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quarta-feira, novembro 07, 2007

A Celebração na Chuva

As sombras podem insistir em tentar cair sobre o mundo, mas momentos de luz mantém nossa esperança.
E momentos assim só podem ser criados por pessoas especiais e boas.
É isso que vivemos aqui hoje.
Há muito tempo, o mundo era um só, mas se separou e criou seus diversos povos.
Nossos antepassados. Todos aqueles que trilharam o caminho que hoje seguimos. Honramos todos eles com nossa vida e, mais que tudo, com nossa felicidade e fé.
Fé num mundo melhor. Num mundo que não precise de cura.
Muitos podem nos chamar de tolos por celebrar as velhas tradições, mas essa tolice traz bondade e muita felicidade até mesmo para a própria terra em que pisamos nesse instante. Assim como ela, nós fazemos parte desse mundo. Porém, diferente dela, nós podemos fazer a diferença.
Podemos fazer escolhas que importam.
Hoje, Yuri e Claudio mostram o motivo de serem especiais. Esse círculo sagrado, do qual participo com muita honra e emoção, é mais um pequeno passo em direção a um futuro promissor. E, sem medo de ser piegas, um futuro de amor e compaixão. Idéias podem mover nações, mas só o amor e a paixão pelas pessoas e por essas tais idéias é capaz de promover a mudança no mundo. A cura sempre buscada pelos druidas.
Muitos de nós aqui nos conhecemos por causa de paixões em comum e hoje, presenciamos e honramos, o resultado da paixão e do amor entre a Yuri e o Claudio. O caminho de vocês já começou faz tempo, mas, agora os deuses olham por vocês. Eles não pedem dinheiro, não pedem orações, não pedem fanatismo. Pedem... na verdade clamam, para que suas vidas sejam honrosas, que sua sabedoria seja transmitida a seus filhos e que nunca deixem de respeitar um ao outro e a todos que estejam à sua volta.
Lembrem-se, cada passo muda a vida de tudo e todos em nosso mundo. Vivam com companheirismo e honestidade, pois isso fará com que todos os seus passos gerem o bem para todos nós.
Os deuses olham por nós, se fazem presentes com a brisa, um facho de luz num dia de chuva, na inspiração, mas é nossa a obrigação de viver com dignidade. Acima de tudo, vivam e façam de suas vidas e de sua união, exemplos para quem quiser ver. Amar e respeitar não é uma obrigação, é uma escolha, que agora vocês tomam definitivamente e lhe somos muito gratos por estarmos presentes num momento tão único, especial e sagrado.
Que os olhos de todos os pássaros guiem sua visão, que a força de todos os ursos garantam a sinceridade de seus abraços, que a sabedoria de todos os seus ancestrais acompanhem suas decisões e que a serenidade de todos os druidas do passado e do presente mantenham sempre a vida de vocês no rumo que escolherem.
Na paz eu os conheci. E na paz quero sempre encontra-los, meus amigos. Sinto-me honrado ao dizer essas palavras e espero que vocês se sintam felizes por, uma vez mais, trazer esperança e luz a um mundo cada vez mais carente de pessoas boas e especiais como vocês.
Que os deuses sempre iluminem suas vidas. O futuro é de vocês.


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Yuri e Claudio, parabéns e boa sorte!

sexta-feira, junho 29, 2007

A Primeira Decisão

A Primeira Decisão

Por mais que os anos tenham mostrado a Beregond que ser bardo era sua missão, nem sempre foi assim tão fácil levar suas palavras aos ouvidos desconfiados de outras pessoas. Na verdade, era difícil até mesmo falar com sua própria voz e transmitir tudo aquilo que sua inspiração lhe trazia. Depois de um dia difícil, no qual vários aprendizes haviam se mostrado contrários ao modo antigo e aos conceitos das velhas histórias, ele decidiu contar uma nova passagem de sua vida. O dia em que encontrou a inspiração.

Foi bem fácil lembrar, novamente, da casa de seu pai. Desta vez, porém, não havia nenhuma lição que seus pais pudessem lhe transmitir. Aquela era sua hora, única e exclusiva dele. Mas, como tudo na vida, Beregond só perceberia a singularidade daquele momento mais tarde.

Seu pai havia acabado de voltar de uma caçada, que terminou com uma breve reunião dos chefes de família de Tara. Havia um rebuliço envolvendo rumores de guerra ao Norte e ao Leste, mas aquela terra era afortunada e poucos de seus filhos perdiam a vida em batalhas, já que poucas aconteciam naquelas paragens. Trouxera consigo boa carne e algumas frutas que colheu, como de costume, no caminho de volta.

O fogo já estava aceso e, quando o jovem Beregond desceu da árvore que explorava no bosque, faltava pouco para que o cervo lhes fornecesse alimento para aquela noite. Beregond limitou-se a olhar para o grande espeto que girava sobre as labaredas. Ouviu um pio e, pela primeira vez, encontrou seu amigo Pardal. Ele repousava sobre a janela e apenas observava. Mas, como muita coisa naquela noite, o Pardal ainda era um pequeno detalhe.

Seus pais discutiam alegremente sobre os planos para a próxima estação, porém, um desacordo acabou com a alegria e o clima tenso incomodou Beregond. Sem saber o real motivo, ele sabia como resolver aquele impasse, que, a seu ver, era algo bem simples. Porém, sempre havia ficado de fora de discussões dos adultos – não importava se envolvessem seus pais ou os líderes de Tara nas reuniões na cidade.

Uma tristeza muito grande tomou conta do bardo. Ele continuou sentado e pensativo enquanto acompanhava o cervo sobre o fogo. Já havia pedido permissão ao espírito do animal para que sua família se alimentasse uma vez, mas, sentiu que uma nova benção era necessária, já que suas preces sempre levavam como justificativa o clima de harmonia com o qual sua família faria a refeição.

A discussão aconteceu por conta do último inverno, que castigou a casa de Beregond e tornou a vida muito difícil por causa do frio e da neve que entrava por algumas frestas na madeira. O pai de Beregond queria construir uma nova casa, menor, mas num local menos castigado pela nevasca para passarem os invernos. Sua mãe, porém, relutava por precisar ficar longe de seus próprios pais e irmãos, que ali moravam.

Beregond lembrava-se muito bem daquele inverno. A comida não faltava, mas era difícil dormir, os dedos doíam e não havia pele que os protegesse do rigor do frio. O jovem sabia que algo precisaria ser feito. Seu pai adorava construir coisas, melhorar o que havia feito e sempre se adaptava aos novos desafios. Sua mãe, por outro lado, tinha conceitos muito arraigados, tinha medo de viver longe da família e tinha medo do novo, do que não pudesse controlar. De certa forma, ambos se completavam, mas essa completude começava a causar problemas.

No dia seguinte, no mesmo horário, o jantar estava posto. Embora o cheiro do ensopado estivesse delicioso, não havia aquele lampejo de alegria nas conversas. Apenas um silêncio incômodo envolvia a todos. Beregond havia passado o dia no Bosque onde, pela primeira vez, o Pardal se apresentou. Eles conversaram sobre as criaturas do lugar e o jovem perguntou a seu novo amigo sobre o que fazer. O pássaro alçou vôo, girou ao redor da copa das árvores e, minutos depois, pousou novamente ao lado de Beregond.

Sua resposta veio em seguida.

– Os pássaros migram para o Sul, com o frio. É nossa natureza pura e simples. Foi assim com nossos ancestrais e será assim com nossos filhos.

Beregond ouviu com cuidado, fez mais algumas perguntas e ambos começaram a rir com os alegres relatos do passarinho contador de histórias.

O silêncio persistia à mesa. Embaixo de sua cadeira, Beregond carregava um pacote. Propositalmente, encostou no embrulho como pé para chamar a atenção. Sua mãe mordeu a isca. Ele, receoso e preocupado com o que estava para fazer, engoliu seco, olhou para baixo e começou.

– Ouvi vocês brigarem ontem. E meu coração encheu-se de tristeza. Passei o dia pensando para ter mais clareza. E dizer o que digo agora com toda certeza – rimas eram difíceis, mas o Druida sempre dizia que funcionavam para chamar a atenção. E funcionou, seu pai começou a prestar atenção logo depois da primeira frase e agora ambos olhavam fixos para o rapaz. – Não devemos agir com tanta frieza e, tampouco, temos o direito de tirar de nossa vida toda a beleza. O inverno é obra da mãe natureza e é devemos admirar sua pureza, e não amaldiçoá-lo por nossa avareza.

Foi a vez do pai falar. – O que quer dizer com isso, meu filho? E o que tem embaixo da cadeira?

– O Druida sempre ensinou que precisamos viver em harmonia e que ela começa aqui. Dentro de casa. Como vou conseguir continuar o treinamento se não existe paz em meu próprio lar?

Pai e mãe permaneciam em silêncio.

– O que tenho aqui é a solução. Ela é simples e pode não funcionar tão bem, mas é um começo. Acho que precisamos de um novo começo, mais unido.

E, dizendo isso, retirou o pacote e colocou-o sobre a mesa.

– O inverno é frio e todos sofremos com ele nessa casa, que sempre será nosso lar. Mas, assim como tudo na natureza, precisamos nos adaptar. Assim como os pássaros que vão para o Sul quando o inverno chega, nós também podemos ir para onde papai sugeriu. Tenho certeza que ele construirá uma casa boa e gostosa apenas para o inverno. Aí teremos duas casas! Não é bom?

Os adultos limitavam-se a trocar olhares.

– Mas mamãe tem medo de ficar longe do vovô e da vovó durante todo o inverno, por isso fiz isso – e abriu o pacote.

Os olhos de sua mãe ficaram esbugalhados. Dois retratos e um par de botas de neve.

– Para que isso, meu filho? – perguntou a matriarca.

– Com as fotos do vovô e da vovó na parede da casa nova você não vai sentir tanta saudade deles. E com as botas eu posso levar cartas suas para a vovó uma vez por semana ou ir pedir ajuda, se precisarmos. Além disso – olhou para o batente da janela – o Pardal também pode nos ajudar.

Todos olharam e lá estava o pequeno pássaro. Ele deu um pio e voou para longe. Embora fizesse sentido na história do garoto, os adultos não acreditaram na parte do Pardal ajudar.

– Filho, é perigoso sair sozinho durante o inverno. Mas a idéia das fotos é muito boa – respondeu o pai. Sua mãe tinha lágrimas nos olhos, pois segurava as imagens e admirava a dedicação do filho.

– Você fez tudo isso por nós? – e olhou para o marido enquanto perguntava.

– Fiz isso por todos nós, e pelo mundo. Não pode haver paz lá fora se, primeiro, não existir paz aqui dentro. E, pai, o Pardal pode ajudar sim, ele...

Toc, Toc, Toc.

Não era comum receber visitas àquela hora, por isso, todos olharam.

O pai de Beregond foi até a porta e, quando abriu, foi surpreendido pela presença de Samildarach, o Druida de Tara.

– Boa noite, meus amigos. Boa noite, Aprendiz – dirigiu os olhos a Beregond – Os deuses me dizem que preciso falar com alguém desta casa. Existe algum problema em que possa ajudá-los? – disse o Druida.

Sorrindo, e segurando a mão de sua mulher, o pai de Beregond respondeu. – O problema existia, Samildarach, mas foi nosso filho que solucionou.

Ele estava prestes a começar a contar a história quando o Druida o interrompeu.

– Não precisa contar, meu caro, já fui informado de tudo que o Aprendiz fez.

– Mas como? – indagou indignado.

– Meu amiguinho aqui levou a notícia e me chamou – e apontou para o Pardal que, agora, repousava em seu ombro.

Uma vez mais, os pais de Beregond ficaram boquiabertos.

O garoto, porém, limitava-se a olhar tudo o que acontecia.

– Beregond, venha até aqui – ordenou o Druida, que o treinava há cinco anos.

– Sim, senhor.

– As notícias do Bosque alcançaram meus ouvidos e seus atos falam por si só. Os deuses lhe favorecem e sua inspiração se torna cada vez mais impressionante. A partir de amanhã, ninguém mais poderá chamá-lo de Aprendiz, jovem Bardo.

Os olhos de Beregond encheram-se de lágrimas ao ser chamado de Bardo pela primeira vez. Ele deveria conseguir o título em mais alguns anos, mas algo extraordinário aconteceu ao encontrar o Pardal e tudo aconteceu mais rápido.

– O... oo... brigado, senhor.

– Que essa seja a última gaguejada, garoto. Bardos não podem gaguejar – brincou o Druida.

Um leve sorrido tomou o rosto de todos.

Uma vez mais, o Pardal piou e partiu. Seus pais, Samildarach e ele mesmo sentaram-se para jantar e o ensopado, realmente, estava incrivelmente delicioso.

E foi assim que a voz de Beregond foi ouvida pela primeira vez, seu julgamento trouxe a paz e orgulho para seus pais.

Naquele dia, ele aprendeu a superar seus medos, enfrentou um problema que seria muito maior no futuro e conquistou sua liberdade. Com simplicidade, força de vontade e amor por sua família.

quinta-feira, junho 21, 2007

O Bardo

O Bardo*

O coração do Bardo respondia a um chamado.
Nas distantes terras do Ulster sua habilidade era requisitada.
Sua razão era desconhecida, mas ao Bardo só restava iniciar sua jornada.
Caminhou então, em direção ao norte, seguindo o desejo de seu coração desesperado.

Guerra e tristeza foi o que encontrou,
Pois o coração dos homens clamava por luta e vingança.
E o sangue continuava a jorrar frente a tamanha matança.
Ao chegar, depois de muito pesar, o Bardo não acreditou.

Seu coração o alertou sobre o fim de seu caminho.
Nem jovem, nem velho. Nem homem, nem mulher escapava da guerra.
Para ele era claro que era chegado o fim de uma era,
Mas só o que fez foi pensar em todos com carinho.

Sentou-se numa pedra e começou a tocar e cantar,
Ao fundo ouvia-se apenas as espadas e lanças a ecoar.
Sua música aumentou e com ela as batidas de seu coração.
Atingidos por tão sincera melodia, espada e lança baixaram perante a canção.

Depois de muito tempo, o ardor das armas perdeu seu poder,
E as palavras do Bardo superavam o mais hábil dos guerreiros.
Todos caíram como que por um feitiço que parecia nunca esmorecer.
Sua canção aumentava cada vez mais,
Mas apenas para encontrar mais e mais lugares em que ela tivesse significado.

E, bravamente, o Bardo entoava suas histórias e instaurava a paz.
Do interior do que seria a última chacina veio a Luz.
Dentro de um belo vestido azul estava a imagem capaz de esmorecer o ímpeto do rapaz,
Mas nem mesmo essa visão o fez desistir de sua missão.
De ao outros mostrar a compaixão mesmo que para isso perdesse seu coração.

E assim foi até que a última das batalhas tivesse acabado.
E seu valente coração o abandonado.
Lá deitou o Bardo, nos braços daquela que o convocara,
Para que de suas palavras surgisse um novo começo.

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* Foi esse poema que começou com tudo, que mostrou meu caminho bárdico e foi o responsável pela criação desse blog. Como uma nova fase se inicia, nada melhor que invocar a pedra fundamental de meu trabalho. Abraços a todos!

terça-feira, junho 19, 2007

A Balada de Cathain

A Balada de Cathain*

Das brumas da memória a deusa é convocada.
Assim ergue-se Cathain, a justa.
Lutando igualmente por todos os homens.
E também por amantes abandonados.
Numa alta torre, que ninguém era capaz de abrir,
Seu coração foi trancafiado.
Até surgir um príncipe do Leste do Ulster.
Seu nome era Conchobar.

Nos dias treinava a arte das armas
Com a deusa, espada, maça e arco.
E, à noite, ascendia o ardente fogo da paixão,
Que apenas os amantes conhecem.
Então, o guerreiro tornou-se rei,
Depois de muitas batalhas sangrentas e apaixonadas.
O trono pertencia a Conchobar
E Cathain, para a memória retornou.

Inimigos sombrios levantaram-se contra o rei,
Desafiando-o por seu trono.
O destino do Ulster ficaria na balança,
Sem seu campeão.
Um druida partiu para fazer um sacrifício.
Uma oferenda a Cathain.
Uma bela donzela com cabelo dourado
Morreria não uma, mas duas vezes.
Duas vezes.

Mas Cathain não mais retornaria,
Para lutar a guerra do rei.
Enquanto o druida não fizesse a honraria,
Na distante Conamara.
A virgem Iona, pura e doce,
Deitou-se na mesa livremente,
E na sedenta pedra de Corclach
A inocente foi sacrificada.

A deusa guerreira surgiu em fúria
Do berço do Mar do Oeste.
Milhares ela matou com seus punhos de aço,
Naquele dia sangrento.
Salvou o reino e cumpriu sua tarefa,
E desapareceu sob ondas espumantes.
Até que o sacrifício dos filhos de Ulster
Clamassem, novamente, por seu retorno.

==
*Tradução da canção The Ballad of Cathain, de Grant Lee Phillips. Recebi essa música há anos e sempre tenho escutado, mas só hoje resolvi arriscar uma tradução/adaptação para o português. Quem conhece minha história vai entender o porque isso, especialmente por se passar no Ulster.

Original abaixo.

The Ballad of Cathain

Bid goddess rise from mists of memory
Rise the fair Cathain
In battle the equal of every man
And every lover disdained
Her heart was locked in a roundtower's keep
And none that gate could unbar
Till rose a prince in Ulster's east
His name was Conchobar

By day she taught him feats of arms
With sword and mace and bow
By night they kindled passion's fire
That only lovers know
So king and warrior thus were joined
In battles blood and love
The throne belonged to Conchobar
To Cathain the Witch's Glove

Dark rivals rose against the king
To challenge for his throne
All Ulster in the balance hung
Without its champion
A druid he sent to sacrifice
An offering to Cathain
A maiden fair with flaxen hair
Not once but two times slain
Two times slain

Ooh ooh ooh

But Cathain she would ne'r return
To fight the kings own war
Till druid did a virgin bring
To Conamara far
The fair Iona pure and sweet
On the self-same table lain
And by the Corclach's hungry stone
The innocent was slain

Hey hey hey
Hey hey hey

In rage the warrior goddess from
The Western Sea arose
Her bloody gauntlet dealt that day
A thousand fierce deathblows
The kingdom saved her quest complete
She sank beneath the waves
Till Ulster's sons with sacrifice
Bid her return once more.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Anoitecer na Ravina

Anoitecer na Ravina

Certo dia, Beregond encontrou seu filho. Sentado numa ravina, apreciando o pôr do sol, o bardo viu um garoto se aproximar. Calmo, mas com um sorriso angelical no rosto, o menino de cabelos claros e olhos cativantes foi chegando cada vez mais perto. Às vezes, desviava seu olhar para uma borboleta que passava por ali, ou perseguia um grilo em disparada pela grana. E continuava chegando mais perto.

Beregond nunca havia visto o garoto, que poderia ser qualquer um, mas, de alguma forma, ele sabia que ali vinha seu filho. Uma sensação estanha tomou conta do bardo, que chegou a duvidar de seu sentimento, mas, quanto mais se questionava, mais a certeza crescia. Ele queria ir ao encontro do garoto, mas lhe agradava vê-lo brincando com a natureza.

Como se assistisse a um espetáculo, Beregond limitou-se a olhar. E por muito tempo olhou. Por vezes, o garoto olhava para ele, sorria e continuava a brincar.
Por fim, eles se encontraram. Beregond estava pensando numa nova poesia e nem percebeu que a seu lado estava sentado o garoto. O filho.

Como se chama?, perguntou o bardo, enquanto sentia cócegas por uma formiga que andava por sua mão. O garoto, nada respondeu, e imitou o gesto, procurando por uma formiga na grama.

De onde vens, pequenino?, tentou novamente. Desta vez, Beregond deitou-se e entrelaçou os braços atrás da cabeça. Com um sorriso, o menino, novamente, o imitou. E gargalhou. Deitados eles ficaram por uma eternidade. A presença do garoto era reconfortante, e bastante alegre, mesmo sem falar nada.

E juntos eles se assustaram com um bando de pássaros que saiu das árvores em polvorosa, suspiraram quando o Sol finalmente se pôs, e contaram as estrelas em volta da Lua procurando a estrada para a terra eterna. Beregond não perguntou mais. Algo lhe dizia que não era necessário. E simplesmente desistiu. Escolheu aproveitar o momento.

O garoto dava risadas. Rolava pela grama. Agora foi Beregond quem o imitou. Brincaram muito, trocaram muitos olhares. Uma coruja chegou, pousou num galho próximo e os observou por um longo tempo. Eles olharam de volta e seriam capazes de entrar e viajar pelo conhecimento do pássaro, mas preferiram ficar ali mesmo. E assim foi.

Beregond adormeceu e não viu o garoto partir. Ganhou um beijo, um carinho, e dormiu mais profundamente.

Na manhã seguinte, era seu amigo pardal quem estava a seu lado. Beregond perguntou sobre o filho e o companheiro lhe contou que era realmente seu filho, mas ele só viveu por um momento que se transformou na eternidade da mente do bardo. Sentou-se novamente no gramado e contemplou os primeiros raios do Sol que vinham das montanhas do Leste. Uma lágrima escorreu e, conta o pardal, milhares de navios poderiam navegar por suas conturbadas ondas de tristeza.

Então, Beregond repetiu a pergunta: Qual é o nome dele?

O pardal fez um piu, olhou para baixo e tocou com o bico no solo. Olhou para o amigo e partiu.

Beregond olhou para o mesmo lugar e lá encontrou uma palavra escrita por gravetos: Futuro.

E se lembrou de tudo que poderia ter sido, ou que do ainda estar por vir.

Lá no alto, o pardal só observava.

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Sail Away in the tears of time...