quinta-feira, outubro 14, 2004

Porquê lutamos

Capítulo 1: Invasão


“Ele era amigo do Peregrino
e seu lugar era com as estrelas...
pela eternidade”

Antigo ditado dos colonos.

Olhar para as infinitas estrelas no espaço sideral foi motivo de mistério para a Humanidade por incontáveis anos. Muitos encontravam explicações improváveis, teorias duvidosas ao passo que outros simplesmente as admiravam e as respeitavam. A conquista do espaço foi árdua e demorada, mas, no final, o homem chegou às estrelas. As perguntas e mistérios imaginados pela ignorância humana, porém, continuaram.
O espaço foi um grande marco em todas as esferas da sociedade humana e, por muito tempo, a exploração e a colonização foram símbolos de paz e união entre as raças e nações da Terra. Como sempre, o Homem foi inapto para gerenciar suas fraquezas e desejos mais inerentes e o que era bom, inevitavelmente, tornou-se um pesadelo pontuado pela morte e destruição causada pela maior guerra que a civilização criou.
No início, colônias lutaram entre si por território e recursos minerais tão escassos nos planetas colonizados. E todos acreditaram que o fim do conflito determinaria o retorno da paz à raça humana. Sonhos, como sempre, duram pouco e logo tudo passou a ser um pesadelo. Infelizmente, as mortes eram reais e os motivos, cada vez mais, pareciam saídos de uma antiga história de ninar da Terra pré-espacial... inexplicáveis e improváveis.

* * *
O espaço é silencioso e calmo. Sempre foi assim, pelo menos até a chegada da raça humana e suas naves de batalha. Mesmo em sua imensidão, uma grande dissonância poderia ser sentida enquanto centenas de naves de combate – e um grande número de cargueiros e transportes – alinhavam-se em aguardavam o início da batalha. Nenhum dos homens e mulheres que tripulavam as espaçonaves dava atenção para a beleza brilhante e canelada de seu planeta, que continuava lá pairando imponente no firmamento estelar, como um grande holofote que a todos iluminava com seu brilho incomum e apaixonante. Era por ele que todos lutavam, mas, na hora de seu maior sacrifício, os pilotos pensavam em suas próprias vidas. Mas continuavam esperando.
Em instantes, os radares da linha de defesa começaram a piscar e dispararam os alarmes. A força inimiga havia chegado. Uma imponente frota de guerra fez-se presente e os defensores nada podiam além de aguardar. Rendição não era uma opção, eles haviam começado com tudo aquilo e todos estavam dispostos a ir até a última conseqüência por suas convicções e crenças.
Até mesmo o mais inexperiente dos pilotos sabia que os números eram desproporcionais e que a frota de ataque do governo venceria aquela batalha e que sua resistência seria em vão. Nenhum deles se moveu.

* * *

Em questão de minutos, o almirante Pomel deu a ordem e tanto os esquadrões de caça quanto as fragatas tomaram posição. Da ponte de comando da nau capitânea do grupo de combate Concórdia – batizada como Solaris –, ele admirava o espaço. Mais uma gloriosa vitória para a Confederação e uma inevitável derrota para a civilização, pensou Vincent Pomel, conhecido por nunca perder uma batalha e único almirante confederado a recusar a ordem de aniquilar um planeta indefeso. Sempre sonhei em navegar pelo espaço e agora vivo um pesadelo ao manchá-lo de sangue. Desperdício inútil.
– Almirante, senhor.
Ele ouviu o chamado, mas continuou imóvel em frente ao painel de estrelas de seu posto observatório.
– Almirante Pomel, senhor!, repetiu o jovem imediato.
– Pois não, senhor Raiji, disse deixando seus devaneios e voltando à ponte de comando.
– Todos os esquadrões e naves de apoio estão a postos. Ordem para atacar?
Pomel permaneceu em silêncio. Cerrou os olhos e falou a seus comandados.
– Abram canais de comunicação, quero falar com o comando de defesa.
– Senhor, eles não respondem a nenhuma de nossas saudações, disse o imediato.
– Abra os canais, imediato, e faça com que todos os integrantes da linha escutem, assim como nossos combatentes. O tom sério e ríspido de Pomel não deixou dúvidas.
Depois de todas as tentativas que eles haviam feito nas últimas campanhas – sem nenhuma resposta – a tripulação esperava que o almirante tivesse desistido de vencer sem lutar. Estavam errados e o imediato arrependeu-se de contrariar a ordem de seu superior.
– Aqui fala o almirante Pomel, do grupo de batalha Concórdia. Exijo a rendição imediata de suas forças. Não somos crianças aqui e é tolice desperdiçar suas vidas. Nossa força é grande demais para vocês. Admiro sua valentia e quero honrá-los ainda mais com a opção de permitir que vivam. Por favor, respondam.
Todos permaneceram em silêncio.
E o inesperado aconteceu.
– Pelo amor de Deus, não sejam tolos! Entreguem-se e acabem com isso logo, seus malucos! A maneira como Pomel gritou e rogou aos defensores que depusessem suas armas provocou espanto em cada um de seus comandados.
Na linha de defesa, apenas a ordem de “permaneçam em seus postos” foi dado pelo comando improvisado situado no planeta. Mesmo assim, duas naves de transporte começaram a recuar. Instantes mais tarde o almirante Pomel pode ver duas pequenas explosões de sua ponte de comando.
– Sensores, o que foi aquilo?
– Eles destruíram duas de suas naves, senhor. Elas estavam recuando.
Foi o suficiente.
– Todos os postos. Ataquem.
E assim a batalha começou.
E esta será a pior de todas elas, pensou Pomel cerrando os olhos.

* * *

Ser piloto de caça estelar nunca foi algo seguro. A maioria deles morria em seu primeiro combate e os mais sortudos participavam de três ou quatro batalhas. Alguns deles, porém, pareciam ser imbatíveis. O tenente Rob Crane era uma exceção. Ele já era uma lenda antes mesmo de a guerra começar. Mesmo sem falar sobre o assunto com ninguém, todos sabiam que ele nunca havia sido vencido, nem mesmo em simuladores.
Ele era o líder do melhor esquadrão do grupo Concórdia e era informado pessoalmente pelo almirante Pomel. Nenhum comandante tinha coragem de encará-lo. Respeitado e temido por seus companheiros, Rob era uma espécie de deus a ser seguido no campo de batalha. Rob pilotava um caça preto e dourado, sempre a nave mais avançada na formação de combate. Alguns pilotos costumam dizer que com Rob é assim: um tiro, um inimigo a menos.
Para seus inimigos ele tinha um nome: Arcanjo.
Atrás de todos os esquadrões, um grupo especial de naves de resgate estava a postos. Normalmente, estas naves eram utilizadas para salvar a vida de pilotos que, com muita sorte, conseguiam ejetar antes de terem suas naves destruídas. Porém, a fúria da batalhas era tamanha que poucos tinham esta oportunidade e sobreviver era praticamente um milagre. O grupo Concórdia, porém, tinha um grande número destas naves justamente pela presença do tenente Crane. Ele era tão preciso – e tinha uma motivação misteriosa – que era capaz de sempre desabilitar os motores de seus oponentes sem, na maioria das vezes, matar os adversários.
Boa parte dos pilotos acreditava que isso era coisa de sua proximidade com o almirante, mas ninguém sabia ao certo o que o levava a lutar com tanta habilidade e, mesmo em situações extremas, não eliminar seus adversários.
Antes desta batalha ninguém havia visto Rob. Ele havia ido ao alojamento do almirante logo pela manhã, enquanto a frota ainda estava viajando na velocidade da luz, mas ninguém, além deles dois, sabia o que havia acontecido. Rob desapareceu desde então.
O caça estelar de Rob Crane havia sido o último a chegar à formação. Os controladores de vôo estranharam, já que ele era sempre o primeiro a partir para o espaço e o último a retornar. Rapidamente informaram ao almirante, que nada disse e continuou a observar o espaço pela janela de seu posto observatório.
Joe Pilgrim, outro veterano do grupo de Rob e um dos poucos que conversava com ele, tentou contatá-lo pelo rádio, mas não obteve resposta. Se ele falhou, mas ninguém tentou. E com isso, os pilotos ficaram um pouco preocupados e com sensações estranhas.
– Será que eles tem alguma arma secreta que deixou até Rob com medo?, perguntou Ryan O’Neil, capitão da fragata Lightining, a sua tripulação.
– Não sei, capitão. Acredito que o almirante teria nos informado durante as instruções antes de chegarmos. Realmente não sei.
– Todos os postos em prontidão, não quero nenhuma surpresa! Anunciou O’Neil a sua tripulação e também ao esquadrão responsável por sua escolta.
Esta conversa repetiu-se entre vários pilotos e naves de apoio que formavam a força de ataque do Concórdia.
Enquanto os pilotos recebiam instruções e discutiam o que havia acontecido a Rob Crane, as freqüências foram interrompidas para a solicitação de rendição feita pelo almirante Pomel. Todos permaneceram em silêncio, como de costume e, logo em seguida, aceleraram suas naves ao ouvirem a ordem de atacar.
Rob não esperou a ordem. Ele viu as duas naves sendo abatidas por debandarem e acelerou seu caça para força máxima, reforçou seus escudos e não esperou seu esquadrão. Ao notarem sua reação, os demais integrantes do esquadrão Foxtrot seguiram em velocidade máxima, assim como as cinco naves de resgate que tinham orientação de recolher os alvos de Rob assim que ele os desabilitasse.
O que ninguém sabia era que, no interior do caça de Rob, não havia o resto da esquadrilha, não havia a frota, não havia uma guerra. Enquanto acelerava, ele segurou, mais uma vez, uma foto que havia tirado há alguns meses com seu irmão – Clay Crane, membro das forças especiais terrestres e um dos melhores soldados da confederação. Os dois apareciam sorridentes e abraçados sob um Sol agradável, na antiga casa da família, na Terra. Havia sido a última folga dos dois e, desde então, só se falavam por cartas ou mensagens pela rede militar.
Rob olhou para a imagem de seu irmão, não se esforçou para conter uma lágrima, baixou seu visor e partiu. Sem piedade. Eles vão morrer.

* * *

Assim que deu a ordem de ataque, o almirante Pomel deixou a ponte de comando. Sua presença era desnecessária, em pouco tempo a batalha estaria terminada, os defensores seriam valorosos como sempre, mas acabariam derrotados. Ele percorreu os corredores vazios e iluminados pelas luzes de alerta vermelho de sua nau capitânea até os alojamentos dos oficiais.
Parou por instantes frente à porta identificada como: Ten. Crane, Rob. Esquadrão Foxtrot. Reg. 1138. O+.
– Código de acesso: Peregrino. Abrir compartimento. Prioridade de emergência, ordenou Pomel ao sistema de segurança.
– Afirmativo. Identificação válida. Acesso permitido, almirante, disse a voz metálica do computador.
Depois de respirar profundamente, Pomel entrou no quarto de Rob. Como imaginou, viu sob sua mesa um envelope oficial rasgado e, ao lado, uma carta com o emblema da Confederação da Terra. O conteúdo ele conhecia, assim como o texto padrão que todos os familiares de soldados recebiam quando seus entes queridos morriam no cumprimento do dever. Bobagem, eles merecem muito mais do que cartas. É muito triste pensar que hoje o melhor e mais nobre vai se tornar o mais letal e temido. Infelizmente.
Na carta lia-se, entre outras coisas: Sentimos muito pela morte do coronel Clay Crane, que morreu heroicamente ao salvar a vida de duas garotinhas durante um ataque surpresa à base confederada de Marte. O restante não interessava, aliás, a própria carta nem precisaria ter sido aberta.
– O Arcanjo está morto. E tenho medo pelo que nascerá nesta batalha.
Pomel falou ao vento, olhou pela pequena janela no compartimento de Rob e lamentou não ter convencido seu amigo a não lutar, ou, ao menos, aliviar sua dor. Nada foi possível. Há coisas que, simplesmente, não podem ser impedidas e o ódio de Rob tornou-se grande demais até mesmo para ele.
– Que Deus tenha piedade daqueles pobres coitados.

Rob acelerou arrojadamente direto para a linha de defesa e não respondia a nenhum chamado de seu esquadrão. Praticamente todos os pilotos tentavam falar com ele para pedir ordens, já que ele era o líder do grupo. Nenhum deles continuou a chamar quando Rob enfrentou o primeiro inimigo.
Um tiro certeiro. Uma explosão instantânea. Sem sobreviventes.
E esse foi o destino de toda e qualquer nave de combate, ou não, que entrasse no campo de ação do caça negro e dourado de Rob. Ele dançava freneticamente entre os inimigos, disparando raios laser e mísseis em tudo que se movia e não era do Concórdia. O comandante do grupo de naves de resgate não sabia o que fazer e enquanto tentava, inutilmente, seguir o ritmo veloz de Rob, recebeu uma mensagem pelo rádio.
– Comandante, aqui fala controle Concórdia. Aborte sua missão. Adote postura padrão e priorize nossos pilotos. Câmbio.
A ordem era clara. Aquele não era o Arcanjo, mas uma força tão poderosa quanto a ira de um anjo cairia sobre os revoltosos. Eles haviam se levantado por independência e várias outras razões menores e fúteis, mas não ganharam nada mais que desaparecer em meio a explosões e destroços no espaço frio. Solitário. Esquecido.

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Esta história continua, mas não aqui. Ela renderá algumas páginas, muito em breve. :)

segunda-feira, setembro 13, 2004

No passado...

olho para o passado e o que vejo são sombras
em movimento, paradas, esperando, esquecendo
busco vida e esperança, mas encontro penumbra
a alegria deixou aquele lugar, escondido sob a luz do luar
nas trevas atormentando os sonhadores
e tirando a esperança dos exploradores
de um lugar cujo próprio tempo esqueceu
e que num simples piscar de olhos desapareceu.

segunda-feira, setembro 06, 2004

Eram só crianças...

Os punhos cerram-se e os lábios ficam apertados
Vários músculos do corpo se movimentam, retesam-se
A mente tenta conter o físico a não explodir
Mas algumas lágrimas teimam em se formar

Essa pode ser uma descrição simplória, limitada
Mas foi o mínimo que a emoção causou.
Emoção de ver todas aquelas crianças mortas, fotografadas
Expostas para o mundo em mais um ato de terror

Não é o momento de julgar, analisar ou expor os motivos
É um momento de tristeza e revolta por si só
Vidas tão jovens, desperdiçadas, estraçalhadas
Como nas guerras, nos ataques de fúria, nos ataques covardes

Seus olhos entreabertos, rostos assustados
Feições apavoradas, com medo da morte
Que chegou com tiros nas costas, e explosões suicidas

As reações físicas voltam a se manifestar
Enquanto escrevo, e luto para não chorar
Seria uma coisa difícil até mesmo para se imaginar
Mas uma realidade que temos de enfrentar
E superar.

Mas como superar tamanho ódio e desrespeito pela vida?
Como ir dormir com a imagem daquelas crianças deitadas no chão?
Até mesmo a poesia perde sua beleza frente a tal atrocidade
Trocaria mil rimas, centenas de versos, milhões de poemas
Por uma daquelas vidas, uma única e simples vida

Infelizmente, isso não é um programa de TV
Não temos a máquina do tempo, a mocinha que volta um dia
Nem o pacifismo, nem o bom senso
Vivemos num mundo caótico, violento e cada vez mais triste

E nada trará aquelas vidas de volta
A TV insiste em desvalorizar a vida
Alguns shows incutem a vã idéia de que podemos voltar
Mas, na realidade, só nos resta chorar e lamentar

Eram só crianças, só crianças...

quarta-feira, agosto 25, 2004

Casas

Casas sólidas
Casas insólitas
Confortáveis
Surreais

Para pessoas gigantes
E pessoas normais
Casas, sempre casas

quinta-feira, agosto 12, 2004

Saudades

Acordo e olho pela janela
Lá está o Sol a me receber
O ânimo, porém, esmaece
Assim que me lembro dela

Teu sorriso me motiva, dia a dia
Nosso amor me emociona, sempre
Teu potencial me inspira, a continuar
Nossas guerras me congelam, um pouco por dia

Vivo na esperança de um futuro aconchegante
Quente, reconfortante, cheio de felicidade
Luto contra um presente tenebroso e um tanto triste
Mal nos vemos, e meu coração sente muito

Nossos caminhos são aqueles que escolhemos
Pelo nosso desejo, não imposição
No horizonte vejo batalhas duras pela frente
Além disso, nada sei de antemão

Minha luta é antiga, como a água contra a pedra
Muito já superei por aquilo que desejei
Um desejo, porém, se faz urgente:
Assistir ao teu renascimento, para nossa alvorada

Ver-te distante castiga meu coração
Que deseja apenas nossa união
Não ver teu sorriso me congela
Como um coração solitário ao relento
Esperando por uma gota singela
De nossas lágrimas reunidas

terça-feira, agosto 03, 2004

Chica

Teus pés firmes há muito aqui pisaram
Num olhar profundo, a lembrança da terra distante
Semblante jovial que brilhou cintilante
Com o Sol de verão que ao longe avistaram

Chegou e prosperou no alto do monte
Teus descendentes vieram e ganharam o mundo
Sob teu olhar cansado, mas sempre atento, cruzaram o mar
Para tua terra reencontrar

Os anos passaram, tua história cresceu
Assim como os brancos fios de tua sabedoria
Teus filhos partiram, mas tua vontade permaneceu
Sempre firme e atenta à distante e antiga cantoria

De respeito e homenagem fez-se tua vida
Com amor e carinho retribuem teus bons atos
Sorridentes e alegres lhe abraçam seus queridos
Afinal, velhice não pega, ela contagia e inspira... a vida.

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*este poema é meu presente de aniversário atrasado para o Henrique. Foi inspirado num momento trivial, mas, para mim, mágico promovido pela avó dele. Parabéns, Henrique! E obrigado por tudo!

segunda-feira, julho 19, 2004

Um Pequeno Coração

Ele nasceu pequenino.
Sem dono, mas louco para amar.
Em baixo de um carvalho falante ele encontrou um menino
E os dois ouviram histórias alegres, tristes que os levavam dos campos ao mar.
Quando tudo acabou, o menino partiu.
E do pequeno coração, uma lágrima caiu.
Uma Fada
 
Na beira da estrada havia uma Fada
Diminuta e muito astuta
O garotinho aproximou-se sorrateiro
Com a esperança de prender a Fada num tinteiro
Na hora do bote, a Fada, porém, o surpreendeu
E de sua orelha um pedaço comeu
 
Tolo garoto, de nada maroto
Da orelha perdeu, pois do segredo se esqueceu
Fadas não resitem a um espelho
Pois gostam de arrumar o cabelo

quinta-feira, julho 15, 2004

Minha Canção

Sempre sonhei em ser grande
Em ver as estrelas de outro ângulo
De mudá-las, se preciso fosse
De ditar as regras, e quebrá-las

O mundo mostrou-se homogêneo
Cheio de igualdades desiguais
Feitas de papel e promessas
Cegos e surdos seguindo uma trilha de mentiras

Aqueles sonhos grandes pararam
Frente à força da mágoa
E da realidade
Sem a menor piedade

A dor é curada
O ódio esmaece
A paixão diminui
Mas os sonhos continuam

E reavivá-los é necessário
Inevitável, uma condição de vida
Daquela vida que deve ser vivida
Inspirada pelos sonhos
E moldada pelo sonhador
Em todo seu esplendor

Viver no futuro parece tolice
Olhar somente para o passado também
Mas é no balanço que se vive o presente
Em sua plenitude. E felicidade.

Foi olhando para o futuro
Que encontrei no passado
Os meios e a inspiração
Para alimentar meu coração

E cantar minha própria canção

segunda-feira, julho 05, 2004

Outono de Outrora

Folha pequena que cai
Desliza no ar com o vento
Suave em seu movimento
Com o sopro da vida que se vai

Flutua, flutua com ternura

Num outono fora de hora
O homem caminha sem demora
À frente de seu tempo
Em pleno contentamento

Caminha e passeia entre os montes

Berço da história de ninar
Que aflora em seu caminhar
Sem medo, nem rancor
Com muito pesar e amor

Sonha, poeta, em teu sono desperto

Nos rostos alheios procura a resposta
Da pergunta sempre posta
Encontra apenas o olhar evasivo
Daqueles que vêem um mundo morto

Vivam sonhando, que um dia acordaram

Pelos montes de folhas andou o viajante
Com muita emoção em seu semblante
Cruzou com pedestres alheios ao mundo
Seguiu seu caminho de olho em tudo

Anda, anda, bardo menino.

domingo, julho 04, 2004

O Sonho e o Castelo

De toda a confusão na qual encontra-se minha mente posso tirar algumas imagens nebulosas, lugares que tenho certeza não conhecer, e pessoas, muitas pessoas, algumas conhecidas, outras amedrontadoras. O que deveria ter sido uma viagem de trabalho, tornou-se sonho, ganhou acordes de pesadelo e terminou numa incrível seqüência de repetições infinitas na ânsia por escapar do que me perseguia. Mas minha cabeça dói e as lembranças chegam aos poucos envoltas nas brumas do tempo-espaço. Não tenho certeza de que as vivi, mas as sensações de medo e pavor retornam cada vez mais fortes para tirar minhas dúvidas. Porém, ainda não tenho certeza. De nada.
A primeira memória é de uma voz conhecida. Era Larissa. Falávamos de trabalho, de idéias, do que faríamos na viagem. Embora me lembre de seu rosto, de seu jeito delicado e do assunto, tenho a impressão de nunca ter ouvido sua mensagem claramente. Qualquer tentativa de recuperar esta informação me leva imediatamente ao lugar que menos quero estar, mesmo que tenha sido só um sonho.
Uma torre alta. Num castelo sem fim. Com muitas sombras, de lugares e pessoas, e um ar constantemente carregado e nublado pelo esquecimento. Por várias vezes, fui guiado pelos largos corredores – que me remeteram ao tamanho dos afluentes do Grande Rio – até um ponto no qual não poderia mais avançar. Era um portão, de onde era possível apenas enxergar uma pequena casa com uma janela acesa, no alto da colina que ficava acima do castelo. E nada mais.
O caminho de volta era tortuoso, sempre solitário. Embora Luiza estivesse apenas há alguns passos de distância, era como se estivéssemos separados por Eras da história. Nada dizia, pois, no fundo, sabia que ela não me escutaria e meus gritos desesperados por ajuda de nada adiantariam. O pânico e a aflição cresciam constantemente até o ponto que, de súbito, deixava o castelo e me via em frente a um edifício de altura incalculável, no centro de uma cidade decrépita no interior do Brasil – também envolta em uma espessa névoa e povoada por sombras em constante movimento. Era meu local de repouso. É claro, se fosse capaz de encontrar o quarto correto.
Esperei em frente ao prédio por alguns segundos, ou vários séculos, e vi muitos ônibus – aparentemente lotados – pararem e abrirem suas portas. Nunca vi ninguém desembarcar depois de mim. Apenas sentia uma brisa, como se alguém houvesse acabado de passar, mas nunca havia ninguém.
Algo deixou o clima de fora tenso e estranho. Achei melhor entrar e descobrir que os elevadores haviam desaparecido há muito. A placa dizia que todos as usavam para subir. “A escada é curta se você sabe o caminho”, alguém me disse. Quando virei para, finalmente, conversar depois de tanto tempo, nada havia além do balcão.
Nada mais me restava, a não ser seguir pela escada mais próxima. A da direita. Havia uma na esquerda e outra grande no centro. Todas lá, plantadas como alicerces da existência deste mundo enevoado e incerto.
Comecei minha subida e a frase não parava em minha mente, não havia descanso, e os degraus eram infinitos. Num dos primeiros andares encontrei um grupo de bruxas em meio a uma discussão sobre o fogo sagrado, que queimava no centro do grupo. ShadowFire era a líder e seus cabelos cor de fogo balançavam ao sabor da brisa que elas também pareciam sentir. Ela nunca falou comigo, mas sabia que esse era seu nome. Apenas olhar para ela me dava seu nome e sua origem. Ela vinha do Sul. Mas havia vivido entre o meu povo, em algum momento do qual não me lembrava.
Uma vez mais, ninguém me viu. Fiquei ali, aproveitando a companhia passiva por algum tempo, que não sou capaz de determinar precisamente e também não vem ao caso, mas foi movido a deixar o grupo quando algumas das bruxas perderam sua beleza e começarem a desaparecer em meio à névoa. Senti que mesmo ShadowFire começava a seguir suas amigas. Virei-me e segui em frente. Mesmo sem olhar, soube que o fogo sagrado era nada mais que uma simples lembrança num passado remoto.
Mais acima, parecia seguir alguém. Uma mulher. ShadowFire, pensei. Mas era uma ilusão. Descobri que, na verdade, era Luiza quem me seguia. Sem notar minha presença, é claro. Instantes mais tarde, estava sozinho novamente.
Encontrei um velho encapuzado, cuja face temia descobrir e tremia só de imaginar. Mesmo com seu capuz abaixado, ele me encarava e fez um leve movimento com a cabeça para que eu olhasse para trás. Quando o fiz, quase fui ao chão por causa de uma forte lufada de vento. Levou muito tempo para ficar totalmente ereto novamente. Voltei meu olhar para o velho, e ele não estava mais lá. Ele havia me desapontado no passado. Fez algo nas minhas costas. E fiquei triste. Era só o que sabia dele.
Subi muitos e muitos degraus. E mais ninguém apareceu. Por outras duas vezes, vi Luiza pelas costas. Ela caminhava, sempre no mesmo lugar, sozinha e sempre em frente. E, logo depois, desaparecia nas sombras.
Depois de muito andar, para meu desespero, estava, novamente, de fronte à alta torre do castelo sem fim. Ouvia a voz de Larissa, encontrava meu guia obtuso e seguia para os grandes corredores...
Ciclos depois, a névoa tomou conta de mim. O telefone tocou. E as imagens se desfizeram. O telefone tocou novamente. Acordei.
Voltei a dormir e voltei um pouco mais. Talvez à origem, pois, antes de tudo isso, uma nova memória surgiu. Havia uma voz élfica no princípio de tudo. Num belo parque, imaginei a dona de tão doce voz, fiquei anestesiado, apaixonado, maravilhado. Minha felicidade era extrema. O paraíso em vida. E, então, o parque desapareceu. E vi a torre.

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é totalmente maluco, eu sei.

sexta-feira, julho 02, 2004

Um Homem de Família

Hoje foi um dia triste. A única que coisa que posso fazer publicamente é uma pequena homenagem:

"This was the noblest Roman of them all. All the conspirators save only he that they did in envy of great Caesar. He only, in gentle honest though, and common will for all, made one of them. His life was gentle, and the elements so mixed up in him that the nature might stand up and say to all the world, This Was A Man!"

- Marco Antônio, em Julius Ceaser

“I never wanted this for you. I work my whole life - I don't apologize - to take care of my family, and I refused to be a fool, dancing on the string held by all those bigshots. I don't apologize - that's my life - but I thought that, that when it was your time, that you would be the one to hold the string. Senator Corleone; Governor Corleone. Well, it wasn't enough time, Michael. It wasn't enough time”.

- Don Vito Corleone, em O Poderoso Chefão.

Assim parte Brando, Corleone, Marco, e tantos outros.

sexta-feira, junho 25, 2004

Folhas Amarelas

Noutro dia estava eu a vasculhar arquivos antigos, textos esquecidos e alguns cujo momento havia deixado minha memória. Deparei-me com um poema do qual não me lembrava, mas, inevitavelmente, era de minha autoria. Agora, de onde vem essa onda de inspiração que gera obras tão belas e até inexplicáveis?

Posso atribuir a fonte à Awen druídica, a origem da inspiração ancestral, o berço da minha crença e cálice do conhecimento de Eras e Eras. Também posso dar o crédito a alguma ligação especial com a natureza, com as pessoas, com os animais, com o local onde vivemos. Sem dúvida, cada razão que vocês possam atribuir à inspiração – independente de credo ou local – faz-se presente num momento de inspiração. Com isso, chego ao ponto vital deste texto: não escrevo há um tempo.

Ou melhor, não escrevo com a mesma freqüência e, acho, qualidade com que os bem acostumei. Pergunto-me: o que aconteceu? Não tenho dúvida de que as razões acima descritas e tantas outras possíveis não se alteraram. A Awen continua acessível, as ligações não mudaram em tão pouco tempo e etc. Depois de pensar alguns dias nesse assunto, mesmo sem intenção de escrever a vocês, notei que – deixando de lado o chavão – a mudança operou-se em mim. E não gostei nada disso. Por sorte, descobri rapidamente o que havia acontecido e, garanto, todo mundo já passou por isso.

Sabe aquela sensação de estar flutuando para chegar num lugar meio incerto, numa hora meio indefinida? Pois é, comecei a dar tanta importância a alguns pontos materiais (relevar todos eles é bobagem e simplesmente impossível, por mais que gurus da auto-ajuda digam o contrário) e encontrei o desânimo no lugar da empolgação quando podia sentar e escrever sobre um daqueles detalhes delicados que observo durante minhas caminhadas.

Era como se a ligação estivesse obstruída, algo assim. Infelizmente, acho que descrever é um difícil já que até isso é incerto. Hoje, ao chegar a estas conclusões e, por fim, decidir sentar para escrever este texto quase desabafo. Lembrei de tantas peculiaridades que poderiam ter gerado poesias, elogios, declarações de amor puro e paixão intensa por pessoas, lugares, momentos ou mesmo simples idéias. Foi nesse momento que senti uma sutil mudança e pronto: tá na hora de acordar.

Outro dia fiquei perdido, devaneando entre folhas e folhas que deixaram a rua com um tom outonal, mesmo que estejamos no nosso inverno. Acho que foi a primeira vez na minha vida que parei para perceber o dia em que as folhas começavam a cair. Algo totalmente mágico, e que também passou desapercebido nesse meu momento desconectado. Sem dúvida, isso ainda vai gerar uma bela poesia para demonstrar o como folhas mortas foram capazes de despertar algo adormecido – não, fora de foco é melhor. A morte traz a vida, ou melhor, ela suscita a nova vida, o renascimento, a novidade.

Tenho certeza de que aquelas folhas mortas tinham uma razão, um motivo para estarem ali, disfarçadas de montes de lixo e um incômodo aos demais transeuntes que as evitavam como se fossem algo asqueroso e nojento. Não dei a mínima, e caminhei justamente entre o longo percurso criado pelas folhas, meio amareladas, bege estalante, verde apagado.
Num outono fora de hora, numa rua fora do mundo, numa mente fora dali. Tudo aconteceu e o mundo presenciou um pouco mais de mágica. Pelo menos o meu mundo.

Bem, meus olhos cansados e meu labirinto surtado dão os sinais para, mais uma vez, parar e deixá-los para, muito em breve, retornar.

quinta-feira, junho 17, 2004

My Heart...

... lingers and my soul cries
dark is the tide
shadows grows in my mind
fear tears me apart
sorrow is my path

a stone age rises
storming the present
changing the future
leaving the past behind blue sad eyes

it's difficult to breath
among this hatred fumes
clouding my vision
making me search for the answer
the pathway to glory
to solitude
to victory

and to mourn
oh, my heart
fears for his love
and begs for his freedom
from me, from the world
from himself and his passion

over, and over again
'till it lives forever on his own

quarta-feira, junho 16, 2004

Beijo na Chuva

“Qualquer um que tem um amor parecido com este
Sabe o que estou dizendo.
Qualquer um que quer um que um sonho se torne realidade
Sabe como estou me sentindo
Só consigo pensar em você e eu
Fazendo coisas que eu sempre quis fazer
Tudo que consigo imaginar é o Céu e a Terra

Eu sei que é você

Qualquer um que já beijou na chuva
Sabe o completo significado
Qualquer um que já esperou com a luz acesa
Não precisa de explicação

Mas tudo parece mais ou menos sem significado
Triste e feio
Andando sozinho pelo trânsito do final da tarde
Sinto tanto sua falta
Tudo parece mais ou incerto e perdido
E se torna nebuloso

Vivendo num mar de lágrimas
Eu flutuei

Qualquer um que já se sentiu como eu me sinto
Qualquer um que não estava preparado para a queda
Qualquer um que amou como eu amei
Sabe que, na verdade, isso não acontece
Apenas nos leva como a maré

Quando acaba, acaba

O que posso fazer
Se agora, tudo acabou?”

***
Priscila Madrigal Barreto
17/08/2000

Gente, hoje abro espaço, orgulhosamente, para um poema escrito pela minha irmã. Fiquei muito feliz ao descobrir alguns trabalhos obscuros dela. Sempre com muito sentimento e sinceridade, ela assim chorou uma vez e, infelizmente, eu não estava por perto para apoiá-la. Parabéns, Pri. Te amo.

quarta-feira, junho 02, 2004

Jardim*

"Com o tempo, você vai percebendo que, para ser feliz com uma pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe, também, que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem (a mulher) da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!"

*obra de Mário Quintana

segunda-feira, maio 31, 2004

Dois

Vento no rosto encanta a paisagem
Lembrança feliz daquelas paragens
Menino garoto sorrindo maroto
Amantes que correm felizes e loucos

A chuva é fraca e toca a alma
Leva a folha pequenina
Molha o rosto da menina
Bem de leve e repentina

Toma teu tempo rapaz
Vive tua vida menina
Leva de boa na rua
Corre feliz pelo campo

Leve brisa te conquista
Dobra a esquina e te ilumina
Fraco brilho pequeninho
Ganha força em desatino

Sonhadores, olham ao longe
Por seu futuro procurando
Vão alegres e sorridentes
Em gargalhadas estridentes

Toma teu tempo rapaz
Vive tua vida menina
Leva de boa na rua
Corre feliz pelo campo

*fiz para virar música, mas sou péssimo de ritmo.

domingo, maio 23, 2004

Tudo Começou... Num Bosque

Sentado à beira de uma grande e antiga árvore, um jovem tentava encontrar a solução para questões que há muito havia levantado e falhara ao respondê-las. Também pudera, soluções não estão à venda na feira anual, não se escondem embaixo de pedras e, definitivamente, não são de propriedade daquelas doces criaturas encantadas do bosque. Não, senhor. As soluções, assim como as resoluções, formam-se a cada momento, a cada segundo, com um simples gesto que, sem dúvida, pode mudar tudo.
A busca por respostas tomava muito tempo do jovem aprendiz, ou seria ele que desperdiçava seu tempo em busca de tal conhecimento? Bem da verdade, as duas coisas andavam de mãos dadas e graças à infalibilidade do destino – e de todas as histórias já contadas até hoje – partiu ele e com ele foram suas perguntas, indagações, dúvidas e medos. Tudo muito bem guardado e agrupado numa sacola escondida e secreta, daquelas que só se abrem para seus donos e cujo conteúdo, mesmo que se tente, dificilmente pode ser explicado a qualquer outra pessoa. Levou também sua coragem, curiosidade, inteligência e força de vontade, marcas importantes e fundamentais para jornada tão perigosa.
Esquecia-se, às vezes, de usar tais qualidades e passava por tolo, por razões que ninguém nunca soube explicar ao certo e que talvez nem estivessem dentro de sua bolsa secreta, mas assim ele era. E foi por muito tempo. Algumas coisas, porém, aconteceram, modificaram, criaram, reavivaram.. e está é a história deste jovem, suas facetas, verdades e mentiras, vitórias e derrotas. Enfim, sua vida como foi, como poderia ter sido e, dependendo do referencial, ainda está por vir. Seu nome? Oh, Beregond, é claro.
Novidade

Foi um dos pequenos pardais do bosque encantado que disse a Beregond sobre um lugar fabuloso que havia há uma certa distância dali. O jovem bardo escutou com interesse e curiosidade as fábulas contadas pelo pardal e, às vezes, por outros de seus amigos animais. Tudo era muito grandioso, novo e belo. É claro, parecia muito mais belo do que a terra natal do nosso intrépido herói. Pois é, caro leitor, por mais que se viva num lugar inigualável, o desconhecido sempre parece ser mais apetitoso, proveitoso e jeitoso.
E conforme ouvia tais histórias, ele criava um certo desejo de então conhecer tal reino mágico. Porém, tal viagem precisaria de tempo e muitas moedas de ouro, itens raros especialmente a um jovem sonhador e guerreiro como Beregond.
Beregond era conhecido por sua dedicação, inteligência e prodigiosidade. Era jovem, mas experiente e isso às vezes o colocava em situações desagradáveis já que alguns não acreditavam em suas narrativas, aventuras, vitórias e nem mesmo nas derrotas. Fosse pela palavra ou pelo pergaminho, seus contos tornavam a menor das trivialidades numa aventura grandiosa. E assim contava sua história, para quem por ela se interessasse. Por fora, o riso ou a reverência não o afetavam, mas algumas gargalhadas eram mais mortais que a ponta fria da espada capaz de despedaçar a alma e roubar-lhe a alegria.
Num de seus momentos mais escuros, Beregond deixou tudo que lhe era caro e, sem saber muito bem a razão, partiu numa jornada meio errante, meio delirante. Parte de seu amor ficou para trás num longo abraço, outra parte permaneceu num lindo sorriso, enquanto seu orgulho ficou escondido, debaixo da cama, fazendo companhia para o monstro que lá morava, mas sem dizer palavra sequer. Orgulho envergonhado, sem força para se levantar.
E assim partiu. Beregond não mais era conhecido como o Alto. Havia se tornado mais um aventureiro na terra das promessas. Vencedor que é, não desistiu e mostrou tanto aos desafortunados quanto aos senhores daquela terra que não era um mero aproveitador, mas digno de respeito e reconhecimento.
Notícias de suas conquistas alcançaram seu querido bosque. O pardal contador de histórias as ouviu, deu um piu e partiu. E, por ali, ninguém nunca mais o viu. E o furor que deveria causar, conseguiu apenas o pesar. Da menor das fadas à mais antiga das árvores, não havia um só ser encantado que não sentisse a falta do amigo sonhador, que a todos brindada com suas histórias e imaginação.
Tudo isso, porém, demorou a acontecer, já que Beregond, o então ninguém, havia esquecido seu orgulho, e só faltou juntar entulho. Sem poder usar suas belas palavras ou doces rimas, suas mãos calejadas e olhos cansados tornaram-se suas marcas por muito tempo. De seu amor lembrava-se todos os dias, como se uma pequena lembrança fosse a única coisa capaz de alimentar sua vontade e motivá-lo a continuar naquela tarefa insana. E desumana.
O caminho, porém, estava traçado e era seu destino trilhá-lo. Lutou, então, de Sol a Sol, num mar de solidão e apenas com a lembrança da paixão. Fez fortuna, diziam, mas a cada fim de dia, não apenas seu corpo e seus olhos – sempre no alto da grande torre no porto –, mas também sua alma se voltava para o Sul. Como que se esperasse pela chegada de um simples aroma ou resquício do ar que houvesse tocado sua terra e seus amigos.
Ele havia prometido que voltaria em breve. Afinal de contas, encontrar aquelas respostas não deveria ser tão difícil, assim como conquistar novos amigos e riquezas. Promessa quebrada, assim como seu coração. Ficara por lá, solitário e, de certo modo, temerário pelas incertezas que o aguardavam.
Diziam que para lá rumou o pardal contador de histórias e que ambos permaneceram juntos anos a fio, numa amizade única e verdadeira. O homem que não mais contava histórias, e o pássaro que não se cansava de entoá-las ao amigo, como que se tivesse algum propósito escondido em cada uma de suas lendas e fábulas.
Desde então, ao olhar para o Sul sobre as cintilantes ondas do mar, ou sob o delicioso brilho da Lua, Beregond imaginava como estavam seus queridos amigos, sua família e tudo aquilo que, sem saber, havia deixado guardado com seu orgulho esquecido. A pequena bolsa, a princípio, foi tomando dimensões e, em alguns anos, tornou-se um grande baú. Lá dentro, uma vida. Descontinuada, de certo modo esquecida, mas marcada por muitas coisas boas que não mais se repetiriam justamente por pertencerem a alguém que não mais se reconhecia ao olhar no espelho e que, ao entrar naquele maravilhoso bosque encantado, talvez não fosse capaz de reconhecer sua beleza, seus amigos e seu amor – que havia partido tantas vezes dentro de envelopes, garrafas lançadas ao mar, desejos transmitidos pelo vento ou com uma simples rima. Tão simples como a vida e triste como a partida.
Muito tempo depois (ou teriam sido apenas alguns dias?), o imenso baú rompeu-se e, da esquecida cabana, partiu em disparada o orgulho. Meio desnorteado pelo imensurável tempo enclausurado foi ele, em busca de seu dono. No fundo do baú, restava apenas uma pequena fagulha de um grande amor, sentimento responsável pela abertura da clausura e cuja vida agora dependia da união de uma alma com seu espírito. E da lembrança de tudo que fora e viria a ser. E assim desembestou o orgulho, pulsante, cheio de vida. E esperança.
Ensinamentos

Muito versátil era Beregond. Conhecido por suas belas palavras e paixão no ato de contar qualquer história, certa vez, a líder de uma vila distante pediu ao jovem que ao seu povo ensinasse em troca de comida e abrigo. Foi com surpresa que a proposta alcançou os ouvidos de nosso herói, já que era inesperada a hora. Momentos difíceis eram aqueles e a tempestade estava cada vez mais próxima para tudo e todos.
Ensinar, porém, nunca havia sido o sonho de Beregond e pouco sabia tão nobre tarefa. Então, não perdeu tempo. Montado em seu fiel Dreamer, um belo corcel avelã, ele partiu em busca do conselho de sábios. Foi acolhido por Semm, um profundo conhecedor do ofício, que o instruiu, tomou-o como discípulo e colocou suas habilidades à prova.
Por ter adquirido tal habilidade, Beregond logo se esqueceu de suas doces palavras e de todas as aventuras que desejava viver. Com tal sentimento partiu também Dreamer, que levou sua amizade e parece ter privado seu jovem companheiro de seus mais grandiosos sonhos e desejos.
A abrigo e a comida oferecida pelo povo do vilarejo eram bons, mas parte do espírito de Beregond parecia ter ficado para trás e, rapidamente, sua natureza indomável foi apagando-se, perdendo a força e se esvaindo, mesmo que ele tentasse usar suas antigas artimanhas para agradar seus discípulos e, sem dúvida, a si mesmo. Tudo parecia em vão e ele assistiu a um vagaroso surgimento de uma nova vida. E era a sua própria vida, que tomava novos rumos.
Rapidamente, ficou conhecido como Beregond, o Sábio. Dividia seu conhecimento com aqueles que o procuravam, tanto em sua vila quanto nos vilarejos próximos e, com isso, passava muito tempo viajando por estradas solitárias e pouco agradáveis. Enquanto viajava, lembrava-se de seus passeios pelo bosque, das noites na grama e dos passeios e mãos dadas com seu amor. De vez em quando ele fazia alguma destas coisas, mas seu espírito não as recebia com tanta vontade e felicidade.
A escolha foi difícil, mas esqueceu-se de vez de sua vida anterior, e mergulhou de corpo e espírito no ofício do ensinamento. Solitário e árduo foi o caminho, mas, como todos os outros, Beregond o trilhou como tinha que ser feito. Viu muitas conquistas e sorriu, mas sem o mesmo brilho que uma simples poesia causaria antigamente. Sentiu muitas derrotas, e chorou por cada uma delas como se uma vida inteira tivesse sido perdida. E simplesmente viveu e lutou por anos e anos, abriu mão de seus sonhos e era durante as noites frias, em sua pequena cabana na floresta, que lembrava de sua juventude e do tempo em que suas palavras emocionavam, tocavam e despertavam. A todos e a ele mesmo.
Do alto da Colina

... Beregond podia ver toda a sua vila. Era uma vista linda e inigualável, graças a suas particularidades, traços, pessoas, cheiros, sentidos, tudo. Foi naquele lugar que ele cresceu e, mesmo com suas constantes visitas ao bosque encantado, era a terra que chamava de sua. Por muito tempo ele vagou pelas florestas, campos e montanhas da região – sempre em busca de suas respostas e soluções – e lá ficou como se aguardasse a hora certa de tomar uma nova estrada.
Ficou maravilhado com lugares e pessoas belíssimas que conheceu, orgulhou-se das escolhas que tomou e ficou feliz por sua coragem nunca ter lhe faltado nos momentos de maior perigo. Ah sim, a coragem, sentimento tão comum aos heróis e tão necessário mesmo ao mais simples dos lavradores. Muitas vezes ela não gosta de ser encontrada, noutras, perde-se nas brumas por conta própria e de lá só retorna quando bem entende. Beregond, porém, tinha de sobra e com ela enfrentou suas provações.
Certa vez, um sábio lhe disse que a cada novo passo, a cada olhar para uma nova direção, cria-se uma nova vida e, mesmo se você decidisse voltar e seguir um caminho anterior, esta vida não mais seria como poderia ter sido da primeira vez. Assim como as pás do antigo moinho da colina velha, os destinos não param de se mover e mesmo a mais simples das escolhas pode levar o mais bravo dos guerreiros a lugares que ele nunca havia imaginado, ou até mesmo a conhecer a si próprio de maneiras até então improváveis.
Lembrando-se disso, Beregond chegou à conclusão de que o período de contemplação havia acabado e, depois de olhar para muitos lados e muitos momentos, era chegada a hora de dar o primeiro passo. Como tantas outras vezes, outras aventuras e batalhas, o primeiro passo tem aquele poder de ser o maior e mais definitivo de todos, além de o mais difícil. Parar uma pedra que começa a rolar é fácil, porém, colocar-se à frente e parar um grande trem em alta velocidade é tarefa praticamente impossível.
Uma vez mais, então, olhou para a vila, voltou-se para o caminho que havia escolhido, levantou-se e partiu.
Beregond seguiu ao encontro de suas palavras há muito esquecidas, de seu dom adormecido e, com isso, reavivou a chama da paixão pela vida. Ele nunca soube ao certo o quanto cada um de seus amigos e sábios conselheiros colaboraram na escolha, mas, sempre carregou consigo a certeza de que aquele grande passo só foi dado por causa de tudo que lhe haviam dito e ensinado, por tudo que ele havia aprendido, e, acima de tudo, por tudo que ele havia vivido, devaneado, delineado, sequer imaginado. Até mesmo o menor dos delírios sonhadores foi causador de tal mudança, ou amadurecimento, como alguns haviam dito.
Os sonhos voltaram a brilhar, a voz renasceu e, como num passe de mágica, a magia ancestral despertou dentro de Beregond. O bosque encantado não mais merecia esse nome, já que brilhava com tal intensidade e era tão belo que encanto era o mínimo que podia exercer sobre aqueles que por lá se aventurassem. O que Beregond não sabia era que ele mesmo brilhava até mais que o velho bosque, e que, ao contrário das árvores e animais lá encontrados, suas andanças eram capazes de espalhar toda aquela luz e conhecimento por lugares inimagináveis, a pessoas imersas na sombra e levar alegria a tantas florestas e bosques esquecidos pela curta memória do homem.
Assim cresceu e amadureceu Beregond, o Bardo, dono de belas palavras, ostentando um coração alegre em seu peito, um arco nas costas, sempre com uma história à mão, com o futuro e a vida como únicas responsabilidades.

* * *

Vividas ou imaginadas, frustradas ou esquecidas, desejadas ou simplesmente frutos do acaso, que vidas lindas foram elas.

terça-feira, abril 13, 2004

Estrela Cadente

Levante, garoto
Olha em frente
Contemple o véu estrelado
Sinta a brisa e avance

Pequenina cai a estrela
Rasgando o firmamento
Carregando tua coragem
Mesmo tão distante e singela

Corre até ela, maroto
Retoma o que é teu
E sorri
Alegre como um bem-te-vi

Não desiste, garoto
Teu jogo é outro
Olha teu pote de ouro
Guarda teu maior tesouro

E solta tua alegria num estouro
Num lugar qualquer

O sapo deu seu mergulho
As gaivotas continuaram seu vôo
Nuvens negras apontavam no Leste
O bebê faminto chorou

Ninguém ouviu o cão ladrar
Na praça vazia, os roedores a vaguear
Dos campos em silêncio partiram todos
Ao som do trovão solitário

O rei morreu
E tudo se perdeu

quinta-feira, abril 01, 2004

34

Uma pequena foto p&b restou
De sua passagem por aqui
Não te conheci
Só aqueles a quem amou

Sempre imagino as gargalhadas
E também as palhaçadas
Que teríamos vivido juntos
Pelas cercanias deste mundo

Perguntei o que fizeste
Descobri um pouco de quem foste
Chorei e saí correndo
Senti orgulho te imaginei sorrindo

Num dia de poucas verdades
Teus amigos souberam de tua partida
No mesmo dia em época diferente
Tua família te lembra com saudades
34 anos se passaram
duas vezes 34 podem passar
E continuaremos a lembrar

*Dedicado a um homem que não conheci, mas a quem devo muito: meu avô.

quarta-feira, março 24, 2004

10.000 Visitas

Um momento para ser celebrado! Em poucos meses de atividade, Poemas e Devaneios atinge a marca das 10.000 visitas. Gostaria de agradecer a todos cuja presença, carinho e comentários foram fundamentais durante este período. O que começou como um espaço para armazenar meus textos hoje, felizmente, é um lugar aberto a todos vocês que, ao menos uma vez por semana, clickam num link ou digitam as coordenadas para fazer uma visita. Só lamento o fato de que a visita de número 10.000 tenha ocorrido por causa de um problema político e não pelo conteúdo sempre postado por aqui.

Mais uma vez obrigado e espero, sinceramente, que o conteúdo aqui publicado possa, de alguma maneira, melhorar o dia de cada um vocês. Mesmo que seja um simples sorriso. Já vale todo o esforço.

Um Grande Abraço e, como diria o Jô, Beijo do Bardo! :-)
Fábio M. Barreto

ps.: dois contos de fadas aqui postados estão, neste momento, concorrendo no Concurso Scarium de Literatura. Façam figas, acendam velas, mandem e-mail pra lá puxando a sardinha, sei lá! :-p Enfim, achei legal compartilhar.

segunda-feira, março 22, 2004

Como eu queria...

Como eu queria poder parar o tempo
E ver as faces imóveis daqueles que amo
Guardar suas feições e sentimentos
Dar alegria aos que passam por tormentos
Pegar emprestado o amor dos apaixonados
E dar um pouco aos abandonados

Como eu queria poder voltar no tempo
E lembrar aqueles tempos felizes
Quando amizades nasciam sem querer
Romances brotavam ao amanhecer
Pessoas sorriam simpáticas no primeiro encontro
Paixões encontravam-se como o mar revolto

Como eu queria poder ver o futuro
E saber se tudo isso vai valer a pena
Gravar os erros
Eternizar os acertos
Lembrar dos rostos e poder dizer:
Fizemos isso juntos
Mesmo num futuro insólito
No qual sonhos ganham vida
E a vida passa como um sonho

Como eu queria, acordar menino
E brincar de roda com as estrelas
Voltar para casa adulto
E imaginar peripécias olhando pelas janelas
Ir dormir apaixonado, ao lado do meu amor
E esquecer que existe a dor

Como eu queria enxergar dentro de cada um
E ser capaz de escolher apenas um sentimento
Fazê-lo ganhar forma, força e explodir
Para que todos pudessem ver e crer
Naquilo que realmente tem poder

Como eu queria apenas lembrar
De como tudo começou, naquele passado distante
Mas tão próximo como alcançar uma pequenina estrela com o dedo
Tão querido, quanto o mais amado sentimento
Apenas lembrar, como foi bom

E ainda é, enquanto alguém viver para lembrar
Contar e propagar a boa nova de um período pleno
Ameno e Sereno
Eterno como deveria ser

Como eu queria não precisar querer
Que o tempo retornasse
Que as pessoas se entendessem
Que a vida valesse a pena

Como eu queria viver num mundo em que não precisasse querer, no qual tudo que precisássemos aconteceria como num passe de mágica e, nas horas mais difíceis, as pessoas fossem apenas capazes de, simplesmente, se lembrar. Daqueles momentos bons, felizes, em que compartilhamos sorrisos, aparamos lágrimas, lutamos e sofremos lado a lado.

*Num momento conturbado como esse, pensar positivamente e lembrar de tudo que aconteceu pode ser um bom caminho. Não vou me meter, mas essa é minha contribuição para quem estiver preparado para ouvir.

sábado, março 20, 2004

Tempo de Guerra

A batalha estava próxima
Mas ela ainda não sabia
Os rumores da guerra tomaram a vila
Calmo ele permanecia

A primavera chegara
E com ela a guerra
Senhores e servos
Pobres e ricos

Não foram rosas brancas
Aos pés daqueles que morreriam
Não eram bolos de viagem
Nas mãos daqueles que não regressariam

Seu espírito clamou
E ela atendeu
Para seu amado, nada de frivolidade
Ela não queria piedade

Para vê-lo retornar
Oferenda melhor não havia
E, no fundo, ele sabia
Que precisaria lutar

No dia da partida havia comoção
Mulheres choravam com emoção
Guerreiros partiam já saudosos
Seus filhos olhavam curiosos

Esperança e temor eram sua bagagem
Debaixo das armaduras antigas
E do couro surrado
Levavam amuletos e forragem

Um deles parecia não temer
Sua partida parecia encantada
Os passos de seu cavalo faziam o chão tremer
Em sua bainha, estava a espada de sua amada

sábado, março 13, 2004

Biscoitos e um Anjinho

Não tenho mais fome
Embora não coma há três dias
Não tenho mais sede
Embora não beba também há três dias

Meu corpo tenta reclamar
Mas minha alma não sente
Meu sentidos fraquejam
Mas meu sorriso mostra-se contente

Não preciso comer
Fui muito bem alimentado
Sem nenhum pedaço de pão
E continuo a viver

Foi um pequeno anjo que a levou
Doce forma de menina, minha fome roubou
Bolachas e biscoitos deixou
E com seu sorriso encantou

Não tenho mais fome
Toneladas de doces em forma de nuvens me alimentam
Litros de chá servidos na minúscula xícara me servem
Meu corpo não tem mais fome

Aquela pequena mão em forma de concha
Servia a alegria em forma de sonho
Recolhia o sorriso em forma de beijo
E partia serelepe para o novo cliente

O anjo sorriu e me conquistou
Sem cerimônia, roubou minha fome
Levou até mesmo meu nome
Doces de mentira me deixou

Para longe partiu
E, em seu caminho, sorriu

quinta-feira, março 11, 2004

Tudo tem um começo
*Para ser lido depois de "Botão, Botão, quem encontrou o Botão?"


Edward gostava muito de passear por aquele pequeno e aconchegante bosque perto de sua cidade e, nos dias em que não tinha aula, até arriscava uns breves cochilos. O arvoredo não era muito grande mesmo e a maioria das pessoas passava desapercebido pela estrada Leste. Não o jovem Edward, ele sempre teve um certo fascínio por aquele lugar desde pequeno, já que seus primos diziam quem não havia nada ali, ou então, o que era pior, que não havia nada de bom ali causando arrepios. De qualquer forma, em sua infância ele acreditava que aquele local não era muito normal e passava horas e horas imaginando o que, na verdade, havia por trás dos grandes carvalhos que formavam uma grandiosa parede natural e parecia dividir o mundo em duas partes.

Muito paciente, porém, Edward alimentou sua imaginação por vários anos até que, finalmente, estava grande o suficiente para ir brincar sozinho e não ter que ficar sempre ao lado de sua mãe, já que seu pai gastava mais tempo trabalhando do que qualquer outra coisa. Era uma manhã comum, com um pouco de névoa, folhas umedecidas pelo orvalho e aquele ar preguiçoso típico dos domingos. Só que não era domingo e a vida, em alguns pontos da cidade, já ia a todo vapor, afinal de contas, quase todo mundo precisa trabalhar. Como eu disse, quase todo mundo.

Edward acordou lá pelas 9 horas, fez um rápido desjejum, roubou uma torrada e saiu em disparada porta a fora. Quase tropeçando no cadarço desamarrado e com uma alça do suspensório ainda caído, ele sabia muito bem onde queria chegar: o bosque. A caminhada quase corrida, que mais parecia uma prova de obstáculos sendo disputada por um garoto que fugia do tinhoso em pessoa, levou cerca de 5 minutos e ele cruzou toda a pequena cidade de Horn. Em tempo, o nome da cidade é esse por causa de uma grande montanha com o bico quebrado que, no outono, faz uma sombra tem acolhedora. Tudo bem que ela cobre a cidade inteira, mas ninguém liga.

Então, finalmente, depois de tanta espera lá estava Edward. Literalmente se borrando de medo de cruzar o limiar entre sua imaginação e a realidade. Dois grandes e antigos carvalhos pareciam os guardas aterrorizantes do local, que emanava um certo brilho graças ao Sol matutino e causava um efeito curioso ao se misturar com o resto do nevoeiro daquela manhã. Mas ele não deu muita atenção ao visual, já que os “guardas” o amedrontavam.

Depois de um passo tímido aqui, uma olhadela acolá, parece que a coragem necessária havia nascido naquele pequeno homem, franzino, mas resoluto ao extremo – pelo menos era como ele fazia força para pensar na hora. Edward fechou os olhos, cerrou os punhos e deu três passos vagarosos em frente. Seus olhos abriram-se minimamente e, pela pequena fresta, ele ainda via os dois carvalhos. Fechou-os novamente. E dessa vez tremeu feito um bambu durante uma tempestade.

Mais três passos e quando ameaçou abrir os olhos novamente, um brilho intenso o atingiu e não havia mais vestígio das figuras apavorantes dos guardiões antigos. O que aconteceu ali? Ele nunca soube, mas a lembrança daquele momento perdurou para sempre. Depois do susto e do maravilhamento com a beleza do lugar, Edward, finalmente, viu o bosque. Belas árvores espalhavam-se por todo o lado e, no centro, uma clareira convidativa com uma coloração levemente verde graças à seu gramado macio e na altura certa, como se um cuidadoso jardineiro houvesse passado por ali há pouco.

O garoto tentou contar as árvores, mas desistiu, eram muitas. Ele sempre teve a impressão de que a muralha de carvalhos escondesse um pequeno labirinto escuro de árvores, raízes expostas e repleto de criaturas estranhas. Ele havia cruzado o espelho, e o outro lado não tinha nada a ver com tudo aquilo que lhe haviam contado ou mesmo que sua imaginação havia ponderado. Ele esperava encontrar aventuras e perigos, mas a resposta foi algo melhor, já que a sensação de calma e paz que a simples visão do bosque lhe causara superou qualquer expectativa.

Aquele foi o primeiro de muitos encontros e, como todo jovem sonhador, Edward caiu de amores pelo bosque encantado. Alguns amigos o viram saindo pela Passagem dos Carvalhos e perguntaram o que havia lá dentro e ele, sabiamente, reforçou o mito das historias ameaçadoras, do lugar horrível e do pavor que ele sentiu. Seus olhos não escondiam sua experiência, mas garotos raramente prestam atenção em detalhes tão sutis.

Os anos passaram e o jovem Edward, aos poucos, tornou-se um homem. E ele tinha um segredo: o que havia dentro do bosque. Ele contou tantas histórias horripilantes sobre sua aventura – e acabou ficando bom no ofício de Bardo – que era capaz de convencer homem feito ou rapazote com a mesma força. Com isso, ninguém nunca foi louco o suficiente para se arriscar pela Passagem dos Carvalhos. Ele soube de alguns bravos que tentaram, mas, no último segundo, fugiram feito raposas espantadas de volta a Horn.

Era um segredo solitário, mas ele não ligava. Ele achava ótimo poder visitar a clareira, que parecia intocada mesmo com o passar dos anos, sentar-se na base de seu querido teixo e simplesmente deixar o tempo passar enquanto pensava em novas histórias, viajava em seus devaneios e ficava imaginando o que, realmente, acontecia naquele lugar mágico. Muitos animais viviam ali e pareciam desfrutar de grande harmonia, mesmo que não ficassem muito perto dele. Edward sempre via esquilos subindo e descendo pelas árvores, ouvia o canto de aves de rapina e outros pássaros nas copas das árvores e, pelo menos em duas ocasiões, jurava ter visto algo que se parecia muito com, bem, com fadas que ele vira em livros infantis. Mas como ele estava praticamente pegando no sono, não deu muito crédito.

Com o passar do tempo Edward descobriu que mais alguém freqüentava o bosque, mas que nunca passava por ali. Numa de suas tardes de reflexão, ele resolveu caminhar pelas árvores quando viu um vulto distante vindo do outro lado da floresta, da fronteira com a cidade vizinha de St. Giles. Curioso, Edward encostou-se numa árvore e aguardou o vulto tomar forma conforme se aproximava. Não mais que 10 metros fora do caminho do visitante, ele não foi notado enquanto o velho Mork continuava seu caminho. Ele era um ermitão meio conhecido por aquelas bandas. Ele sempre vestia um casaco escuro, com grandes botões na frente, e vários buracos, muito mais do que o número de botões, aliás. O velho Mork passou vagaroso, cruzou o último trecho da floresta, atravessou a clareira olhando para o alto e desapareceu atrás de uma grossa faia na extremidade Oeste do bosque.

Depois desse dia, e de mais umas duas aparições do ermitão errante, o bosque encantado permaneceu silencioso, como sempre, e mantinha seu ar de santuário particular, como se esperasse pelas visitas diárias do Bardo que o descobrira.

Já com seus vinte e poucos anos de idade, Edward, como de costume, fez mais uma visita ao bosque encantado e, cansado pelo trabalho do dia anterior e uma pequena discussão em seu, até então, harmonioso lar, resolveu dormir à sombra de sua árvore predileta. Aquele teixo, com sua força ancestral e casca resistente, sempre foi um ótimo apoio em vários momentos. Naquele dia em especial, Edward sentou-se no gramado, apoiou as costas na árvore e olhou para o alto. Assim que seus olhos se acostumaram com o forte brilho do Sol matutino, ele pode ver que a copa era uma das mais altas e que várias flores surgiam de trepadeiras que pareciam escalar o caule em direção infinito. A visão era bela e foi a última coisa que ele viu antes de dormir.

Diferentemente dos outros dias, naquela manhã, Edward sonhou com fadas, canções, sentimentos controversos, magia, sons estranhos e alegres. Uma verdadeira miríade de sensações e significados que pareciam desconexos, mas, de alguma forma, familiares. Ele não sabe, e talvez nunca saiba, quanto tempo dormiu, mas lembra-se muito bem de quando, e como, acordou.

Uma sensação de calor extremo o tomou e algo parecia ter lhe tocado a testa. Algo morno e, por instantes, extremamente gelado se comparado ao resto de seu corpo febril. Mas, logo, tudo estava normal, pelo menos foi o que ele pensou.

Ao tocar sua testa, ele sentiu o que parecia ser a gota de um líquido consistente e desconhecido. Parecia uma liga estranha, com cores constantemente mutáveis, e capaz de transmitir sensações boas, mas, a princípio, apenas uma gota de algo que, provavelmente, caíra do topo da árvore.

Naquela manhã, Edward levantou-se calmamente sem se dar conta que sua vida anterior e muito do que ele imaginava havia ficado adormecido na casca macia do teixo. Aquela pequena gota, como outro bardo havia contado certa vez, mudaria o mundo. E Edward seria o arauto dessa mudança, mas, para isso, ele precisaria mudar primeiro.

domingo, março 07, 2004

Quase

Você quase partiu para o Oeste
Te vi dormindo distante
Tentei te alcançar e lhe falar
E você continuou a descansar

Você quase me deixou
Aquele que sempre te amou
Chorando e caminhando ao relento
Solitário ao sabor do vento

Você quase encerrou seu caminho
E vi meu rumo ruir como um velho pergaminho
Te contei segredos e fiz confissões
E teu coração bateu como mil trovões

Você quase os encontrou
Foi o que meu coração desejou
Cabisbaixo puni meu espírito
E senti, mesmo involuntário, teu sorriso

Você quase... quase acordou
E minha vida se elevou
Apertei a tua mão e disse que te amo
Enquanto você continuava em teu sono

Você quase partiu para o Oeste
Mas passou pelo teste
Quando, finalmente, acordou
Meu temor passou

E as lágrimas caíram

segunda-feira, março 01, 2004

Musicando

Nada se compara a olhar teu rosto
Banhado por lágrimas
De felicidade velada
Ou de tristeza contida

Almejei o topo por muito tempo
A realização de algo grandioso
Simplesmente para ganhar um sorriso teu
Nada mais que um presente meu

Fui feliz e frustrado nas tentativas
Mas encontrei a vitória sem querer
Seguindo as asas de um anjo bom
E então surgiu o som

Meio desafinado, meio esganiçado
Pouco importava quando senti tua mão
Vi a primeira lágrima
E a música tornou-se apenas um detalhe

Os versos não eram meus
O ritmo muito menos
A ti, porém,
Soou como a mais bela das criações

E sonhei contigo
Apenas lembrando
Que tudo que faço
Faço por você e para você

Com amor e inspiração

*agora eu sei como a Cameron Dias se sentiu naquele filme.

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Agradecendo

Parti reclamando
Entrei murmurando
Percebi pasmando
A todos vi chorando

Sentindo o calor
Ouvindo as palmas
Lendo a mensagem
Beijando meu amor

Adormeci viajando
Chorei escutando
Caí agradecendo
Levantei relembrando

Caminhando parti
Adentrando as brumas
Vivendo em devaneio
Retornando para ti

Em teus braços chorando
Vendo algo inacreditável
Feliz pelo momento
Vivendo, lembrando e agradecendo
Para sempre

Para você que me viu brilhando
A todos sempre acreditando
E àqueles que continuam caminhando e vivendo

*Espero que entendam o recado meio tardio, mas, anyway. Obrigado. Mesmo.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Noite Solitária

Como sempre, Beregond percorreu seu trajeto até a colina encantada para contemplar as estrelas da noite e a calmaria provocada pela brisa sempre presente. Tudo que estava ao seu redor sempre foi responsável por uma bela melodia, que mudava a cada dia, mas, na maioria das vezes, trazia paz e tranqüilidade. Naquela noite, porém, a colina estava solitária. E silenciosa.

A sensação de solidão já o acompanhava desde que saiu galopando de sua casa. Até mesmo Dreamer, seu robusto garanhão, estava quieto e relinchava muito menos do que o normal, mas este detalhe passou despercebido até que o bardo chegou à colina.

A música não havia partido, ele sabia disso, mas havia se calado um pouco. Ele nunca soube ao certo se a melodia era real ou se, de alguma forma, as centenas de histórias que ele contava sobre feitos românticos do passado haviam materializado tais canções. Também podia ser a magia da colina, mas, naquela noite, até mesmo deste poder Beregond duvidou.

Sentado e só, ele olhou, mais uma vez, para o negrume do céu e buscou inspiração para compor uma nova canção, para que de sua autoria surgisse algo capaz de eliminar aquela sensação de vazio e perda. A inspiração não veio em palavras. Nem sons. Nem pensamentos.

Uma única lágrima escorreu e consigo pareceu carregar anos de pesar e sonhos partidos. Escorrendo dum rosto obscuro, a pequena gota descia sem ser afetada pelo vento gelado e por onde passava renovava a vida no rosto do triste bardo. Ele esperou e torceu para que seu sorriso vencesse a batalha, como sempre acontecia, mas, desta vez, a música não retornou e não foi capaz de recobrar seu sorriso. Austero ele continuou sob o véu de estrelas, na colina encantada.

De certa forma, as estrelas eram as mesmas, as árvores continuavam no lugar e a colina, bem, era a mesma colina. Tudo continuava como sempre havia sido, mas algo mudou. E foi Beregond. Ninguém, a não ser o tempo e o destino, sabe quais as estrelas serão escolhidas, quais caminhos serão trilhados, nem como tudo vai acontecer. Tudo simplesmente acontece. Vários caminhos não existem, apenas um, aquele que trilhamos. E Beregond sabia disso, pois tudo estava diante de seus olhos.

Um caminho árduo e glorioso, mas ainda em seus primeiros passos. Sempre os mais difíceis. Suas grandes batalhas haviam chegado ao fim, e agora restava a ele contar o que havia vivido e fazer sua parte para garantir que erros do passado não voltassem a assolar aqueles que ama. O futuro parecia triste: um tempo de nostalgia e orgulho dos atos grandiosos de outrora, justamente por ninguém mais encontrar tarefas dignas de serem lembradas. As batalhas não mais existirão. As histórias vão ser chamadas de mitos. E os mitos serão lembrados como lendas, antes de serem esquecidos por uma sociedade saudosista sem saber ao certo o motivo.

Mas tudo isso era incerto e os passos precisavam ser dados. E ele se sentiu só, mesmo sem estar. Era um sentimento muito estranho e inquietante, já que não deveria existir. Nem mesmo a colina encantada era capaz de desfazer tudo aquilo e ele só esperava pelo retorno da melodia, que mantinha seu espírito determinado e corajoso. Arriscou algumas palavras, mas nenhuma fazia sentido. Imaginou uma melodia, que logo feneceu e desapareceu. Nada parecia ser produtivo naquela noite.

Então, ele se deitou e entregou seus pensamentos ao gosto da Lua e das estrelas. Olhou para a brilhante Elemmírë, sob a qual foi batizado e que sempre o guiava nas horas de necessidade. Pensou no que se passava no infinito espaço, e seus pensamentos sempre retornavam para dentro de si. Para suas palavras antigas, sentimentos sempre presentes, e temores prestes a ganharem forma. Uma amalgama de idéias, sentimentos e emoções, num ininterrupto looping. Enquanto o circo de estrelas girava ao seu redor Beregond mal conseguia distinguir se tudo havia acabado ou se estava apenas no início.

Apenas uma certeza: tudo era muito triste. Sentir-se sozinho é pior do que a idéia de tombar em batalha e encontrar as respostas finais. Suas mãos pareciam inaptas na criação, como se a awen o tivesse abandonado. Ou vice-versa. Ele havia mudado, mas não sabia o quanto. E temia por isso, mesmo sem saber por que.

Fechou os olhos e mergulhou no devaneio de verdes pastos, Sol quente e a sensação confortante de não estar mais só. Uma sensação sem rosto, sem nome e sem limites, algo que sempre esteve presente, de alguma forma, e ele não se preocupou em perguntar se apenas em devaneio ou se na vida real. Entregou-se ao leve cheiro de margaridas, correu em direção ao campo de tulipas e mergulhou apaixonado numa cascata de águas acolhedoras para, lá no fundo, deixar as brumas e, novamente, ouvir a melodia.

E que queda foi aquela....

sábado, janeiro 10, 2004

Acerto de Contas

Por muito tempo uma certa história ficou restrita a algumas pessoas e acabou-se tornando uma espécie de sonho irrealizado. Pois bem, às vezes tempos poder de fazer de sonhos realidade e, da maneira que posso, gostaria de compartilhar com todos o resultado de uma idéia alegre, de quatro mãos inscansáveis que escreveram esta história. É um conto baseado em Harry Potter, mas, acreditem, há muito mais ali do que o pequeno bruxinho jamais sonhou.

Com vocês, Acerto de Contas*, escrito em parceria minha com Silvia H. Penhalbel, uma autora de primeira grandeza e dona de um coração maravilhoso.

Boa leitura e não esqueçam de deixar seus comentários!

*Requer Acrobat Reader. Obrigado à Mary pela hospedagem do arquivo.
** Se você não leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, esta história contém spoilers.


quinta-feira, janeiro 08, 2004

Espada de madeira

Corre, menino, corre
Serelepe em tua brincadeira
Salva a donzela do dragão feioso
Empunha a espada de madeira
Solta um grito raivoso
E, com um sorriso, sempre corre

Teu mundo é uma aventura
Monstros e belas moças por todos os lados
Mesmo que criados por teus sonhos alados
Nunca perde tua paixão e ternura

Na árvore o oponente
Mortal e feroz com sua lança lendária
À luz da criatividade imaginária
Derrotado apenas pelo mais valente

Menino, corre, e passa o dia
A desbravar novos mundos, mundos novos
Vai longe na cultura destes povos
Criados por tua própria melodia

O crepúsculo traz em suas asas novos desafios
E assim termina o repouso do bravo guerreiro
E também sua breve exploração do formigueiro
Brande novamente tua espada e mergulha tua mente em devaneios

Longe vão teus feitos
Cheios de defeitos
Inesquecíveis são tuas vitórias
Enquanto dura a memória
Feliz repousa o guerreiro menino
Aguardando o primeiro monstro matutino

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Distant Shores

distant or near
but never with fear
throught shadow and light
like the bright starlight

here I am
just like your Sam
waiting for a while
watching you smile

look up, Liliel
beyond the sea
troughout the mist of the mind
where your heart belongs
the distant shore
home of you true power
inside yourself
far from the farewell

like a candle
consuming the last spark of life
inside a cradle
waiting to become alive

it's you.. always was.. always will be..
hantalë, Liliel

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Na Janela

O céu era chumbo e opaco
Visto da pequena janela
Olhos claros e cabelos brancos
Nos rosto castigado

Bondes por ali passavam
Agora carros barulhentos
E seus donos rabugentos
As crianças já não mais passeavam

Assim corria do dia
Calmo e sorrateiro
Como a garoa que caia leve
E embalava a vida

Lá estava ela
Com seus cabelos brancos
Mero detalhe
Quase um entalhe

Perdida e concentrada
Dedicada a apenas olhar
Como que para registrar
Mais um dia de nossa caminhada

Sem sair de sua janela envidraçada
Pensamentos perdidos nas brumas do passado
Sempre presentes como um eterno recado estampado
Um leve olhar, uma alma iluminada
Quase encantada

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Brincadeira de menino

Uma vez olhei para as estrelas
E vi nuvens
Grandes seres brancos
Majestosos e antigos
Mas, de algum modo, jovens

As estrelas descansavam
Atrás do leve manto camurça azul
As nuvens dançavam alegres
E simplesmente caminhavam

Doces formas de algodão
alimentando sonhos
criando monstros
dando vida a heróis e vilões

Elas dançavam ao sabor do vento
Leve brisa confortante
Suficientemente suave para nas nuvens abrir caminho
E levar-me a meu ninho

No caminho, porém, uma nova forma
Uma face
Bela e sorridente
Triste e lutadora
Linda e cativante..

Teu rosto, envolto em raios de luz solar
Capazes de me reanimar
E só me resta olhar
Lembrar
Sonhar...

sexta-feira, novembro 14, 2003

Uma história

O livro foi aberto e não haviam palavras
Apenas uma melodia
Leve e triste
Como algo que existia há muitas eras

Teu rosto surgiu em meio a essa canção
Senti carinho
Devolvi amor
Fui tocado pelo pesar
E fiz-lhe um poema

Lembrei-me de teu espírito
Forte e resoluto
Aquele que, em muitas ocasiões, foi absoluto
Apoio e amigo

Te imaginar infeliz
Sem direção
É tão vil e doloroso
Quanto o giz que quebra
Despedaça e se esvai

Tal como a fênix
Tua força se recobra
E, aos poucos, teu eu acorda
Renasce
Flamejante, vivo
E tão belo quanto um colar de ônix

Sabes ser irmã
Sempre foi amiga
Insuperável em conhecimento
Quando queres e podes, és plena

Pelo vale das sombras passaste, querida
Assim como todos aqueles a quem amas passaram
Tua luz alguns deles seguiram
Teu farol eles podem ser

A vida lhe castiga, irmã?
Não veja assim, provações são constantes
E não chegaste até aqui em vão
Ao acaso

Olha acima das árvores
Além das nuvens
Depois das estrelas
E encontre o que procuras

E não te surpreendas
Quando lá chegar
Se ao acaso descobrir
Que voltaste a ti mesma

Muitas são as baladas deste mundo
Diversos foram seus heróis
Eterna é a tua jornada
Do tempo dos Ainur
Até o crepúsculo de nossas vidas
De tua história

De fadas
Amigos
Aventuras
vitórias

===

may the grace of the Valar protect you.
Luz do oriente

tu conheces tua luz
sabes do que és capaz
mostra, com amor, ao mundo
o que tua luz produz

muitos sábios não ousam
temem a provação
fraquejam na decisão
choram e lastimam

não você, que enxargeste tua luz
e a deixaste brilhar
agradando ao olhar
do pequeno servo
ao grande senhor
todos, porém, escravos, à merce,
de tua alma e teu sorriso

brilha e não tema...

===
4u, Yu!
ps: adorei o wallpaper do Band of Brothers..
Smiling next to you...

Não é do meu feitio, e devo tirar até domingo, mas gostaria de publicar aqui uma música... que me peguei cantando quando pensava em você.. e em mim tmb. Embora não queira, acho que essa música mostra um pouco o que senti e pq fiz essas coisas ultimamente e, temo, ainda precise fazer um pouco mais.. love'ya.

Silent Lucidity
by Queensrÿche

Hush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?

There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize it and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension

I- will be watching over you
I- am gonna help you see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you, in Silent Lucidity

-spoken during solo-
[Visualize your dream]
[Record it in the present tense]
[Put it into a permanent form]
[If you persist in your efforts]
[You can achieve dream control]
[Dream control]
[How's that then, better?]
[Hug me]

If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from the pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...

I- will be watching over you
I- am gonna help to see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you....

segunda-feira, novembro 10, 2003

Simply before..

I know what is to love someone
and I fear it..
however, that will be the way of my life,
it's already underway
and I shall remember this path for my lifetime
If it will be only a good story,
or an everlasting passionate tale,
I don't know,
I just know that I want to live it
To live with it..
To feel the heat of the moment...
and let it grow like the flowers in the meadow
and then, only, then...
think about its consequences...
its rewards
and memories
certain things doesn't happen for nothing...
they have to be a reason..
good or bad
sometimes, one that dwells in between this worlds
and requires no words
only feelings

let us find it, let us rejoice at it, let us live it...
... dream about it and remember it when the time comes

there's no point in living, if we can't feel alive..
Confissões

o que mais posso dizer a alguém capaz de me tomar a razão?
o que mais posso fazer distante desse jeito?
só me resta fechar os olhos e sonhar..
com um sonho que não acabou...
que apenas começou...
e que durará para sempre, como todo sonho bom...
com alegria e paixão...
eterno enquanto tiver que ser

quarta-feira, outubro 22, 2003

Escolhas no Crepúsculo

Minha fé já não é a mesma de outros tempos. Nesses anos todos olhei muito para o abismo, até que ele finalmente olhou de volta. Não foi nada bonito, mas, no fundo, era o que eu queria: saber a verdade. E o que encontrei não era nada belo, nem misterioso. Era tudo muito frio, sem rodeios e tão horrível que não existem palavras capazes de descrever aqueles sentimentos, aquele horror. Hoje em dia nem fico mais com medo, nem mesmo olho assustado para a menor das sombras. Acabei me acostumando, mas não escolhi a cegueira, como alguns de meus colegas. Mantenho os olhos abertos – para luz e sombra.
Esta é minha vida, ou o que restou da vida que aprendi a amar. E hoje sinto falta.

Quando se abre o livro pela primeira vez e todas aquelas palavras saltam como notícias maravilhosas que garantirão nossa salvação é difícil ficar impassível. Mas, desde o princípio, sempre notei que cada boa nova era acompanhada por algo obscuro e, por muitas vezes, sombrio e gelado. Era apenas uma impressão, mas – infelizmente – era tudo verdade. Depois de anos lendo o livro sagrado, as escrituras e seguindo o caminho, finalmente, confrontei as sombras, e os que nela residem. Alguns vivem, outros por lá estão, nem aqui nem lá, nem em lugar nenhum.

Sempre ouvi falar da guerra entre arcanjos e demônios. Ela parecia ser bem plausível, mas, embora muitos não acreditem, é algo que nunca chegará a nós. Isso eu apenas senti, não tenho provas. Assim como aqueles que defendem o contrário também não têm. O que encontrei era muito pior, já que não havia nenhuma força arcana ao nosso lado: apenas a fé. E, devo dizer, nas horas mais difíceis ela fraqueja e é preciso muita perseverança para não cair diante do que se vê. Não é fácil.

Hoje, já nem sei mais se as pessoas que vi, os demônios que enfrentei, os amigos que perdi, mas mentiras que ocultei são verdade. Lembro de tudo em meio a uma névoa, ou à escuridão, realmente é difícil dividir. Vejo as pessoas na rua, caminhando em direção ao trabalho, ou comendo um hot dog, e, em algumas vezes, vejo seres horríveis ou apenas sombras escuras, com a ausência de cor, algo horrível até mesmo de se lembrar. Mas posso ter ficado senil depois de tudo isso. Não me surpreenderia.

Foi difícil aceitar a existência de tudo isso, por mais que o livro houvesse avisado. A fé era grande, mas no mundo moderno e tecnológico parecia não haver mais lugar para demônios, vampiros ou criaturas do gênero. Elas existem, porém. E estão por aí, onde menos esperamos – em plena luz do dia, numa lanchonete, dentro do metrô. Só não somos capazes de vê-las, embora alguns as sintam. Sou um deles. Ao menos fui.

Foi meu amigo Giulianno, um italiano bonachão, quem me mostrou a maioria destas coisas e me ensinou a combatê-las. Ao contrário do que os filmes mostram os vampiros, por exemplo, não são criaturas pirotécnicas e místicas com ares de efeitos especiais. São seres maldosos até aquela coisa podre que chamam de alma. Eles andam por aí, cometendo assassinatos, roubando almas e, nos piores casos, deixando os pobres coitados secos. Quase em pó. Afinal, é muito bonito ver “os sugadores de sangue” no cinema. Na vida real, é a essência que eles levam. Nada bonito de se ver. Para minha sorte, a princípio, eles não podem com a essência dos mais religiosos, ou dos padres, mas, mesmo assim, mataram muitos de nós – únicos capazes de dar cabo dos malditos. Nosso sangue é como água benta para eles. Como nos mataram? Bem, armas de fogo ou adagas dão conta do recado muito bem.

Nem mesmo as bruxas e bruxos resistiram. Embora a Igreja sempre os condenasse, eram eles os grandes defensores do nosso modo de vida. Foi duro ver como a guerra secreta que travaram com as trevas os eliminou quase totalmente da face da Terra. Conheci muitos deles, pessoas poderosas e decididas. E os vi, um a um, tombarem. Sempre tive a sensação de que com cada um deles um pouco do que acreditava e até mesmo um pouco da alegria e vida desse mundo partia.

Naquele tempo, minha fé e convicção eram suficientes para afastar e derrotar qualquer perigo. Mesmo vendo muitos colegas serem executados, mortos ou simplesmente desaparecerem, mantive minha crença e continuei na luta do dia a dia. Até que comecei a identificar o Mal mesmo sobre seus melhores disfarces.

Foram períodos difíceis e temerários. Tirei uma conclusão com isso: na verdade, era um estágio, para o grande combate que viria. Algo muito mais forte e os portadores do estandarte do inimigo seriam aqueles que mais amamos, sob falsas pretensões. Desafiar o Mal é fácil. Enfrentar aqueles que amamos não tem comparação. Mas isso fica para o final.

Esse período de luta, porém, é muito extenso e, talvez, eu conte outro dia. Sabe, o dia em que Giulianno foi assassinado foi muito triste e minha reação me amedronta até hoje. Lembrar do passado como referência é bom. Ter medo dele pode significar a perdição.

Hoje, sentado na minha cadeira e sentindo o leve toque do Sol em minha face, nem parece que já ela já esteve cheia de sangue, lama e suor. Tenho sonhos, sobre pessoas que não salvei, gente que vi morrer, e daqueles que deixei de ajudar.

Minha “preparação” – como resolvi chamar tudo aquilo– parece ter chegado ao fim e o verdadeiro desafio fez-se presente. Ontem de noite, enquanto dormia, senti coisas arrepiantes e, de alguma maneira, sabia que era chegada a hora. Acordei assustado e esperei pelo pior, mas nada aconteceu e o dia, mais uma vez, nasceu em esplendor.

Desde então tenho pensado em tudo aquilo, no que fiz, ou deixei de fazer, no que fui e no que me tornei. E, invariavelmente, parava num ponto: até onde vai minha fé? Teria eu forças para enfrentar a grande tarefa ou sucumbiria debilmente como um velho tolo?

Eis que, de súbito, a verdade que tanto busquei veio à tona, não na forma de iluminação divina, nem na escuridão das trevas. O abismo olhou de volta e quando notei, era eu mesmo quem me olhava. O Sol desapareceu e senti uma forte dor como se todos os meus pecados estivesse querendo rasgar o peito, arrombar minha existência e mostrar o quão corrupta minha existência fiel havia sido.

Entendi, por fim, que era a hora de avaliar o que havia sido e, em minha vã esperança, do que seria após aquele momento de provação. Não consegui me lembrar das escrituras do livro. Não conseguia me lembrar mais das pessoas, tudo que existia era o que eu sentia, pensava e acreditava. Minha fé, sim, ela estava lá. Forte e resistente como uma caixa forte. Talvez esse tenha sido o problema, ela estava tão bem guardada que não consegui abrir a caixa a tempo.

A única saída era confrontar os meus medos. Diretamente, sem nenhuma arma ou escudo. Todas as faces surgiram, as vozes, a cruz, as sombras. Tudo estava junto e, o que pareceu uma eternidade e deve ter ocorrido em instantes, como em toda boa história dramática, passou e, de alguma maneira, minha decisão havia sido tomada. Eu nem sabia ao certo qual era ela e sobre o que tinha que decidir, mas tinha feito.

Continuei naquela espécie de limbo, imaginando o que viria a seguir. Mas nenhuma maravilha aconteceu. Nem mesmo aquele arquiinimigo surgiu pelas costas me apunhalando, ou tentando sugar minha essência. Não era um enviado das sombras, nem mesmo um reles ladrão comum que decidiu invadir esta pobre casa.

Era o meu julgamento. A hora de por à prova tudo que acreditei durante minha vida. Um momento só meu, e havia passado.

Fechei os olhos. Para não mais abrir. Não naquele lugar. Não contra aqueles inimigos.

E ainda sem saber ao certo, qual fora minha decisão. A noite caiu e com ela, a escuridão.

===

O nome da história teve participação da minha querida Silvia. Obrigado.

quinta-feira, outubro 16, 2003

Um Futuro

O trabalho é árduo
Mas ele luta com vontade
O descanso vem em pequenas doses
Mas eles aproveitam cada momento

O sofá confortável
Na penumbra da noite
Com a leve brisa noturna
E filme clássico na tv

A noite perfeita
Olhar para as estrelas é inevitável
Os pontos brilhantes, como seus olhos
Sempre presentes, nas horas difíceis
Desde o início, de nossa vida juntos

Uma sensação agradável toma o ambiente
Levemente, uma voz ecoa na memória
Em seguida, um sorriso
Um modelo, alma gêmea
Um rosto

Silvia

sexta-feira, outubro 10, 2003

Passagens *

"Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso."

* Antoine de Saint-Exupéry
Botão, botão, quem encontrou o botão?

No alto de uma árvore, duas fadinhas gêmeas que lá moravam enfrentavam algo novo em suas vidas. As belas folhas verde limão e os pássaros que, diariamente, iam saudá-las não importavam. Seus afazeres diários como fadas dedicadas que sempre foram – fiscalizar o bosque, ajudar os passarinhos feridos, acordar as últimas flores dorminhocas para que se abrissem, e etc. – também ficaram de lado.

Elas estavam brigando.

E, pela primeira vez em milênios, elas não pensavam no bem-estar uma da outra, mas sim, num novo e misterioso objeto que elas encontraram. Não parecia mágico, mas era intrigante.

Para elas era algo grande e bem sólido. Era redondo e, dentro dele, haviam 4 buracos simétricos que, embora elas não soubessem para que servia, naquele momento, eram os pontos em que suas pequenas mãos se encaixavam em meio à disputa pelo curioso objeto. A briga havia começado pela manhã, quando Li, a fadinha dourada retornou de seu passeio matinal. Com dificuldade, ela carregava o achado e queria mostrar para a irmã, a fadinha celeste Ti.

Ao acordar de seu doce sono, Ti deparou-se com a novidade e, sem pensar muito, tomou-o para si. Li não entendeu nada e a luta pelo achado começou. No começo foi um empurra-empurra para ver quem ficava mais perto da coisa, mas aí elas acharam os buracos e o cabo-de-guerra miniatura ganhou forma.

Mal sabiam elas que o maravilhoso objeto capaz de encerrar séculos de paz e harmonia era nada mais que um botão, um simples botão que caiu da fatiota do velho Mork, um ermitão que passeava pelo bosque encantado - sem saber que ele era encantado, diga-se de passagem - no dia anterior.

Ti e Li sempre tiveram tudo em dobro, por puro capricho da natureza. Por serem irmãs gêmeas – diferentes apenas por sua cor – elas moravam numa árvore com dois quartos idênticos, formados por folhas e galhos antigos, flores novas, e com janelinhas delicadamente criadas para fazer com que o brilho do Sol atingisse suas camas nos primeiros minutos da manhã.

Elas sempre encontravam número suficiente de frutas para as duas, no café da manhã; flores belas a serem colhidas, sempre em duplas; tarefas diárias dobradas; enfim, tudo em dose dupla para que elas dividissem tudo alegremente e sem reclamar. Mas o botão, bem, o botão era um só e não foi colocado ali pelo grandioso plano da natureza para garantir a felicidade das fadinhas guardiãs do bosque encantado.

É bom dizer que o botão não era nada malévolo ou parte de algum grande plano das criaturas sombrias. Era apenas um botão, como qualquer outro botão.

As fadinhas viviam no topo da árvore e ele era bem alto, já que o lar das guardiãs era uma espécie de torre de vigia do bosque e, mesmo que alguém lá embaixo olhasse para cima, distante dos olhos curiosos, especialmente dos humanos. Por isso, ninguém viu que havia agitação entre as pequenas fadas. Nem mesmo as criaturas encantadas, que ainda dormiam, já que seus dois despertadores estavam, hum, entretidos com outros assuntos.

E a briga continuava.

Elas não falavam muito, no máximo, ouvia-se uma série intercalada de “É meu”, “Não! É meu!”. E os puxões para lá e para cá pareciam não ter fim. Um pequeno detalhe, porém: a cada solavanco que uma delas levava fazia com que seus pequenos corpos liberassem uma grande quantidade de pó-de-fada (algo importante para a magia da fada, aliás, muito importante). O pó de Li era dourado e bem fininho, enquanto o de Ti era azul celeste e um pouco mais denso. Um verdadeiro espetáculo de cores formava-se dentro da casa das fadinhas. E, como disse, ninguém viu. Nem mesmo elas davam muita atenção a isso.

Ti parecia um pouco mais forte e era Li quem parecia não agüentar sequer o peso do botão, mas, quando a luta parecia aproximar-se de seu final, ambas renovavam suas forças e tudo recomeçava. Bem, é muito fácil para quem é imortal e descobre a existência de algo tão intrigante assim. Afinal de contas, pensou Li, para que serve isso? Deve ser de algum bruxo! Vou aprender alguma magia nova!

Ti, por sua vez, queria o objeto por tê-lo achado bonito e ser a mais velha. Eu tenho direitos e sou mais forte, imaginava ela. Tudo bem que ninguém sabia quem nasceu primeiro e muitos animais e árvores antigos jurassem que elas acordaram ao mesmo tempo, como a mesma fada dividida em duas. Aliás, fadas gêmeas são extremamente raras e, excêntricas. Elas até que resistiram bastante.

Com cada tranco que elas levavam, o pó-de-fada caia e ia tomando conta do chão da casa. Logo, uma leve brisa entrou pelas janelas e começou a levar o pó embora, inclusive os pequenos pontos brilhantes que nem chegavam a cair no chão e logo voavam para longe. Era lindo, mas elas mesmas conseguiram ver. O primeiro a notar foi um pequeno esquilo que, num galho distante, foi atraído pela amalgama de cores e por uma nova cor, nascida da mistura do dourado com o azul celeste.

Qual era? Bem, ela havia acabado de nascer e ainda era nova demais para ter um nome, pelo menos foi o que o esquilo pensou. Ele olhou por um bom tempo e, depois de guardar em sua vasta memória, continuou a empurrar sua bolota em direção a sua pequena toca.

No caminho para casa, ele contou a alguns outros seres das árvores e, logo, pássaros, esquilos, formigas vermelhas de barriga verde, mosquitos-camelões e mais um monte de gente estavam falando a respeito da nova cor e de sua beleza.
Lá dentro, as Ti e Li continuavam sua disputa.

Quando um certo número de seres encantados já estava perto da casa de Ti e Li, a nuvem formada pelo pó-de-fada era tão grande, que era possível ver mesmo à distância. Alguns dos espectadores sabiam que ali se reunia grande poder e muita magia, algo visto com pouca freqüência.

Uma fada que morava ali perto foi convocada pelo Senhor dos Rouxinóis e, assim que possível, seguiu em rumo à aglomeração. Seu nome era Ni, uma prima distante das duas encrenqueiras, mas elas não se viam há muito tempo.
Na copa das árvores, perto da casa de Ti e Li, havia uma grande reunião, mas, lá embaixo, tudo era calmo e pacato. As criaturas não-encantadas e até um homem passeavam pelo bosque, aproveitando a bela manhã de primavera e seu clima agradável. O homem, inclusive, resolveu descansar um pouco, depois da longa noite de caminhada, encostou-se na árvore onde moravam Ti e Li e tirou uma soneca.

Conforme a confusão continuava, quem estava assistindo notou com a nuvem de pó-de-fada agora tomava a forma de uma grande fada que hora parecia Ti, hora parecia Li. Ela parecia dançar no céu azul e entre as folhas brilhantes e verdes. Ela apareceu como um bebê e, pouco a pouco, foi assimilando mais e mais pó e, logo, tinha o tamanho de uma criança humana, mas ainda com seu formato de fada. Suas belas asas, seu cabelo sedoso e suas orelhinhas pontudas.

Era um espetáculo e tanto. Ninguém se atrevia a chegar perto da casa das fadas, da nuvem dançarina e, muito menos, chamar as duas para saber o que estava acontecendo. Eles limitavam-se a olhar e a admirar espetáculo tão lindo.
A fada brilhante continuava dançando e cativando a todos. Muitos juram até hoje que ouviam uma leve música emanar daquele ser maravilhoso. E boa parte desse pessoal não acredita que tudo isso aconteceu por causa de uma briga boba, alguns sequer acreditam na existência do botão do velho Mork, que ainda andou por ali uns bons anos.

Finalmente, Ni chegou e foi direto à porta de entrada da casa das primas. Ela era pequenina como Ti e Li, mas sua cor era esverdeada. Ela confundia-se com a coloração das folhas ao redor da casinha e, às vezes, parecia um pequenino inseto caminhando sobre duas perninhas.

Ela bateu uma vez e, como não ouve resposta, resolveu entrar. A pequena porta não tinha fechadura, já que fadas não se preocupam com gatunos e ninguém com uma mente tão vil alcançaria suas casas. Ni entrou e, logo em seguida, viu as primas atracadas ao objeto misterioso e não entendeu nada.

Ela chamou pelas duas, mas sem sucesso. Elas estavam envoltas em sua própria magia e o show de luzes dentro da pequena casa era muito mais impressionante do que do lado de fora.

Enquanto isso, nas árvores, a fada brilhante parou de dançar e, para espanto de todos os presentes, fez uma cara de preocupação. Ninguém sabia o que havia acontecido e, logo, começaram a culpar a fada Ni pela interrupção do espetáculo.

Dentro de casa, Ni notou que o único meio de impedir que tudo aquilo continuasse seria interromper a briga. Mas como? Aí ela entendeu que aquela coisa redonda era a chave de todo o problema.

Em meio às brumas brilhantes e mágicas, Ni voou em direção às duas irmãs, que oscilavam para cima e para baixo na luta pelo botão. A velocidade da fada esverdeada foi tão grande que ela acertou o botão em cheio. Ti e Li caíram uma para cada lado e viram o botão ser arremessado pela janela mais alta de sua casa.

Os espectadores do show da fada brilhante notaram um pequeno objeto marrom sair da casinha e ir em direção ao espetáculo de luzes. Como todos olhavam para o botão, ninguém percebeu que a fada brilhante se desfez e se transformou numa cachoeira de luz e magia, que começou a descer como se um grande rio lá estivesse. Todo o pó-de-fada seguiu o mesmo caminho e encontrou seu descanso dentro de uma flor copo-de-leite alguns metros abaixo de onde tudo havia acontecido.

Para lá também foi o botão, que caiu no mesmo lugar e fez com que três gotas caíssem do copo-de-leite.

Ti e Li, mais tarde, perceberam que haviam ficado fracas e arrependidas pela briga. Mas nenhuma delas ficou feliz com o fato de Ni ter perdido aquele artefato curioso e motivador de tudo. Acima de tudo, elas queriam saber o que aquilo fazia, mas não seria desta vez. O show havia terminado, o bosque encantado voltara ao seu normal e, acima de tudo, o poder das fadas mostrou sua força, mesmo sem o consentimento de suas donas.

O que restou foi um copo-de-leite cheio de vida e com um botão que lá no fundo deitou enquanto uma das gotas que ele causou mudaria o mundo.