse pelas visitas diárias do Bardo que o descobrira.
Já com seus vinte e poucos anos de idade, Edward, como de costume, fez mais uma visita ao bosque encantado e, cansado pelo trabalho do dia anterior e uma pequena discussão em seu, até então, harmonioso lar, resolveu dormir à sombra de sua árvore predileta. Aquele teixo, com sua força ancestral e casca resistente, sempre foi um ótimo apoio em vários momentos. Naquele dia em especial, Edward sentou-se no gramado, apoiou as costas na árvore e olhou para o alto. Assim que seus olhos se acostumaram com o forte brilho do Sol matutino, ele pode ver que a copa era uma das mais altas e que várias flores surgiam de trepadeiras que pareciam escalar o caule em direção infinito. A visão era bela e foi a última coisa que ele viu antes de dormir.
Diferentemente dos outros dias, naquela manhã, Edward sonhou com fadas, canções, sentimentos controversos, magia, sons estranhos e alegres. Uma verdadeira miríade de sensações e significados que pareciam desconexos, mas, de alguma forma, familiares. Ele não sabe, e talvez nunca saiba, quanto tempo dormiu, mas lembra-se muito bem de quando, e como, acordou.
Uma sensação de calor extremo o tomou e algo parecia ter lhe tocado a testa. Algo morno e, por instantes, extremamente gelado se comparado ao resto de seu corpo febril. Mas, logo, tudo estava normal, pelo menos foi o que ele pensou.
Ao tocar sua testa, ele sentiu o que parecia ser a gota de um líquido consistente e desconhecido. Parecia uma liga estranha, com cores constantemente mutáveis, e capaz de transmitir sensações boas, mas, a princípio, apenas uma gota de algo que, provavelmente, caíra do topo da árvore.
Naquela manhã, Edward levantou-se calmamente sem se dar conta que sua vida anterior e muito do que ele imaginava havia ficado adormecido na casca macia do teixo. Aquela pequena gota, como outro bardo havia contado certa vez, mudaria o mundo. E Edward seria o arauto dessa mudança, mas, para isso, ele precisaria mudar primeiro.
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Nasceu em devaneio às 23:53
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| Domingo, Março 07, 2004 |
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Quase
Você quase partiu para o Oeste
Te vi dormindo distante
Tentei te alcançar e lhe falar
E você continuou a descansar
Você quase me deixou
Aquele que sempre te amou
Chorando e caminhando ao relento
Solitário ao sabor do vento
Você quase encerrou seu caminho
E vi meu rumo ruir como um velho pergaminho
Te contei segredos e fiz confissões
E teu coração bateu como mil trovões
Você quase os encontrou
Foi o que meu coração desejou
Cabisbaixo puni meu espírito
E senti, mesmo involuntário, teu sorriso
Você quase... quase acordou
E minha vida se elevou
Apertei a tua mão e disse que te amo
Enquanto você continuava em teu sono
Você quase partiu para o Oeste
Mas passou pelo teste
Quando, finalmente, acordou
Meu temor passou
E as lágrimas caíram
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Nasceu em devaneio às 23:08
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| Segunda-feira, Março 01, 2004 |
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Musicando
Nada se compara a olhar teu rosto
Banhado por lágrimas
De felicidade velada
Ou de tristeza contida
Almejei o topo por muito tempo
A realização de algo grandioso
Simplesmente para ganhar um sorriso teu
Nada mais que um presente meu
Fui feliz e frustrado nas tentativas
Mas encontrei a vitória sem querer
Seguindo as asas de um anjo bom
E então surgiu o som
Meio desafinado, meio esganiçado
Pouco importava quando senti tua mão
Vi a primeira lágrima
E a música tornou-se apenas um detalhe
Os versos não eram meus
O ritmo muito menos
A ti, porém,
Soou como a mais bela das criações
E sonhei contigo
Apenas lembrando
Que tudo que faço
Faço por você e para você
Com amor e inspiração
*agora eu sei como a Cameron Dias se sentiu naquele filme.
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Nasceu em devaneio às 14:06
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| Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004 |
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Agradecendo
Parti reclamando
Entrei murmurando
Percebi pasmando
A todos vi chorando
Sentindo o calor
Ouvindo as palmas
Lendo a mensagem
Beijando meu amor
Adormeci viajando
Chorei escutando
Caí agradecendo
Levantei relembrando
Caminhando parti
Adentrando as brumas
Vivendo em devaneio
Retornando para ti
Em teus braços chorando
Vendo algo inacreditável
Feliz pelo momento
Vivendo, lembrando e agradecendo
Para sempre
Para você que me viu brilhando
A todos sempre acreditando
E àqueles que continuam caminhando e vivendo
*Espero que entendam o recado meio tardio, mas, anyway. Obrigado. Mesmo.
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Nasceu em devaneio às 19:24
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| Quinta-feira, Janeiro 22, 2004 |
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Noite Solitária
Como sempre, Beregond percorreu seu trajeto até a colina encantada para contemplar as estrelas da noite e a calmaria provocada pela brisa sempre presente. Tudo que estava ao seu redor sempre foi responsável por uma bela melodia, que mudava a cada dia, mas, na maioria das vezes, trazia paz e tranqüilidade. Naquela noite, porém, a colina estava solitária. E silenciosa.
A sensação de solidão já o acompanhava desde que saiu galopando de sua casa. Até mesmo Dreamer, seu robusto garanhão, estava quieto e relinchava muito menos do que o normal, mas este detalhe passou despercebido até que o bardo chegou à colina.
A música não havia partido, ele sabia disso, mas havia se calado um pouco. Ele nunca soube ao certo se a melodia era real ou se, de alguma forma, as centenas de histórias que ele contava sobre feitos românticos do passado haviam materializado tais canções. Também podia ser a magia da colina, mas, naquela noite, até mesmo deste poder Beregond duvidou.
Sentado e só, ele olhou, mais uma vez, para o negrume do céu e buscou inspiração para compor uma nova canção, para que de sua autoria surgisse algo capaz de eliminar aquela sensação de vazio e perda. A inspiração não veio em palavras. Nem sons. Nem pensamentos.
Uma única lágrima escorreu e consigo pareceu carregar anos de pesar e sonhos partidos. Escorrendo dum rosto obscuro, a pequena gota descia sem ser afetada pelo vento gelado e por onde passava renovava a vida no rosto do triste bardo. Ele esperou e torceu para que seu sorriso vencesse a batalha, como sempre acontecia, mas, desta vez, a música não retornou e não foi capaz de recobrar seu sorriso. Austero ele continuou sob o véu de estrelas, na colina encantada.
De certa forma, as estrelas eram as mesmas, as árvores continuavam no lugar e a colina, bem, era a mesma colina. Tudo continuava como sempre havia sido, mas algo mudou. E foi Beregond. Ninguém, a não ser o tempo e o destino, sabe quais as estrelas serão escolhidas, quais caminhos serão trilhados, nem como tudo vai acontecer. Tudo simplesmente acontece. Vários caminhos não existem, apenas um, aquele que trilhamos. E Beregond sabia disso, pois tudo estava diante de seus olhos.
Um caminho árduo e glorioso, mas ainda em seus primeiros passos. Sempre os mais difíceis. Suas grandes batalhas haviam chegado ao fim, e agora restava a ele contar o que havia vivido e fazer sua parte para garantir que erros do passado não voltassem a assolar aqueles que ama. O futuro parecia triste: um tempo de nostalgia e orgulho dos atos grandiosos de outrora, justamente por ninguém mais encontrar tarefas dignas de serem lembradas. As batalhas não mais existirão. As histórias vão ser chamadas de mitos. E os mitos serão lembrados como lendas, antes de serem esquecidos por uma sociedade saudosista sem saber ao certo o motivo.
Mas tudo isso era incerto e os passos precisavam ser dados. E ele se sentiu só, mesmo sem estar. Era um sentimento muito estranho e inquietante, já que não deveria existir. Nem mesmo a colina encantada era capaz de desfazer tudo aquilo e ele só esperava pelo retorno da melodia, que mantinha seu espírito determinado e corajoso. Arriscou algumas palavras, mas nenhuma fazia sentido. Imaginou uma melodia, que logo feneceu e desapareceu. Nada parecia ser produtivo naquela noite.
Então, ele se deitou e entregou seus pensamentos ao gosto da Lua e das estrelas. Olhou para a brilhante Elemmírë, sob a qual foi batizado e que sempre o guiava nas horas de necessidade. Pensou no que se passava no infinito espaço, e seus pensamentos sempre retornavam para dentro de si. Para suas palavras antigas, sentimentos sempre presentes, e temores prestes a ganharem forma. Uma amalgama de idéias, sentimentos e emoções, num ininterrupto looping. Enquanto o circo de estrelas girava ao seu redor Beregond mal conseguia distinguir se tudo havia acabado ou se estava apenas no início.
Apenas uma certeza: tudo era muito triste. Sentir-se sozinho é pior do que a idéia de tombar em batalha e encontrar as respostas finais. Suas mãos pareciam inaptas na criação, como se a awen o tivesse abandonado. Ou vice-versa. Ele havia mudado, mas não sabia o quanto. E temia por isso, mesmo sem saber por que.
Fechou os olhos e mergulhou no devaneio de verdes pastos, Sol quente e a sensação confortante de não estar mais só. Uma sensação sem rosto, sem nome e sem limites, algo que sempre esteve presente, de alguma forma, e ele não se preocupou em perguntar se apenas em devaneio ou se na vida real. Entregou-se ao leve cheiro de margaridas, correu em direção ao campo de tulipas e mergulhou apaixonado numa cascata de águas acolhedoras para, lá no fundo, deixar as brumas e, novamente, ouvir a melodia.
E que queda foi aquela....
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Nasceu em devaneio às 17:13
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| Sábado, Janeiro 10, 2004 |
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Acerto de Contas
Por muito tempo uma certa história ficou restrita a algumas pessoas e acabou-se tornando uma espécie de sonho irrealizado. Pois bem, às vezes tempos poder de fazer de sonhos realidade e, da maneira que posso, gostaria de compartilhar com todos o resultado de uma idéia alegre, de quatro mãos inscansáveis que escreveram esta história. É um conto baseado em Harry Potter, mas, acreditem, há muito mais ali do que o pequeno bruxinho jamais sonhou.
Com vocês, Acerto de Contas*, escrito em parceria minha com Silvia H. Penhalbel, uma autora de primeira grandeza e dona de um coração maravilhoso.
Boa leitura e não esqueçam de deixar seus comentários!
*Requer Acrobat Reader. Obrigado à Mary pela hospedagem do arquivo.
** Se você não leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, esta história contém spoilers.
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Nasceu em devaneio às 03:26
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| Quinta-feira, Janeiro 08, 2004 |
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Espada de madeira
Corre, menino, corre
Serelepe em tua brincadeira
Salva a donzela do dragão feioso
Empunha a espada de madeira
Solta um grito raivoso
E, com um sorriso, sempre corre
Teu mundo é uma aventura
Monstros e belas moças por todos os lados
Mesmo que criados por teus sonhos alados
Nunca perde tua paixão e ternura
Na árvore o oponente
Mortal e feroz com sua lança lendária
À luz da criatividade imaginária
Derrotado apenas pelo mais valente
Menino, corre, e passa o dia
A desbravar novos mundos, mundos novos
Vai longe na cultura destes povos
Criados por tua própria melodia
O crepúsculo traz em suas asas novos desafios
E assim termina o repouso do bravo guerreiro
E também sua breve exploração do formigueiro
Brande novamente tua espada e mergulha tua mente em devaneios
Longe vão teus feitos
Cheios de defeitos
Inesquecíveis são tuas vitórias
Enquanto dura a memória
Feliz repousa o guerreiro menino
Aguardando o primeiro monstro matutino
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Nasceu em devaneio às 03:12
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| Segunda-feira, Dezembro 22, 2003 |
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Distant Shores
distant or near
but never with fear
throught shadow and light
like the bright starlight
here I am
just like your Sam
waiting for a while
watching you smile
look up, Liliel
beyond the sea
troughout the mist of the mind
where your heart belongs
the distant shore
home of you true power
inside yourself
far from the farewell
like a candle
consuming the last spark of life
inside a cradle
waiting to become alive
it's you.. always was.. always will be..
hantalë, Liliel
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Nasceu em devaneio às 12:22
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| Quarta-feira, Dezembro 10, 2003 |
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Na Janela
O céu era chumbo e opaco
Visto da pequena janela
Olhos claros e cabelos brancos
Nos rosto castigado
Bondes por ali passavam
Agora carros barulhentos
E seus donos rabugentos
As crianças já não mais passeavam
Assim corria do dia
Calmo e sorrateiro
Como a garoa que caia leve
E embalava a vida
Lá estava ela
Com seus cabelos brancos
Mero detalhe
Quase um entalhe
Perdida e concentrada
Dedicada a apenas olhar
Como que para registrar
Mais um dia de nossa caminhada
Sem sair de sua janela envidraçada
Pensamentos perdidos nas brumas do passado
Sempre presentes como um eterno recado estampado
Um leve olhar, uma alma iluminada
Quase encantada
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Nasceu em devaneio às 00:26
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| Quarta-feira, Dezembro 03, 2003 |
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Brincadeira de menino
Uma vez olhei para as estrelas
E vi nuvens
Grandes seres brancos
Majestosos e antigos
Mas, de algum modo, jovens
As estrelas descansavam
Atrás do leve manto camurça azul
As nuvens dançavam alegres
E simplesmente caminhavam
Doces formas de algodão
alimentando sonhos
criando monstros
dando vida a heróis e vilões
Elas dançavam ao sabor do vento
Leve brisa confortante
Suficientemente suave para nas nuvens abrir caminho
E levar-me a meu ninho
No caminho, porém, uma nova forma
Uma face
Bela e sorridente
Triste e lutadora
Linda e cativante..
Teu rosto, envolto em raios de luz solar
Capazes de me reanimar
E só me resta olhar
Lembrar
Sonhar...
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Nasceu em devaneio às 10:19
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| Sexta-feira, Novembro 14, 2003 |
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Uma história
O livro foi aberto e não haviam palavras
Apenas uma melodia
Leve e triste
Como algo que existia há muitas eras
Teu rosto surgiu em meio a essa canção
Senti carinho
Devolvi amor
Fui tocado pelo pesar
E fiz-lhe um poema
Lembrei-me de teu espírito
Forte e resoluto
Aquele que, em muitas ocasiões, foi absoluto
Apoio e amigo
Te imaginar infeliz
Sem direção
É tão vil e doloroso
Quanto o giz que quebra
Despedaça e se esvai
Tal como a fênix
Tua força se recobra
E, aos poucos, teu eu acorda
Renasce
Flamejante, vivo
E tão belo quanto um colar de ônix
Sabes ser irmã
Sempre foi amiga
Insuperável em conhecimento
Quando queres e podes, és plena
Pelo vale das sombras passaste, querida
Assim como todos aqueles a quem amas passaram
Tua luz alguns deles seguiram
Teu farol eles podem ser
A vida lhe castiga, irmã?
Não veja assim, provações são constantes
E não chegaste até aqui em vão
Ao acaso
Olha acima das árvores
Além das nuvens
Depois das estrelas
E encontre o que procuras
E não te surpreendas
Quando lá chegar
Se ao acaso descobrir
Que voltaste a ti mesma
Muitas são as baladas deste mundo
Diversos foram seus heróis
Eterna é a tua jornada
Do tempo dos Ainur
Até o crepúsculo de nossas vidas
De tua história
De fadas
Amigos
Aventuras
vitórias
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may the grace of the Valar protect you.
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Nasceu em devaneio às 17:30
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Luz do oriente
tu conheces tua luz
sabes do que és capaz
mostra, com amor, ao mundo
o que tua luz produz
muitos sábios não ousam
temem a provação
fraquejam na decisão
choram e lastimam
não você, que enxargeste tua luz
e a deixaste brilhar
agradando ao olhar
do pequeno servo
ao grande senhor
todos, porém, escravos, à merce,
de tua alma e teu sorriso
brilha e não tema...
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4u, Yu!
ps: adorei o wallpaper do Band of Brothers..
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Nasceu em devaneio às 15:23
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Smiling next to you...
Não é do meu feitio, e devo tirar até domingo, mas gostaria de publicar aqui uma música... que me peguei cantando quando pensava em você.. e em mim tmb. Embora não queira, acho que essa música mostra um pouco o que senti e pq fiz essas coisas ultimamente e, temo, ainda precise fazer um pouco mais.. love'ya.
Silent Lucidity
by Queensrÿche
Hush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?
There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize it and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension
I- will be watching over you
I- am gonna help you see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you, in Silent Lucidity
-spoken during solo-
[Visualize your dream]
[Record it in the present tense]
[Put it into a permanent form]
[If you persist in your efforts]
[You can achieve dream control]
[Dream control]
[How's that then, better?]
[Hug me]
If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from the pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...
I- will be watching over you
I- am gonna help to see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you....
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Nasceu em devaneio às 12:03
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| Segunda-feira, Novembro 10, 2003 |
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Simply before..
I know what is to love someone
and I fear it..
however, that will be the way of my life,
it's already underway
and I shall remember this path for my lifetime
If it will be only a good story,
or an everlasting passionate tale,
I don't know,
I just know that I want to live it
To live with it..
To feel the heat of the moment...
and let it grow like the flowers in the meadow
and then, only, then...
think about its consequences...
its rewards
and memories
certain things doesn't happen for nothing...
they have to be a reason..
good or bad
sometimes, one that dwells in between this worlds
and requires no words
only feelings
let us find it, let us rejoice at it, let us live it...
... dream about it and remember it when the time comes
there's no point in living, if we can't feel alive..
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Nasceu em devaneio às 11:40
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Confissões
o que mais posso dizer a alguém capaz de me tomar a razão?
o que mais posso fazer distante desse jeito?
só me resta fechar os olhos e sonhar..
com um sonho que não acabou...
que apenas começou...
e que durará para sempre, como todo sonho bom...
com alegria e paixão...
eterno enquanto tiver que ser
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Nasceu em devaneio às 11:37
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| Quarta-feira, Outubro 22, 2003 |
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Escolhas no Crepúsculo
Minha fé já não é a mesma de outros tempos. Nesses anos todos olhei muito para o abismo, até que ele finalmente olhou de volta. Não foi nada bonito, mas, no fundo, era o que eu queria: saber a verdade. E o que encontrei não era nada belo, nem misterioso. Era tudo muito frio, sem rodeios e tão horrível que não existem palavras capazes de descrever aqueles sentimentos, aquele horror. Hoje em dia nem fico mais com medo, nem mesmo olho assustado para a menor das sombras. Acabei me acostumando, mas não escolhi a cegueira, como alguns de meus colegas. Mantenho os olhos abertos – para luz e sombra.
Esta é minha vida, ou o que restou da vida que aprendi a amar. E hoje sinto falta.
Quando se abre o livro pela primeira vez e todas aquelas palavras saltam como notícias maravilhosas que garantirão nossa salvação é difícil ficar impassível. Mas, desde o princípio, sempre notei que cada boa nova era acompanhada por algo obscuro e, por muitas vezes, sombrio e gelado. Era apenas uma impressão, mas – infelizmente – era tudo verdade. Depois de anos lendo o livro sagrado, as escrituras e seguindo o caminho, finalmente, confrontei as sombras, e os que nela residem. Alguns vivem, outros por lá estão, nem aqui nem lá, nem em lugar nenhum.
Sempre ouvi falar da guerra entre arcanjos e demônios. Ela parecia ser bem plausível, mas, embora muitos não acreditem, é algo que nunca chegará a nós. Isso eu apenas senti, não tenho provas. Assim como aqueles que defendem o contrário também não têm. O que encontrei era muito pior, já que não havia nenhuma força arcana ao nosso lado: apenas a fé. E, devo dizer, nas horas mais difíceis ela fraqueja e é preciso muita perseverança para não cair diante do que se vê. Não é fácil.
Hoje, já nem sei mais se as pessoas que vi, os demônios que enfrentei, os amigos que perdi, mas mentiras que ocultei são verdade. Lembro de tudo em meio a uma névoa, ou à escuridão, realmente é difícil dividir. Vejo as pessoas na rua, caminhando em direção ao trabalho, ou comendo um hot dog, e, em algumas vezes, vejo seres horríveis ou apenas sombras escuras, com a ausência de cor, algo horrível até mesmo de se lembrar. Mas posso ter ficado senil depois de tudo isso. Não me surpreenderia.
Foi difícil aceitar a existência de tudo isso, por mais que o livro houvesse avisado. A fé era grande, mas no mundo moderno e tecnológico parecia não haver mais lugar para demônios, vampiros ou criaturas do gênero. Elas existem, porém. E estão por aí, onde menos esperamos – em plena luz do dia, numa lanchonete, dentro do metrô. Só não somos capazes de vê-las, embora alguns as sintam. Sou um deles. Ao menos fui.
Foi meu amigo Giulianno, um italiano bonachão, quem me mostrou a maioria destas coisas e me ensinou a combatê-las. Ao contrário do que os filmes mostram os vampiros, por exemplo, não são criaturas pirotécnicas e místicas com ares de efeitos especiais. São seres maldosos até aquela coisa podre que chamam de alma. Eles andam por aí, cometendo assassinatos, roubando almas e, nos piores casos, deixando os pobres coitados secos. Quase em pó. Afinal, é muito bonito ver “os sugadores de sangue” no cinema. Na vida real, é a essência que eles levam. Nada bonito de se ver. Para minha sorte, a princípio, eles não podem com a essência dos mais religiosos, ou dos padres, mas, mesmo assim, mataram muitos de nós – únicos capazes de dar cabo dos malditos. Nosso sangue é como água benta para eles. Como nos mataram? Bem, armas de fogo ou adagas dão conta do recado muito bem.
Nem mesmo as bruxas e bruxos resistiram. Embora a Igreja sempre os condenasse, eram eles os grandes defensores do nosso modo de vida. Foi duro ver como a guerra secreta que travaram com as trevas os eliminou quase totalmente da face da Terra. Conheci muitos deles, pessoas poderosas e decididas. E os vi, um a um, tombarem. Sempre tive a sensação de que com cada um deles um pouco do que acreditava e até mesmo um pouco da alegria e vida desse mundo partia.
Naquele tempo, minha fé e convicção eram suficientes para afastar e derrotar qualquer perigo. Mesmo vendo muitos colegas serem executados, mortos ou simplesmente desaparecerem, mantive minha crença e continuei na luta do dia a dia. Até que comecei a identificar o Mal mesmo sobre seus melhores disfarces.
Foram períodos difíceis e temerários. Tirei uma conclusão com isso: na verdade, era um estágio, para o grande combate que viria. Algo muito mais forte e os portadores do estandarte do inimigo seriam aqueles que mais amamos, sob falsas pretensões. Desafiar o Mal é fácil. Enfrentar aqueles que amamos não tem comparação. Mas isso fica para o final.
Esse período de luta, porém, é muito extenso e, talvez, eu conte outro dia. Sabe, o dia em que Giulianno foi assassinado foi muito triste e minha reação me amedronta até hoje. Lembrar do passado como referência é bom. Ter medo dele pode significar a perdição.
Hoje, sentado na minha cadeira e sentindo o leve toque do Sol em minha face, nem parece que já ela já esteve cheia de sangue, lama e suor. Tenho sonhos, sobre pessoas que não salvei, gente que vi morrer, e daqueles que deixei de ajudar.
Minha “preparação” – como resolvi chamar tudo aquilo– parece ter chegado ao fim e o verdadeiro desafio fez-se presente. Ontem de noite, enquanto dormia, senti coisas arrepiantes e, de alguma maneira, sabia que era chegada a hora. Acordei assustado e esperei pelo pior, mas nada aconteceu e o dia, mais uma vez, nasceu em esplendor.
Desde então tenho pensado em tudo aquilo, no que fiz, ou deixei de fazer, no que fui e no que me tornei. E, invariavelmente, parava num ponto: até onde vai minha fé? Teria eu forças para enfrentar a grande tarefa ou sucumbiria debilmente como um velho tolo?
Eis que, de súbito, a verdade que tanto busquei veio à tona, não na forma de iluminação divina, nem na escuridão das trevas. O abismo olhou de volta e quando notei, era eu mesmo quem me olhava. O Sol desapareceu e senti uma forte dor como se todos os meus pecados estivesse querendo rasgar o peito, arrombar minha existência e mostrar o quão corrupta minha existência fiel havia sido.
Entendi, por fim, que era a hora de avaliar o que havia sido e, em minha vã esperança, do que seria após aquele momento de provação. Não consegui me lembrar das escrituras do livro. Não conseguia me lembrar mais das pessoas, tudo que existia era o que eu sentia, pensava e acreditava. Minha fé, sim, ela estava lá. Forte e resistente como uma caixa forte. Talvez esse tenha sido o problema, ela estava tão bem guardada que não consegui abrir a caixa a tempo.
A única saída era confrontar os meus medos. Diretamente, sem nenhuma arma ou escudo. Todas as faces surgiram, as vozes, a cruz, as sombras. Tudo estava junto e, o que pareceu uma eternidade e deve ter ocorrido em instantes, como em toda boa história dramática, passou e, de alguma maneira, minha decisão havia sido tomada. Eu nem sabia ao certo qual era ela e sobre o que tinha que decidir, mas tinha feito.
Continuei naquela espécie de limbo, imaginando o que viria a seguir. Mas nenhuma maravilha aconteceu. Nem mesmo aquele arquiinimigo surgiu pelas costas me apunhalando, ou tentando sugar minha essência. Não era um enviado das sombras, nem mesmo um reles ladrão comum que decidiu invadir esta pobre casa.
Era o meu julgamento. A hora de por à prova tudo que acreditei durante minha vida. Um momento só meu, e havia passado.
Fechei os olhos. Para não mais abrir. Não naquele lugar. Não contra aqueles inimigos.
E ainda sem saber ao certo, qual fora minha decisão. A noite caiu e com ela, a escuridão.
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O nome da história teve participação da minha querida Silvia. Obrigado.
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Nasceu em devaneio às 01:37
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| Quinta-feira, Outubro 16, 2003 |
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Um Futuro
O trabalho é árduo
Mas ele luta com vontade
O descanso vem em pequenas doses
Mas eles aproveitam cada momento
O sofá confortável
Na penumbra da noite
Com a leve brisa noturna
E filme clássico na tv
A noite perfeita
Olhar para as estrelas é inevitável
Os pontos brilhantes, como seus olhos
Sempre presentes, nas horas difíceis
Desde o início, de nossa vida juntos
Uma sensação agradável toma o ambiente
Levemente, uma voz ecoa na memória
Em seguida, um sorriso
Um modelo, alma gêmea
Um rosto
Silvia
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Nasceu em devaneio às 16:57
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| Sexta-feira, Outubro 10, 2003 |
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Passagens *
"Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso."
* Antoine de Saint-Exupéry
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Nasceu em devaneio às 12:30
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Botão, botão, quem encontrou o botão?
No alto de uma árvore, duas fadinhas gêmeas que lá moravam enfrentavam algo novo em suas vidas. As belas folhas verde limão e os pássaros que, diariamente, iam saudá-las não importavam. Seus afazeres diários como fadas dedicadas que sempre foram – fiscalizar o bosque, ajudar os passarinhos feridos, acordar as últimas flores dorminhocas para que se abrissem, e etc. – também ficaram de lado.
Elas estavam brigando.
E, pela primeira vez em milênios, elas não pensavam no bem-estar uma da outra, mas sim, num novo e misterioso objeto que elas encontraram. Não parecia mágico, mas era intrigante.
Para elas era algo grande e bem sólido. Era redondo e, dentro dele, haviam 4 buracos simétricos que, embora elas não soubessem para que servia, naquele momento, eram os pontos em que suas pequenas mãos se encaixavam em meio à disputa pelo curioso objeto. A briga havia começado pela manhã, quando Li, a fadinha dourada retornou de seu passeio matinal. Com dificuldade, ela carregava o achado e queria mostrar para a irmã, a fadinha celeste Ti.
Ao acordar de seu doce sono, Ti deparou-se com a novidade e, sem pensar muito, tomou-o para si. Li não entendeu nada e a luta pelo achado começou. No começo foi um empurra-empurra para ver quem ficava mais perto da coisa, mas aí elas acharam os buracos e o cabo-de-guerra miniatura ganhou forma.
Mal sabiam elas que o maravilhoso objeto capaz de encerrar séculos de paz e harmonia era nada mais que um botão, um simples botão que caiu da fatiota do velho Mork, um ermitão que passeava pelo bosque encantado - sem saber que ele era encantado, diga-se de passagem - no dia anterior.
Ti e Li sempre tiveram tudo em dobro, por puro capricho da natureza. Por serem irmãs gêmeas – diferentes apenas por sua cor – elas moravam numa árvore com dois quartos idênticos, formados por folhas e galhos antigos, flores novas, e com janelinhas delicadamente criadas para fazer com que o brilho do Sol atingisse suas camas nos primeiros minutos da manhã.
Elas sempre encontravam número suficiente de frutas para as duas, no café da manhã; flores belas a serem colhidas, sempre em duplas; tarefas diárias dobradas; enfim, tudo em dose dupla para que elas dividissem tudo alegremente e sem reclamar. Mas o botão, bem, o botão era um só e não foi colocado ali pelo grandioso plano da natureza para garantir a felicidade das fadinhas guardiãs do bosque encantado.
É bom dizer que o botão não era nada malévolo ou parte de algum grande plano das criaturas sombrias. Era apenas um botão, como qualquer outro botão.
As fadinhas viviam no topo da árvore e ele era bem alto, já que o lar das guardiãs era uma espécie de torre de vigia do bosque e, mesmo que alguém lá embaixo olhasse para cima, distante dos olhos curiosos, especialmente dos humanos. Por isso, ninguém viu que havia agitação entre as pequenas fadas. Nem mesmo as criaturas encantadas, que ainda dormiam, já que seus dois despertadores estavam, hum, entretidos com outros assuntos.
E a briga continuava.
Elas não falavam muito, no máximo, ouvia-se uma série intercalada de “É meu”, “Não! É meu!”. E os puxões para lá e para cá pareciam não ter fim. Um pequeno detalhe, porém: a cada solavanco que uma delas levava fazia com que seus pequenos corpos liberassem uma grande quantidade de pó-de-fada (algo importante para a magia da fada, aliás, muito importante). O pó de Li era dourado e bem fininho, enquanto o de Ti era azul celeste e um pouco mais denso. Um verdadeiro espetáculo de cores formava-se dentro da casa das fadinhas. E, como disse, ninguém viu. Nem mesmo elas davam muita atenção a isso.
Ti parecia um pouco mais forte e era Li quem parecia não agüentar sequer o peso do botão, mas, quando a luta parecia aproximar-se de seu final, ambas renovavam suas forças e tudo recomeçava. Bem, é muito fácil para quem é imortal e descobre a existência de algo tão intrigante assim. Afinal de contas, pensou Li, para que serve isso? Deve ser de algum bruxo! Vou aprender alguma magia nova!
Ti, por sua vez, queria o objeto por tê-lo achado bonito e ser a mais velha. Eu tenho direitos e sou mais forte, imaginava ela. Tudo bem que ninguém sabia quem nasceu primeiro e muitos animais e árvores antigos jurassem que elas acordaram ao mesmo tempo, como a mesma fada dividida em duas. Aliás, fadas gêmeas são extremamente raras e, excêntricas. Elas até que resistiram bastante.
Com cada tranco que elas levavam, o pó-de-fada caia e ia tomando conta do chão da casa. Logo, uma leve brisa entrou pelas janelas e começou a levar o pó embora, inclusive os pequenos pontos brilhantes que nem chegavam a cair no chão e logo voavam para longe. Era lindo, mas elas mesmas conseguiram ver. O primeiro a notar foi um pequeno esquilo que, num galho distante, foi atraído pela amalgama de cores e por uma nova cor, nascida da mistura do dourado com o azul celeste.
Qual era? Bem, ela havia acabado de nascer e ainda era nova demais para ter um nome, pelo menos foi o que o esquilo pensou. Ele olhou por um bom tempo e, depois de guardar em sua vasta memória, continuou a empurrar sua bolota em direção a sua pequena toca.
No caminho para casa, ele contou a alguns outros seres das árvores e, logo, pássaros, esquilos, formigas vermelhas de barriga verde, mosquitos-camelões e mais um monte de gente estavam falando a respeito da nova cor e de sua beleza.
Lá dentro, as Ti e Li continuavam sua disputa.
Quando um certo número de seres encantados já estava perto da casa de Ti e Li, a nuvem formada pelo pó-de-fada era tão grande, que era possível ver mesmo à distância. Alguns dos espectadores sabiam que ali se reunia grande poder e muita magia, algo visto com pouca freqüência.
Uma fada que morava ali perto foi convocada pelo Senhor dos Rouxinóis e, assim que possível, seguiu em rumo à aglomeração. Seu nome era Ni, uma prima distante das duas encrenqueiras, mas elas não se viam há muito tempo.
Na copa das árvores, perto da casa de Ti e Li, havia uma grande reunião, mas, lá embaixo, tudo era calmo e pacato. As criaturas não-encantadas e até um homem passeavam pelo bosque, aproveitando a bela manhã de primavera e seu clima agradável. O homem, inclusive, resolveu descansar um pouco, depois da longa noite de caminhada, encostou-se na árvore onde moravam Ti e Li e tirou uma soneca.
Conforme a confusão continuava, quem estava assistindo notou com a nuvem de pó-de-fada agora tomava a forma de uma grande fada que hora parecia Ti, hora parecia Li. Ela parecia dançar no céu azul e entre as folhas brilhantes e verdes. Ela apareceu como um bebê e, pouco a pouco, foi assimilando mais e mais pó e, logo, tinha o tamanho de uma criança humana, mas ainda com seu formato de fada. Suas belas asas, seu cabelo sedoso e suas orelhinhas pontudas.
Era um espetáculo e tanto. Ninguém se atrevia a chegar perto da casa das fadas, da nuvem dançarina e, muito menos, chamar as duas para saber o que estava acontecendo. Eles limitavam-se a olhar e a admirar espetáculo tão lindo.
A fada brilhante continuava dançando e cativando a todos. Muitos juram até hoje que ouviam uma leve música emanar daquele ser maravilhoso. E boa parte desse pessoal não acredita que tudo isso aconteceu por causa de uma briga boba, alguns sequer acreditam na existência do botão do velho Mork, que ainda andou por ali uns bons anos.
Finalmente, Ni chegou e foi direto à porta de entrada da casa das primas. Ela era pequenina como Ti e Li, mas sua cor era esverdeada. Ela confundia-se com a coloração das folhas ao redor da casinha e, às vezes, parecia um pequenino inseto caminhando sobre duas perninhas.
Ela bateu uma vez e, como não ouve resposta, resolveu entrar. A pequena porta não tinha fechadura, já que fadas não se preocupam com gatunos e ninguém com uma mente tão vil alcançaria suas casas. Ni entrou e, logo em seguida, viu as primas atracadas ao objeto misterioso e não entendeu nada.
Ela chamou pelas duas, mas sem sucesso. Elas estavam envoltas em sua própria magia e o show de luzes dentro da pequena casa era muito mais impressionante do que do lado de fora.
Enquanto isso, nas árvores, a fada brilhante parou de dançar e, para espanto de todos os presentes, fez uma cara de preocupação. Ninguém sabia o que havia acontecido e, logo, começaram a culpar a fada Ni pela interrupção do espetáculo.
Dentro de casa, Ni notou que o único meio de impedir que tudo aquilo continuasse seria interromper a briga. Mas como? Aí ela entendeu que aquela coisa redonda era a chave de todo o problema.
Em meio às brumas brilhantes e mágicas, Ni voou em direção às duas irmãs, que oscilavam para cima e para baixo na luta pelo botão. A velocidade da fada esverdeada foi tão grande que ela acertou o botão em cheio. Ti e Li caíram uma para cada lado e viram o botão ser arremessado pela janela mais alta de sua casa.
Os espectadores do show da fada brilhante notaram um pequeno objeto marrom sair da casinha e ir em direção ao espetáculo de luzes. Como todos olhavam para o botão, ninguém percebeu que a fada brilhante se desfez e se transformou numa cachoeira de luz e magia, que começou a descer como se um grande rio lá estivesse. Todo o pó-de-fada seguiu o mesmo caminho e encontrou seu descanso dentro de uma flor copo-de-leite alguns metros abaixo de onde tudo havia acontecido.
Para lá também foi o botão, que caiu no mesmo lugar e fez com que três gotas caíssem do copo-de-leite.
Ti e Li, mais tarde, perceberam que haviam ficado fracas e arrependidas pela briga. Mas nenhuma delas ficou feliz com o fato de Ni ter perdido aquele artefato curioso e motivador de tudo. Acima de tudo, elas queriam saber o que aquilo fazia, mas não seria desta vez. O show havia terminado, o bosque encantado voltara ao seu normal e, acima de tudo, o poder das fadas mostrou sua força, mesmo sem o consentimento de suas donas.
O que restou foi um copo-de-leite cheio de vida e com um botão que lá no fundo deitou enquanto uma das gotas que ele causou mudaria o mundo.
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Nasceu em devaneio às 10:49
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| Quarta-feira, Setembro 24, 2003 |
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Uma Tríade Inesquecível
Três foram os anos que passei com você
Três vezes três é o quando consigo planejar a seu lado
Três vezes trinta e três é pouco perto do meu amor
Três vezes tudo isso representa a minha vida
Te encontrei tímida numa pequena sala de cinema
E conheci o encanto
Te beijei inocente e inconseqüente
Beijo travesso, toque sutil
Foi tudo tão diferente
Foram passos incertos, em direção ao futuro
Decisões difíceis, por causa do passado
E, então, teu sorriso
Tão belo e calmo
Nada mais importava, o futuro estava traçado
Tu me encontrou jovem, com olhos de menina
Te vi crescer, como o melhor dos amigos
Fui príncipe dos farrapos, apaixonado pela dama da alta torre
De amores despenquei montanha abaixo e cada corte só alimentava meu desejo
Foi com pétalas de rosas e folhas duradouras que vi nosso amor se eternizar
Será com muito suor e garra, que o tornaremos visível ao mundo
Para, daqui um tempo, olharmos um para o outro e termos a certeza de que fomos, somos e seremos maravilhosamente felizes
Três formam o equilíbrio perfeito
Então, que sejam três as palavras que tudo representam
Fábio
Luiza
Felicidade
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Obrigado por estes três maravilhosos anos.
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Nasceu em devaneio às 11:15
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| Terça-feira, Setembro 23, 2003 |
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Versos
versos tolos
tolos versos
levam pensamentos para longe
e de longe trazem sentimentos
oh tolos versos
versados na arte da contemplação
compaixão descrita em curtos versos
compaixão
com paixão
versos apaixonados
tão belos quanto a tulipa
simples como o cálice
que recebe a água
e alimenta a alma
como um verso bonito, escrito sob a luz do sol
versos alegres
estrofes tristes
rimas em devaneios
em prosa segue o pensamento
que nasce em verso
ganha os céus
e descança em seus sete véus
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Nasceu em devaneio às 00:48
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| Sexta-feira, Setembro 19, 2003 |
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O tempo passa...
O garoto sonhou
E errou
O homem fez
E chorou
O ancião olhou para trás
E sorriu intensamente, como a vida que viu e viveu
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Nasceu em devaneio às 17:38
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| Segunda-feira, Setembro 15, 2003 |
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O Poder de uma Flecha e o Frio da Noite
Meus amigos.
Um longo texto foi escrito, e apagado.
A tristeza tomou conta, e voltou a descansar.
A dor retornou, e logo deve passar.
Neste texto haviam menções grandiosas.
Decepções antigas que voltam todo ano.
Lamúrios que devem cair no esquecimento.
E assim será.
O arqueiro campeão. O autor em crescimento. O homem em sua longa jornada.
Todos eles vencerão e conquistarão suas demandas. É fato.
Todos eles, companheiros desde sempre, e pela eternidade.
Minhas conquistas são grandes. E vão prevalecer perante as trevas e lágrimas.
A vocês, queridos leitores e leitoras, deixo uma frase. Não é minha, é de J.R.R. Tolkien. E ontem ela sagrou uma noite de batalha, tão dura quanto aquela em que foi usada pela primeira vez.
"Where is the horse and the rider? Where is the horn that was blowing? They have passed like rain on the mountain, like a wind in the meadow; The days have gone down in the West behind the hills into shadow."
- Rei Théoden, antes da Batalha de Helm's Deep.
Believe and you will find your way.
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Nasceu em devaneio às 18:59
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| Terça-feira, Setembro 09, 2003 |
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Amor, chocolate, dragões, Titanic e... Matrix?
Estava eu a pensar sobre o amor. Quando você é pequeno, ama seus pais, seus avós... Esse amor persiste através dos anos e com alguns, permanece até a morte. Alguns acabam ficando para sempre com os pais e dizem não a qualquer pretendente a roubar seu coração. Mais tarde, quem fica para a titia, acaba se arrependendo e refletindo que era melhor ter agarrado a primeira cantada...
Outros crescem (ou não) e saem de casa por causa de uma noite apenas ou ficam somente traçando aquela vizinha boazuda, quando os pais dela não estão.
Tem aquelas meninas ou caras, interessados somente em ficar... Outros, pensam desde pequenos em aproveitar isso até certa idade e, depois, escolhem a cara metade assim sem mais nem menos. Simplesmente, tem-se a certeza!
Às vezes, descobre-se tarde demais que não era essa a pessoa que você gostaria de passar a vida toda. Outras vezes, descobre-se que aquela pessoa do passado não deveria ter sido deixada para trás... Ou também, acertamos ao escolhermos nossos pares e vivemos felizes para sempre!
E tem aqueles que ganham uma boa grana e vão para NY, Roma ou Paris e paixão mesmo é aquela Ferrari e o vento na cara! E ainda quando surge aquele papo em que o "engordante" chocolate substitui o prazer do sexo?
Mas é o seguinte: a vida é feita de escolhas. Tem hora que escolhemos a porta da direita ou da esquerda e mais tarde é que iremos descobrir se seguimos o caminho certo, como o Keanu Reeves em "Matrix Reloaded" naquele diálogo interminável com o tal do Arquiteto. Temos muito blá blá blá durante toda a vida, mas desde o berço temos nossas escolhas escondidas em algum lugar.
Mas sei também que amar é bom! Embora, no fundo, ninguém saiba explicar tal sentimento... E isso está em nossa alma desde os primórdios, não é? Ouvimos histórias de príncipes desafiando dragões para salvar a princesa e acreditamos no amor. Homens e mulheres se atraem (pelo menos quando eu era criança, aprendi assim) porque buscam o equilíbrio para dar continuidade? Pode ser! E a vida segue e nossos filhos e netos fazem o mesmo...
Não aprendemos a sofrer e sim, a amar! Só tiramos fotos de momentos felizes, nunca tristes... Pode haver separações, mas o ser humano sempre buscará o amor, seja ele como for; venha de onde vier... Derrete-se todo com amor... Casais são formados em sessões de "Titanic". Brigam, traem, separam, voltam, morrem... Mas sempre haverá o amor! Sempre foi assim! Sempre será!
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Mais um texto convidado, desta vez, Otávio Almeida. Estes meus assistentes são geniais!
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Nasceu em devaneio às 18:07
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| Segunda-feira, Setembro 08, 2003 |
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Ghosts
Ghosts, oh, ghosts
What are they but our souls cries and fears
Shadows of a unreal past, memories of a sad history
Ghosts, you say, ghosts, I know
They haunt the uncertain, and frighten our courage
They remove our bravery, and cloud our day
Ghosts, in our lives... in day light... but, at night
Darkeness rule the world, and ghosts take shape.. to haunt the living
However, at night, we dream
We travel, in thought and soul, to another world
Only in their dreams can men be truly free.
'Twas always thus and always thus will be.
Hell with the ghosts, let them haunt thy weak
And knee before me
In my dreams
Where I shall be king
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Creio que deve ser creditado a Fábio M. Barreto e John Keating.
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Nasceu em devaneio às 21:11
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| Sexta-feira, Agosto 29, 2003 |
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Mãe de Muitas Cores
Em teu ventre verde, deito e descanso
Pois nas idas e vindas dos tufões,
Teu verde é sinônimo de esperança.
Da terra marrom resgato a nova felicidade
Porque contigo, mãe,
em tua natureza multicolorida
É que desejo o descanso eterno
No azul da tua cabeça
Está o paraíso dos que se foram,
E no azul que vai e vem,
Está o frescor dos que aqui continuam
Mãe-vida, dê-me o prumo
Mãe-céu, dê-me a chuva e o vento,
Mãe-terra, afaste de mim a insatisfação de Penúria
Mãe-natureza, dê-me a vida.
* Poema convidado. Autor Javier Fierro
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Nasceu em devaneio às 17:53
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| Quarta-feira, Agosto 27, 2003 |
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Primeira Publicação
Amigos, é com muito orgulho que anuncio a publicação da coletânea "Ensaio Poético", da Academia Virtual Brasileira de Letras.
Meu conto "Hurricane" foi selecionado para participar. Fiquei muito feliz com isso. Foi inesperado, mas gratificante. Este poema nasceu após assistir, mais uma vez, ao filme estrelado pelo Denzel Washington. Embora não seja nada engajado na luta pelos direitos humanos, foi algo que pude fazer naquele momento. Acredito que algumas das melhores ações são aquelas feitas sem bandeira, espontaneamente, e que ganham asas mais livremente.
Espero que palavras como essa cheguem a quem estiver preparado para ouvir, e mudar a si mesmo. Obrigado a todos que visitam o site, deixam seus comentários e, de algum modo, colaboram para o meu amadurecimento tanto nas palavras quanto nas ações.
Para ler, façam o Download aqui.
Conheça a AVBL.
Vale até uma republicação.
Hurricane
Preso à terra, sinto a terra
Penso na terra, vivo na terra
Vivo a terra
Sou pessoa, cheia de vida
Vejo a vida, em todas as pessoas
Sou humano, respeito a todos
Ser humano
De uma viemos, e a uma retornaremos
Homem, mulher, branco, negro, planta, animal
Todas faces e fases de um mesmo final
De passagem estamos, para algo mais
Cremos na vida, dela nos alimentamos
Diferenças não existem, logo não as consideramos
Da essência somos parte, e buscamos a unidade
Viver devemos
Vivemos e respeitamos
Desrespeitamos e sofremos
Punições dela e dos outros, dos que sofrem e dos que vêem o sofrimento
Ofendemos e morremos
Um pouco a cada dia
Dignidade é vida, e sua ausência mata
Sempre transformamos, a nós mesmos e aos outros
Nunca paramos, mesmo que na ausência
Transformamos, melhoramos, pioramos
O caminho deve ser escolhido, por nós mesmos e para o bem de todos
Somos vida, honramos toda a vida
Por toda a Vida
Vejo paz, no futuro
Repudio o ódio, do passado
Temo pelo medo, do presente
Aguardo, ansioso, pela continuação
Da vida, das vidas
Da Terra, que tudo origina
*O título homenageia o filme que inspirou esse poema.
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Nasceu em devaneio às 18:52
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| Sábado, Agosto 23, 2003 |
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Beijo
O beijo mais mágico é aquele nunca realizado
É aquele com o qual sempre sonhamos
Aquele que sempre será desejado
Com toda a magia e beleza do melhor dos contos de fada
Uma bela lembrança, de algo que existe e inexiste simultaneamente
Em nossa mente, em meio a flores e ao delicioso aroma da primavera
Apenas um beijo
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Nasceu em devaneio às 18:03
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| Sexta-feira, Agosto 22, 2003 |
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Divagando . . .
Muitas sensações ficam no ar,
algumas caminham por nossas vidas e as daqueles que amamos,
enquanto outras ficam confinadas a um pequeno barco perdido no mar
nós mesmos
de nosso recanto perdido
eles partem e retornam diferentes
os mesmos,
mas não deixam de ser nossos sentimentos
belos como nasceram
engrandecidos por suas jornadas
maduros por todos que mudaram
um verdadeiro reflexo
Sail Away
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Nasceu em devaneio às 10:23
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| Quinta-feira, Agosto 14, 2003 |
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Você...
... conseguiu, mas não me viu chorar
por causa de uma emoção repentina,
do sentimento bom e feliz,
que só se sente quando alguém está a nosso lado...
você me encantou..
e do encanto caiu a lágrima
pelo amor, pela fé, pela esperança
que havia desaparecido como pequenos pedaços de um brinquedo quebrado
sonhos são sonhos e é para isso que servem
para voarmos longe, em direção a ilhas místicas que estão mais próximas do que imaginamos
para viver nossos objetivos enquanto seus dias não chegam
por muito tempo sonhei que estava sozinho
e dentro desse sonho vi a vida passar
hoje o sonho é outro, pois amizades eu vivo
e revivo
as lágrimas continuam a cair, mesmo com olhares curiosos ao seu redor
e não é a vergonha que vai fazer com que elas parem
surgiram com ternura e merecem continuar
para que recuperem o meu olhar
e me façam sonhar
com uma ilha bela, vibrante e cheia de fé
com sua governante e sua sabedoria
com você, minha querida, que me fez chorar
com sua esperança, que me faz lutar
Obrigado
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Nasceu em devaneio às 10:11
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| Terça-feira, Agosto 05, 2003 |
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Um Cometa...
Espaço, a fronteira final
Estrelas, seu eterno sinal
Gente, o conteúdo ideal
Garra, a necessidade primordial
Algumas dessas coisas eu vi no último fim de semana
Todas elas eu vivi nos últimos dias, de maneira bem intensa aliás
Uma vez fui batizado como estrela e brilhei muito, de um jeito só meu
E lá no alto fiquei, observando e aprendendo
No sábado, enquanto passeava e brincava entre as estrelas
Vi um cometa brilhante, pulsante e veloz passar por mim
Fiquei perplexo, já que o lugar de onde veio esse cometa costumava ser calmo
Embora cheio de paixão
O cometa acordou, encheu-se de vida e partiu em disparada Universo a fora
Sua passagem foi linda e vibrante
Muitos eram aqueles que pegaram carona em sua calda e o que se ouvia era felicidade e alegria em todos os cantos
É por isso que essas entidades são, merecidamente, chamadas: astros
Por onde passam contagiam e mudam a ordem das coisas, das pessoas, dos lugares
O Espaço, lugar calmo e pacato, muda de cara e vira festa
Abre alas para naves, E.T.s, luzes e música, que vence todas as teorias físicas
Tudo isso por causa de um poderoso, e alegre, cometa que acordou e foi dar uma volta
De meu lugar, já meio apagado, no espaço apenas assisti
De cadeira cativa vi os detalhes, projetei meus braços quando necessário, mas sem estardalhaço
Sorri, suei e contemplei
Todo o sucesso e os rostos sorridentes, embora cansados, do cometa e seus amigos
Hoje o Espaço não é mais fronteira, é playground
A vastidão está um pouco mais alegre
Na memória das estrelas, algo mais foi incluído
No rosto de uma estrela escondida num canto qualquer da galáxia: um sorriso
E a alegria eterna embalada pela lembrança e orgulho daqueles que passaram, lutaram, fizeram e venceram.
Parabéns
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Nasceu em devaneio às 10:32
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| Quinta-feira, Julho 17, 2003 |
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Era uma Vez...
Os contos de fadas fizeram parte de nossa infância, farão da de nossos filhos e de muitas outras gerações. Inspirado em tantas histórias, surgiu uma singela homenagem ao gênero que até hoje me facina. Nada grandioso, sem muita pretensão, somente um texto que faz lembrar de mundos fabulosos e distantes, mas com uma visão diferenciada. Além de ser a primeira tentativa no gênero, este texto também chega em formato diferente: pdf. Se alguém tiver dificuldade para ler, por favor, peça o arquivo em outro formato. O e-mail para contato também mudou, basta clicar aí do lado para ver. Com tudo isso, deixo a apresentação da história por conta de minha grande amiga, irmã, beta-tester de textos, revisora e sócia Mary Liliel:
Um rei...
O que ele tem de especial e diferente?
Bom, vários detalhes e nuances pincelados em palavras pelo 'Bardo', com muito humor e um final inesperado!
Só conferindo para saber... E começa assim, como todas as histórias:
"Era uma vez..."
Clique aqui para ler (pdf, requer Adobe Acrobat Reader).
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Nasceu em devaneio às 23:46
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| Domingo, Julho 13, 2003 |
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O Filho
Há muito tempo o filho havia partido
Seus caminhos o afastaram de sua família
Dos ensinamentos dos pais e da companhia dos irmãos
Da vizinhança dos amigos
E do doce sorriso da avó
Depois de muito viver, o filho retornou
E ao chegar na porta da casa da família encontrou o pai, sorridente, a recebê-lo
- Que bom revê-lo, meu filho
- Não esperava tanta alegria, já que o abandonei há tanto
- Será que o tempo fez com que este velho feliz seja um considerado um tolo ao reconhecer seu próprio filho e alegrar-se por isso?
- Ao contrário. Esperava que fosse necessário me apresentar depois de tanto tempo
- O tempo realmente o mudou, meu filho, mas ainda sei distinguir aquele que preparei dos demais que batem à minha porta
- Bem, cá estou para te pedir desculpas por ter te abandonado daquele jeito e não ter escrito uma vez sequer. Mais uma vez a história do filho pródigo se repete.
- Pródigo? E desde quando uma parábola da qual tu não acreditas serve para exemplificar teu caso? Mesmo que acreditasses, o caso é outro e de pródigo não tens nada, meu filho.
- Como?
- Pouco a pouco fui descobrindo tuas façanhas, idéias, amigos, inimigos, vitórias e derrotas e o fazia quando meu coração pedia, mas a maioria das notícias chegava a mim por meio de amigos e pessoas impressionadas com o meu filho, mesmo sem saberem de nossa relação.
- Histórias do povo tendem a serem exageradas
- Mas não essas, não senhor, pois a cada descrição que ouvia eu identificava ali o modo como meu primogênito se comportava e pensava. Em alguns casos até o desfecho eu já imaginava e lá estava sua assinatura, com grande estilo, devo acrescentar. Realmente, não era muito difícil.
- Não é possível, já que os anos me mudaram e também ao meu modo de agir
- Tua base, porém, foi criada aqui neste lugar, com este ar e esta paisagem. Isso faz parte de ti, meu filho. Por isto voltastes.
- Não sei o que dizer.
- Não diga, entre e seja bem-vindo. Tua família o aguarda e o cheiro de bolo de chocolate está delicioso
- Pai?
- Sim
- Obrigado por ter feito isso por mim.
- Não agradeça. Eu não fiz muito, só te mostrei uma direção. Você mudou várias vezes e melhorou a cada mudança, acertando ou errando. Quem és hoje é fruto de teu próprio suor.
- Mas o senhor foi minha base e meu exemplo. Sem ti meus passos teriam sido em vão, assim como meu retorno.
- O bolo está esfriando, disse o pai com um sorriso no rosto ao abraçar seu filho.
Eles entraram e aquele foi um dia de muitas histórias e alegria.
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Nasceu em devaneio às 22:43
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| Segunda-feira, Junho 30, 2003 |
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Um Fim de Semana Para Ser Lembrado
O que escrever sobre a JediCon?
Tanta coisa foi dita, escrita e lançada aos quatro ventos por todas as pessoas que lá foram. Li textos maravilhosos como o do Renato, emotivos como o da Mary e simplesmente felizes com o da Fabiola. Só posso compartilhar este sentimento com todos vocês. Sabe, todos estes, e muitos outros, são nomes que um dia foram distantes, sem a menor idéia da existência dos outros. Pessoas, que levavam suas vidas e que um dia se interessaram por algo ligado à ficção científica. E tudo correu bem até que, por um motivo ou outro, eles se encontraram. Em convenções, encontros, listas de discussão, festas de aniversário, e em tantos outros lugares lá estavam eles compartilhando sua paixão.
E assim pequenas sementes eram plantadas em vários pontos da cidade, do Estado, do País. Um dia elas germinaram em todos aqueles que, num momento ou outro, fizeram parte desta coisa maravilhosa que é o Conselho Jedi São Paulo. Neste acontecimento que é a JediCon.
Tem dias em que acordo de noite, olho para as estrelas e imagino uma X-Wing cortando os céus. Mais um sonho de criança, mas entre tantos outros sonhos deste garoto, dois deles tornaram-se realidade, aliás, mais do que isso, tornaram-se verdades incontestáveis. Alguns de vocês me conhecem o suficiente para entender, pelo menos um pouquinho, o que eu sinto. Faço parte do passado de tudo isso. Ainda participo, mas passei o bastão que chegou às mãos certas, na hora certa. Por muito tempo fiquei lamentando pelo afastamento e ensaiando um retorno, mas minha decisão foi tomada e neste fim de semana, finalmente, qualquer dúvida que pudesse rondar meu coração despareceu.
Vi meus grandes amigos de antigamente, colegas de hoje em dia e novas amizades que surgem sob o mesmo teto. Vi rostos tão felizes quanto aqueles que tive o prazer de conhecer em 99, em reencontrar em 2000 e 2001. Vi o que um sonho foi capaz de fazer e soube que de certo modo sempre pentelhei pq esperava justamente isso de todos vocês, esse amor, esse empenho, esse sucesso. Coisas de um velho dinossauro que agora volta para a sua caixinha de vidro, a qual há um barbante amarrado num martelo e na borda inferior os dizeres: Quebre somente em caso de JediCon, ou em graves distúrbios da Força! O engraçado é que depois de tudo que aconteceu nesse fim de semana histórico sei que se depender de um certo casal em especial e de seus grandes amigos, minha caixinha ficará intacta por um longo tempo, pois ninguém precisará quebrá-la. Vou, calmamente, abrir a porta, caminhar até o evento, conhecer novas pessoas, segurar a emoção para não chorar no palco e aplacar o brilho das pessoas que fizeram tudo acontecer, dar um forte abraço nos amigos e voltar para o meu canto.
Mas voltarei com aquela sensação de que há pessoas fantásticas no mundo e que elas estiveram juntas, em seus estandes, no palco, nas filas, nas atividades, nos encontros, nos bate-papos de um evento chamado JediCon. Algo que fez, faz e sempre fará parte da minha vida, ora como a lembrança de trabalho árduo e muitas lágrimas de dor, ora como diversão plena e inúmeras lágrimas de alegria. Mas que, de qualquer maneira, está aqui e acredito estar aí dentro de cada um de vocês de uma forma toda especial para ser lembrada em momentos de felicidade e força.
Pessoas do CJSP, amigos da Gangue, honorável Imortal, camarada a serviço de Vossa Majestade, nobres Elfos e Hobbits, companheiros de Quidditch, agentes do FBI, e, acima de tudo, meus amigos. É de coração que agradeço a todos por, mesmo sem saber, fazerem parte de algo que surgiu aqui dentro e já não cabe mais por ser de tanta gente capaz e apaixonada.
Muito obrigado e que a Força esteja sempre Conosco! Hoje e Sempre!
Gen. Wedge Antilles ou, simplesmente, Fábio
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Nasceu em devaneio às 23:37
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| Sexta-feira, Junho 27, 2003 |
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Vida
De uns tempos pra cá passei a ponderar bastante as particularidades da vida
Seu sentido prefiro deixar para o Python, já que a explicação correta não existe
Foi difícil, mas ao mesmo tempo lógico, aceitar que tudo pode acabar num piscar de olhos
Mas nada garante que a jornada não recomece noutro ponto, noutro lugar
Viver tem suas virtudes
Grandiosas, aguerridas, alegres
Aquelas coisas que nos fazem sentir orgulho e paixão num dia ensolarado
Mas o lado negro também vive por aí
Medo, ganância e decisões erradas, muitas delas, afinal de contas, livre arbítrio existe
A eterna simbiose entre luz e sombra, já que Bem e Mal dependem do referencial (rimou)
Mas, afinal, quanta certeza temos sobre a vida?
Pelo menos até agora, ninguém consegue ler mentes como Charles
E a ressurreição do 6º dia parece bem distante, por mais que a ciência avance
Nossas mentes continuam isoladas e em constante atividade igualzinho ao início
E assim seguiremos até o fim
A lógica, porém, é falha se aplicada a algo tão mágico como a vida
Vivemos incontáveis e fantásticas aventuras, pelo menos para nós mesmos
Quem está fora não sabe quase delas
Viajamos inconscientemente, imaginamos futuros possíveis, e impossíveis
Criamos mundos, histórias, poemas, desculpas, mentiras, verdades de mentirinha
A vida segue meio que nessa balada ora romântica, ora cômica, ora dramática
E mesmo a nossa posição flutua entre espectador e estrela, de acordo com a maré
Só temos que decidir se seremos apaixonados, desiludidos, vitoriosos, irritados
Ou esperar que a vida escolha por nós e torcer para entender o recado
E, mais uma vez, escolher. Sabe como é, livre arbítrio
A vida pode ser aproveitada a sós, a dois, ao lado de muitos
Boa parte dela vivemos sozinhos, perdidos em pensamentos e armações ilimitadas
Um pedacinho, porém, dividimos com pessoas especiais. Muito especiais.
Uma dádiva? Bem, mais simples encarar como um tempo bom e a garantia da continuidade
Aproveitar uma chance dessas é o grande ponto
E é aí que, para alguns, a vida realmente começa
E demora muito para terminar. Ainda bem.
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Nasceu em devaneio às 12:45
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| Quinta-feira, Maio 22, 2003 |
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A Descontinuação de Matrix*
NÃO LEIA SE NÃO VIU OU NÃO QUER SABER SOBRE O FILME!!
Imagine:
Um passeio ao pôr-do-sol.
Um jantar romântico.
A vitória do seu time predileto.
O choro de um bebê.
Uma ilusão que gera uma rebelião.
Milhares de máquinas bélicas correndo contra o tempo para acabar com tudo isso.
A idéia pode parecer inverossímil, mas é a base do mais novo sucesso mundial de cinema: Matrix Reloaded, a segunda parte da trilogia dos irmãos Wachowski. O que parecia impossível aconteceu, já que os diretores expandiram e aprofundaram o mundo por eles apresentado ao mundo em 1999. A Matrix deixa de ser um programa de dominação para ganhar status de super estrutura que controla não só a vida dos humanos aprisionados em seus casulos gosmentos mas também as decisões de toda raça, incluindo os membros da resistência em Zion.
O herói vacilante e indeciso do primeiro filme Neo (Keanu Reeves) desapareceu completamente em meio a uma atuação firme e marcante do ator. Neo deixou de ser o salvador apenas para Morpheus (Laurence Fishburne) e passou a ser cultuado por boa parte da população humana de Zion. A cidade, por sua vez, mostra-se gigantesca e reduto de todas as raças e credos da nossa sociedade. A própria natureza dos “rebeldes” muda de enfoque, já que a produção mostra sua estrutura militar e social, afinal de contas, eles participam de uma guerra permanente.
O público é apresentado a uma frota de naves idênticas à Nabucodonosor, todas parte integrante do complexo sistema de defesa de Zion, cada vez mais comprometido pela vigilância das Máquinas. Os líderes humanos também ganham espaço em cenas de sabedoria e inspiração pública, dons necessários àqueles que lidam com o destino de muitas vidas.
Mas é dentro da Matrix que as maiores revoluções e cenas fantásticas acontecem. Ali dentro, Neo está no comando. O que ele fez no primeiro filme parece brincadeira de criança perto de seu desempenho. Super-homem que se cuide. Nenhum dos agentes é capaz de detê-lo e sua compreensão do sistema atinge patamares inimaginados por qualquer humano, conectado ou não. Ele antecipa movimentos, derrota as defesas e torna-se, de vez, o pivô do destino da Humanidade e, pasmem, da própria Matrix.
Oportunismo, ou não, Matrix Reloaded inclui um novo elemento a este universo: a interdependência entre Máquinas e a Humanidade. E é esse o grande ponto do roteiro, que recebeu várias críticas negativas por sua complexidade e compactação. Ao contrário do que muitos jornalistas dizem, o lado filosófico e de conteúdo de Matrix não diminuiu em relação ao primeiro filme, só aumentou e melhorou. O que pode ter faltado é visão global da obra dos irmãos. As cenas de ação são grandiosas e, com raras exceções, perfeitas. A grande diferença entre um filme e outro é a maneira como a “filosofia” foi transmitida. No primeiro filme, Morpheus e o Oráculo contam a história a Neo e passam algumas das respostas. Desta vez, porém, ele tem de decidir por conta própria e entender tudo sem muita ajuda, já que seu “cargo de salvador” o responsabiliza por tudo que pode, ou não, acontecer.
Vários personagens alertam Neo sobre a dependência de ambas as “espécies” e que a extinção de uma delas causaria a inevitável queda da outra. Porém, poucos são os que acreditam em tal conceito e, como qualquer minoria pacifista da História, são frustrados em sua tarefa. Com isso, cabe a Neo interpretar essa situação e tomar a atitude correta.
A vitória de Neo sobre o poderoso Agente Smith (Hugo Weaving) dava pinta de ter iniciado a derrocada da Matrix, mas ele era apenas uma peça no quebra-cabeça e só provocou melhorias no sistema de defesa. Esse combate, porém, não foi definitivamente e Smith retorna com força total e como um verdadeiro coringa, já que ele não mais pertence ao sistema da Matrix, mas vive dentro dele e com novos poderes, que o transformam num grande inimigo – para ambos os lados.
A ação ganhou muito espaço e novos personagens dividem a cena com Neo. Entre eles estão os já conhecidos Morpheus, muito mais sério e obstinado com a realização da profecia; Trinity, sensual e mortal em suas cenas de combate; e novos inimigos como Os Gêmeos, antigos programas da Matrix que foram baseados em filmes de terror. Os dois são fantasmas letais e deveras inteligentes. Sua participação culmina com uma magnífica perseguição de carros numa auto-estrada construída especialmente para o filme.
Outra dupla que merece atenção é o Oráculo e o Arquiteto. Embora a simpática Oráculo ajude os humanos, ela nada mais é do que um dos programas primordiais da Matrix. Rebelde. E capaz de entender o verdadeiro funcionamento das duas espécies. O Arquiteto, por sua vez, é o comando central do sistema, um programa orgulhoso por sua criação e necessariamente frio para bombardear Neo com anos e anos de evolução de história e com revelações surpreendentes. Essa cena foi muito criticada, mas deve ser vista com olhos atentos.
Matrix Reloaded mistura ação, ótimo roteiro e efeitos de ponta numa das melhores continuações cinematográficas de todos os tempos. O filme só tem um defeito: terminar e deixar a todos com água na boca para sua última parte, Matrix Revolutions. Mas tudo bem, no segundo semestre tem mais.
*título descaradamente roubado do post do Alfredo.
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Nasceu em devaneio às 09:10
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| Sábado, Maio 03, 2003 |
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Uma Nova Vida
Ao acordar de manhã cedinho e respirar conscientemente pela primeira vez é comum ter um vislumbre das responsabilidades do dia, de tudo que há de ser feito e dos horários para tudo isso. Além disso, o resto do dia é um mistério que será revelado a cada minuto, surpresas, novidades, problemas, tristezas, mas, de uma maneira ou de outra, são coisas surpreendentes, mesmo a menor delas.
É justamente por isso que nos dias mais importantes de nossas vidas acordamos da mesma maneira que em todos os outros, simplesmente abrimos os olhos e pensamos no que fazer. Esses dias são importantes não por uma grande reunião, um evento marcante ou alguma tarefa fundamental, mas pelo simples fato de eles serem capazes de nos mudarem como pessoas e de modificarem nossos sentimentos.
Foi assim que acordei na quarta-feira passada. Sem a menor pretensão. Fui trabalhar e depois sabia que te encontraria antes de viajar.
Em questão de horas, muita coisa mudou. Uma proposta fantástica e inesperada surgiu. Eu fiquei aqui. Você foi viajar.
E eu chorei. Muito.
Não por causa de algum problema, mas porque comecei a pensar na concretização de todos os nossos planos, da vontade de te ter do meu lado para poder sorrir e compartilhar aquele momento, da impossibilidade de estar contigo em situações como essa.
Das outras vezes que você viajou eu fiquei chateado, sem saber o que fazer, a não ser contar os minutos. Desta vez, porém, foi diferente. Eu estava mudado e nem sabia.
Não tinha noção de que o amor que sinto por você havia crescido dessa maneira, tão rapidamente e tão intensamente. Foi estranho, mas eu fiquei mais feliz ainda ao notar tudo isso.
Você me pediu um presente de aniversário e, naquele dia, não pude te dar. Pelo menos foi o que eu pensei. Mas, na verdade, você ganha esse presente a cada dia, minuto, segundo que estou com você e posso simplesmente te olhar. E sorrir.
Temos uma vida grandiosa pela frente, meu amor, e só precisamos acreditar em nós mesmos para dar certo. Você sabe, embora tenha medo, que podemos fazer tudo com nossas próprias pernas e ir além do que qualquer um já foi. Juntos.
Uma vez alguém me disse: “Você não sabe o que quer da vida, Fábio”. Naquela época, eu considerei isso um insulto. Mas era verdade e eu abandonei muitas pessoas importantes por causa disso. Hoje, felizmente, eu sei o que quero da minha vida e sei com quem quero tudo isso. A única coisa chata é que não posso dizer tudo isso a você agora, pois estamos distantes, mas oportunidades não faltarão.
Foi assim, de repente, que eu mudei. Na verdade, senti a mudança e foi a primeira vez que eu chorei de alegria na minha vida. Sabe, vivo esperando um aniversário surpresa, uma novidade que reverta todos os conceitos, um insight fantástico pq eu pensava que só assim eu teria uma razão. Tolo, tolo. Algo melhor do que tudo isso já havia acontecido, e eu não conseguia ver.
Agora eu não preciso mais ver. Só sentir. E te aguardar.
Poeminha:
Ao sentar na janela durante a noite vejo as estrelas
Solitárias e brilhantes elas não estão, elas simplesmente são
Projeto meus maiores sonhos na esperança de encontrar lá em cima respostas
Eles ricocheteiam em cada uma delas, sobem e descem, vem e vão
Pela Ursa eles passam e nada vêem
Ao lado de Orion há algo, mas é apenas o passado
Em Pegasus um recado
Que finda o vai e vem
Retorno confuso, brilhante e inspirado
Continuo a contemplar o céu claro
E vejo a Lua, com envia um facho de luz
E é ele quem me conduz
O olhar desvia da orquestra de luzes
E o que encontro é a cama vazia
À espera
Atenuada por um simples cheiro, carregado de lembranças e sentimentos
Te vejo
Sorrindo
Dormindo
Sonhando
E o instante se desfaz
Mas no coração tudo perdura
O amor cresce
Anseio por ti
Com toda minha ternura
E volto a olhar pela janela
Tentando formar teu sorriso entre as estrelas
Que nunca morrem
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Nasceu em devaneio às 15:23
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| Terça-feira, Abril 22, 2003 |
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Pedágio Obrigatório
Seguindo as regras e normas que a todos atingiam naqueles dias mecanizados e sem identidade, o empregado entrou em seu carro automático e, como fazia desde a primeira vez que se lembrava ter seguido aquele ritual, olhou para o botão vermelho no centro do veículo. Os dizeres "Aperte Somente em Extrema Urgência e Aguarde Auxílio das Autoridades" tomaram sua mente com uma infinidade de possibilidades, que se apresentavam como um livro que se escrevia e reescrevia ininterruptamente.
O carro tomou seu caminho em direção ao grande prédio.
Ele sabia o caminho, e sua mente narrava cada novo prédio que surgiria no horizonte, cada carro que estaria a seu lado, onde e como deixariam a estrada. Tudo automatizado. Tudo igual. Sempre.
E o pedágio obrigatório aproximava-se. Quem precisasse passar por ele deveria apresentar seu código de barras para autorizar a passagem.
A saída do empregado era a primeira logo depois do pedágio, assim como a da maioria das pessoas que seguiam suas vidas pré-determinadas.
Ao ver a entrada, um raro brilho do Sol tocou o botão vermelho e chamou sua atenção.
Ele viu que apenas um carro, diferente dos demais, seguia em frente. Ele nunca havia notado isso.
Por um motivo que ainda hoje não lhe é claro. Ele pressionou o botão.
Sirenos dispararam e uma mensagem surgiu no monitor a sua frente: Sistema Manual acionado.
Ele assumiu os controles.
Seguiu em direção ao desconhecido e nunca mais passou pelo pedágio obrigatório.
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Nasceu em devaneio às 15:38
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| Quinta-feira, Abril 10, 2003 |
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Manhã Gelada
Acordar e sentir a gélida brisa que percorre a cidade traz lembranças
Memórias esquecidas de dias distantes
Desejos fantásticos de dias vindouros
E o leve toque da riqueza da vida
Sentir-se vivo e com consciência de que tens algo pela frente
O olhar vai longe, atravessa a névoa, não liga para o frio e faz sua viagem
Solitário e altivo, ele vislumbra toda uma vida de aventuras e prêmios
Tudo que poderia ter sido, ou que talvez venha a ser
No mesmo momento em que só posso aguardar o amanhecer
A mente gosta de devaneios
E por isso, em momentos como esse, convoca nosso espírito selvagem
Que sonha, luta, sofre e continua lutando
A tristeza logo retorna
Mostrando a realidade e garantindo que sonhos não são nada mais do que
isso: sonhos
Alguns deles deixam o mundo dos devaneios e entram em nossa vida
E é nosso dever cuidar bem deles
ou perdê-los para sempre
Uma vez mais sinto meu rosto gelar
Agora, porém, o vento só esfria as lágrimas que escorrem
Quentes e apaixonadas
Tristes e sonhadoras
Olho para o horizonte e volto a sonhar
Com a vida que ainda sonho
Imagino planos perfeitos
Traço metas fantásticas
E preciso levantar e ir lutar por tudo isso
Uma luta só minha. Num campo de batalha só meu.
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Nasceu em devaneio às 09:56
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| Quinta-feira, Março 27, 2003 |
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O Império Contra-Ataca: realidade ou ficção?
Um poderoso império teve seu âmago ferido. Uma pequena força de oposição destruiu seu maior símbolo de dominação num ataque inesperado e ousado. O choque foi forte, mas seu comandante mais radical não pensou duas vezes em reunir uma poderosíssima força militar e atacar os “agressores” com mão de ferro e no território inimigo. Para alcançar seu objetivo, os líderes do grande império não pouparam esforços e muito menos pensaram em suas perdas, afinal, tropas servem para isso mesmo atacar e, de vez em quando, morrer. Depois de um bombardeio potente, a invasão por terra começa. O ataque foi impactante, mas e o resultado?
Na tela de cinema, ou no VHS, sabemos que Darth Vader foi bem-sucedido em seu assalto a Hoth. A base Echo caiu e a Aliança Rebelde foi expulsa de seu maior esconderijo. A perseguição continuou em vários outros planetas e a obstinação de Vader era tamanha que ele não poupava nem mesmo os poderosos Imperial Star Destroyers de serem destruídos na caçada à Falcon de Han Solo. Infelizmente, hoje em dia, as telas de TV não mostram as magníficas cenas de O Império-Contra Ataca, criado por George Lucas e maravilhosamente dirigido por Irvin Kersner. O que vemos nos noticiários diários também é guerra, mas não nas estrelas. Ela acontece no deserto e nem mesmo podemos considerar como Tatooine, já os habitantes do Iraque são muito mais numerosos e nenhum deles é figurante de cinema.
É impressionante a semelhança entre o roteiro de George Lucas e os acontecimentos que motivaram o início deste grande conflito que, mesmo que indiretamente, envolve a todos os cidadãos do mundo.
Para alguns pode parecer forçar a barra, mas fica muito fácil fazer alguns paralelos entre Guerra nas Estrelas e a Guerra no Iraque.
- Ataque às Twin Towers / Ataque à Estrela da Morte: inesperado e quem atacou venceu.
- Invasão do Afeganistão / Yavin: os Impérios tomaram a base mais óbvia, e, obviamente, os rebeldes fogem sem grandes perdas.
- Vader / Bush resolve montar uma operação gigantesca para encontrar a base dos rebeldes/terroristas: a frota Imperial e as forças de coalizão são irmãs gêmeas, mas é possível que Bush tenha conseguido mais homens que Veers e Vader.
- O bombardeio dos destróieres à Base Echo: alguma semelhança com Bagdá?
- Vitória: Vader atingiu seu objetivo, mas os Rebeldes deram trabalho e destruíram muitas tropas e veículos da força de ataque. Eventualmente, Bush deve tomar Bagdá, mas as baixas anunciadas pelos jornais não são Snowtroopers que se levantam após o fim da cena.
Quando minha geração era criança, as únicas guerras que víamos eram nos filmes. Soldados da Segunda Guerra disputavam no tapa o espaço com os veteranos do Vietnã e com os ingleses e franceses que lutavam contra árabes e africanos em suas guerras imperialistas. Logo em seguida vinham os alienígenas, membros da Frota Estelar e as tropas do Império de Palpatine. Tudo muito violento, mas com limites e com a certeza de o mocinho ganhar no final. Hoje em dia, porém, ninguém sabe se os EUA estão no papel do mocinho. Não que Saddam seja uma pessoa honrada, mas ninguém tem o direito de dizer quem vive e quem morre nesse mundo. Os norte-americanos gostam disso. Eles mandam seus próprios cidadãos para a cadeira elétrica, que mal há em mandar um iraquiano para o outro mundo?
Para desespero de todos os diretores que se aventuram no gênero da Guerra, George Bush superou a todos, já que enquanto Spielberg levou meses para concretizar o grande O Resgate do Soldado Ryan, o chefe da Casa Branca proporciona entretenimento ao vivo para o mundo. É a guerra moderna, em tempo real em nossas salas de estar e na Internet. O Sr. Bush só cometeu um erro nessa história toda: foi um mal diretor e mostra apenas um lado de tudo. No roteiro de Collin Powell, os iraquianos são monstros famintos, incapazes de lutar e vítimas de um sistema cruel. Na realidade, na guerra que o mundo assiste, eles são soldados que lutam por suas vidas e festejam sobre seus prisioneiros e vitórias. Mas vitórias? Na coletiva de imprensa mundial de anúncio do novo filme, o diretor anunciou que seria tudo muito rápido e indolor para seus Capitães América.
Um dos grandes méritos de Guerra nas Estrelas é mostrar um mundo duro de se viver para muitas raças. De apresentar um Império agressivo e ditatorial que rege na base do medo e da intimidação (curioso, o nome da primeira fase da campanha de Bush era justamente esse ‘Shock and Awe” – medo e intimidação). Este mundo porém, contém os sonhos e ideais de um homem de bem: George Lucas. Em sua criação, Lucas mostra tudo isso, toda a dor, toda a injustiça mas mostra a todos que a igualdade pode ser alcança. Talvez não como Roddenbery visualizou, mas algo próximo. Vader – o grande responsável por tanta morte e destruição – redime-se e a ordem é restabelecida, pois sua bondade inicial vista em Anakin ainda o acompanhava, escondida e diminuta, mas estava lá.
Bush, por outro lado, está mais para Palpatine do que para qualquer outro personagem. Insano. Agressivo. Decidido a atingir um objetivo, mas isso só ele sabe.
Enquanto a TV mostra a guerra ao vivo, e os jornais anunciam baixas em ambos os lados, a melhor coisa é abrir uma trilogia, colocar a fita de O Império Contra-Ataca e, mais uma vez, torcer pelos Rebeldes e aguardar ansiosamente pela “notícia” que Vader dará a Luke. E com isso, pensar que o mundo – durante 50 anos – viu guerra somente no mundo da ficção e do cinema. E desse vez não há Yoda para, num momento de desespero, dizer: There is another... [hope].
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Nasceu em devaneio às 10:37
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| Domingo, Março 02, 2003 |
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Pétalas Urbanas
Hoje terminei uma história que começou sem querer num devaneio dentro do metrô e ganho forma. Começou pequena, simples e terminou grande, uma jornada marcante. Pelo menos para este que vos escreve. Não costumo ficar muito ligado a histórias, mas esta é uma das poucas que conseguiu fazer isso. Ela se fez e eu fui apenas o instrumento, nada mais. Espero que possa despertar sentimentos importantes em vocês, assim como a história despertou em mim.
Para ler, clique aqui.
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Nasceu em devaneio às 19:56
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| Segunda-feira, Fevereiro 10, 2003 |
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A Torre
Enquanto andava por uma distante floresta, um jovem príncipe avistou uma torre. Decidiu, então, ir descobrir quem era o senhor daquelas terras e visitar tão vistosa construção. Conforme ia cavalgando, notava o quão grande era o observatório e que não chegaria lá com muita facilidade. Depois de um dia e uma noite de viagem chegou à base da construção e ali deitou-se para descansar. Na manhã seguinte arrumou o cabelo, conferiu suas roupas, ajeitou sua espada e bateu à porta. Toc Toc Toc. Não ouve resposta. E ele decidiu dar a volta e procurar por outra entrada. Levou meio dia para retornar ao mesmo ponto, tamanha eram as proporções de tão grandiosa torre. Bateu novamente. Bam Bam Bam. Desta vez com mais força. E também clamou por atenção. Há um visitante em teu reinado, ó Senhor da Torre! Considere-me amigo de teu reino! E nada aconteceu. Depois de bater mais e gritar mais ainda, o jovem príncipe arriscou e foi abrir a porta. Ela começou a se mover, mas então emperrou e não se moveu mais. Estava fechada e nem toda sua força foi capaz de abri-la. E assim, o príncipe deixou a torre e partir eu direção à sua terra. A porta continua fechada, mas se ele tivesse encontrado a chave sob o capacho onde esteve sentado o dia todo esta história teria ido muito longe.
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Nasceu em devaneio às 12:09
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Herança
Quando tudo começou nossos braços eram as armas mais poderosas
Lutávamos por nossas crenças, por nossa terra, por nossa família
Vencemos e celebramos
Perdemos e lamentamos
Mas nunca desistíamos enquanto houvesse algo que valesse a pena
Os punhos cerrados foram substituídos por armas pesadas
O sangue jorrava nas batalhas das quais poucos se reerguiam inteiros
Mas nosso desejo era impetuoso, e lutávamos como nossos ancestrais
Com maça e machado, espada e lança
Para manter um mundo com esperança
Nosso mundo era diminuto
Limitado a nossos galpões e praças
Onde a herança e a lembrança de nossa terra era guardada
De onde partíamos para a batalha
E para onde voltamos para descansar
Ou iniciar a longa travessia
Ninguém ousava cruzar nosso caminho
Não quando partíamos em direção à batalha
Com nossos corações repletos de pão e vinho
E nossas mãos firmes na espada e na navalha
O mundo, porém, mudou a nossa volta
E não havia nada que a espada pudesse fazer contra a explosão
Mesmo em meio à revolta
Sabíamos que a vida sofrera uma grande renovação
Através do pior dos meios
A Morte... A morte desonrada que foge às mãos do bravo guerreiro
Das cinzas ressurgiremos
Com as lembranças da terra que há muito deixamos
E as dores de um lugar do qual chamamos lar
O mesmo lugar que tantas vezes nos fez lutar para preservar
Uma língua distante, paisagens grandiosas
Deuses antigos, honra de homem para homem
Essa é nossa herança
Nossa última esperança
De reconstruir uma terra que não mais nos reconheceria
Mesmo que em nossos corações ainda sejamos os filhos de Erin
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Nasceu em devaneio às 12:00
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| Terça-feira, Fevereiro 04, 2003 |
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Comentários
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Nasceu em devaneio às 09:10
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| Domingo, Fevereiro 02, 2003 |
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Viver
Se tu crês em algo
De forma a ele.
Se tu temes algo
Deforma-o.
Se tu amas algo
Transforma-o.
Tua natureza és mutável
E tua mutação vem da vida.
Vida: a gênese do inexplicável.
De onde tudo vem e para onde tudo vai, no dia de nossa partida.
De ti mesmo vem tua maior força.
Encontre-a.
De teus amigos surge teu maior apoio.
Cative-os.
Cultive-os.
Hipnotize-os.
Respeite-os.
Quando estiveres sozinho
Encontrarás companhia.
Quando andares pelo vale
Encontrarás o caminho.
Quando surgir a escuridão
Teu trajeto logo surgirá.
Fruto de ti mesmo,
Daqueles que te admiram.
Fruto de tua vida,
Aquela que viveste.
Aquela que fizeste sofrer,
Amar,
Sorrir,
Chorar.
E ainda assim viver. E continuar vivendo.
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Nasceu em devaneio às 09:50
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| Domingo, Janeiro 26, 2003 |
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Cântico IV*
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
*Este texto é de autoria de Cecília Meirelles
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Nasceu em devaneio às 22:01
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